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ELEIÇÕES PRIMARÍSSIMAS

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ISTOÉ

1998

 


Está chegando a hora das eleições para presidente do grêmio do curso primário no Instituto de Reeducação Brasil. Concorrem alunos do primeiro ao quarto ano primário. Votam, igualmente, estes pequenos e astutos alfabetizandos.

De um lado, com o maciço apoio da diretoria e do Pelé (você já notou como o Pelé está cada vez mais com cara de porteiro de edifício chique?), concorre o Fernandinho (aquele de belas camisas xadrezas) atual presidente e que, no momento, tem a preferência dos que estão aprendendo a ler e a escrever. Concorre contra ele o Gula, aluno que está repetindo pela terceira vez o primeiro ano. Diz ele, com sua voz rouca que parece de gente grande, que não passa de ano por absoluta perseguição dos professores e total falta de sorte. Todo ano, segundo ele mesmo afirma, no exame final cai o Descobrimento do Brasil, justo o único ponto que ele não estudou. Realmente é isso que se chama menas (é menas mesmo, revisão!) sorte.

Os amiguinhos do Fernandinho acham que o Gula, tal Zagallo, tá mesmo gagá e fica muito contente com isso. Imagine você que na escola tem um aluno que todas as mães odeiam, que só faz baderna, tira péssimas notas e o Gula gosta dele. O nome do traquinas é Br-Isola. Dizem que há muitos e muitos anos atrás era um bom menino, mas agora só faz bobagem. Imaginem a loucura que o Gula está a fazer. Cismou que só sai candidato se o Br-Isola estiver com ele no palanque (aquele lugar onde fica a mesa da professora e a maçã que o Fernandinho leva todos os dias, aconselhado pela mãe dele, a dona Ruth). Um menino do Ceará, o Cirinho, abriu uma guaraná para comemorar quando soube de tal aliança, com o Br-Isola. Todo mundo diz para o Gula que é loucura, tal amizade. Mas o Gula, apesar de quase estar com aquele chapeuzinho em forma de cone na cabeça, não abre mão da colorida (mais para vermelha) amizade, apesar de já terem comido sapo cru juntos e um ameaçar trocar a mãe do outro por um picolé. Ninguém na classe consegue entender este comportamento, essa estranha amizade do Gula.

Como se isso não bastasse, o Gulinha reuniu a turma dele e organizou um saque à cantina da escola. Não ficou quibe sobre quibe, como diria o Paulinho Salim. Não restou nenhuma coxinha na prateleira, além de quebrarem todas as cocacolas, símbolo máximo do imperialismo das escolas particulares. Gula, como seus pequenos asseclinhas, acha que este é o caminho para provar aos semi-analfabetos eleitores, que ele é fodão. Quase que eu escrevo bundão. Gulinha, apesar de negar, tem voz rouca e ativa no MST (Movimento dos Sem Tarefa).

Fernandinho, cada dia com uma camisa nova, diverte-se, certo que a re-eleição está no papo, apesar de um outro aluno, também chamado Fernandinho, prometer sair do pó das cinzas e voltar a tumultuar. Não se sabe se conseguirá o perdão do Padre Conselheiro. Quem o tem visto ultimamente diz que anda com os olhos cada vez mais esbugalhados e aquilo rochíssimo de tanto o primeiro Fernandinho encher o saco dele. Fernandinho, o segundo, não conta, desta vez, com o Bolinha, que era quem arrecadava dinheiro para ele na porta da escola vendendo ovo sem gema, pastel sem carne e empanada uruguaia por cinco milhões de dólares.

Concorre também o descabelado Itapior, um garoto que acha que existe. Aquele que se levou a sério. Dizem que é pura-ficção, um autêntico conto de mineiro, e só anda com babá sem calcinha.

Mas voltemos ao Gula que, neste momento está de castigo e diz que só concorre se for para vencer. Esta frase ele repete há vários anos, quando ainda andava em melhores companhia. Aliás, um deles, continua vivendo e morando em 68. Ainda acha que o caminho das pedras chama-se rua Maria Antonia.

O Gula vem prometendo também invadir todas as salas de aula do Instituto, pedindo mais vagas para os sem-aula.

O que me parece é que o Gula, antes de assumir o grêmio da escola, quer destruir completamente o estabelcimento que já não anda essas coisas. Para isso implora a ajuda do BR-Brisola. É Deus no céu e Br-Isola cá na terra (devoluta).

Além de estar fazendo uma traquinagem atrás da outra, pisando na bola nos rachas do recreio, o menino Gula vem atrapalhando a candidatura de uma amiguinha sua que ser eleita num outro grupo. A amiguinha dele se chama Martinha e é um amor de pessoa. Mas o Gula insiste que ela use uma esfarrapada bandeira vermelha, taierzinho vermelho e até soutien vermelho. Gula tem certeza que o primeiro soutien vermelho a gente nunca esquece. Se comer criancinha, melhor ainda. A Martinha ainda não percebeu que o Gula pode ser uma péssima companhia. Martinha tem subido nas pesquisas de opinião, o que muito preocupa o Gulinha. Ele vai conseguir fazer com o que o Paulinho Salim, garoto tão jovem e tão esperto que já é procurado - junto com um garotinho de cor - pela polícia, bata da Martinha.

A grande frase do menino Gulinha, para esta pequena eleição continua sendo:

- Democracia é bom, mas tem hora!