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Ela, de novo (ex- a culpa)

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o estado de s. paulo

21/11/2001

 


Liguei o micro e o zelador tocou a campainha. Campainha é uma coisa que acontece nessas horas, né Adriana?

Há quase dois anos, escrevi aqui mesmo:

"Essa menina, e que se chama Adriana ainda por cima, acho eu, não tem ainda a noção exata do que acaba de cometer com a literatura brasileira e - duvido, não - mundial."

Pois o seu José veio me trazer - (obrigado, editora Salamandra) - outro livro dela. Pelo correio ela é a Adriana que também é Falcão.

Coloquei o Thelonious Monk para trabalhar.

A crônica ia ser sobre a culpa. É que andei pensando que, fora do Brasil, a gente não sente culpa. De nada. E outras bobagens. Eu disse que a crônica ia ser. Ia.

O livro (é uma "mania de explicação" que bateu na cabeça da moça) o livro ali ao meu lado. Capa vermelha, difícil não saber que ele está ali. Foi aí que a coisa se deu. O soslaio me tirou da concentração (como os jogadores de futebol, os escritores também ficam em concentração. Sem as mulheres). Fui ficando curioso. Lá em cima, no título, já estava escrito: "A Culpa".

Pois a Adriana foi me atraindo, atraindo (ela sabe atrair) e eu abri o livro assim, no meio, pra ver como era por dentro. Eu havia me deslumbrado com o primeiro livro dela, A Máquina (ah, este se chama mesmo Mania de Explicação), e tinha medo dela escorregar no segundo que, segundo a lenda, é mais perigoso que o primeiro).

Quem quiser, acredite: abri o livro aleatoriamente (que palavra!) e estava escrito em letras bem grandes: Culpa. Culpa, gente! E eu fui ler o que ela achava que era a culpa. E está lá na página (acabei de ver que o livro não tem número nas páginas. Devia ter, eu já citava aqui e facilitava). Bem, culpa, segundo essa menina de 40 anos, é o seguinte:

- Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Tempo para meditar sobre a culpa.

Meditei e resolvi não escrever sobre a culpa.

(Acabo de perceber agora que, na animação, deixei o livro em cima do cinzeiro e a ponta (do cigarro) queimou a esperta capa da Marina Massarani. Mas foi só um pouquinho, não precisa mandar outro não, Pascoal).

Como é que eu vou me arvorar a escrever, depois de ver a culpa da Adriana? A culpada foi ela. Para a minha felicidade:

- Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

A doida sai escrevendo essas coisa, troços filosóficos. E ainda diz que o livro é infantil. Pode até ser, também. Também, porque duvido que um adulto (mas afinal, quem é adulto) não viaje com ela.

Thelonious Monk!

A Adriana é dessas escritoras de dá vontade de conhecer, sentar do lado dela, dar um tapinha carinhoso no joelho e dizer:

- Parla!

É que eu vinha pensando nas coisas que a Adriana fala no livro. A sacada da felicidade ser um agora que não tem pressa nenhuma, eu havia começado a sentir desde que me mudei para uma ilha. Meu Deus, como vocês têm pressa aí no Rio e em São Paulo. Me digam para o quê.

E é a pressa que acaba com a gente, a pressa que causa a infelicidade, descobri junto com a Adriana. Ela no Norte e eu no Sul. Quase um Equador entre a gente. Ao mesmo tempo.

O nosso problema aí no Rio e em São Paulo é que a gente foi se acostumando devagarzinho com a pressa. Não foi repentina. A nossa pressa aí foi crescendo, crescendo, germinando. Até atingir o estágio atual. A pressa se instalou na gente. E gente nem sabe mais por que está com pressa. Mas está.

Mas eu e a Adriana não estamos, não. A gente não tem a mínima pressa. É isso que ela chama de Felicidade. O agora, sem pressa. Uma evolução do velho e manjado aqui e agora.

Eu sabia que ia acabar falando do livro, na verdade. Assim que eu abri o envelope e vi o jeitão do livro, a coisa começou a cutucar. Cutucar escritor para ler, é covardia, menina.

Coloquei Mano Chau. Tirei a culpa e coloquei a felicidade.

Te juro, Adriana, eu estava pensando na felicidade havia uma semana. Não que eu nunca houvesse pensado. É que eu não tinha tempo. Eu pensava, mas com pressa.