"Quero chorar/não tenho lágrimas/ que
me rolem na face/ pra me socorrer".
Verso do genial Antonio Maria, lá pelos 50,
internacionalmente imortalizado pelo Nat King Cole.
- Homem não chora!
Sou de uma geração criada assim. Chorar é coisa
de gente franca, de mulher.
Nunca chorei. Quer dizer, chorar choro e, às vezes,
até demais da conta. Mas choro os outros, pelos outros. Não choro eu. Choro na morte dos
amigos e até desconhecidos (Lennon e Lady Di, por exemplo). Mas não me choro. Não me
recordo de chorar uma grande dor de corno e nem de cotovelo. Não chorei quando perdi
mulheres e nem quando achei.
Choro em filmes, em livros e até em alguns
comerciais. Choro ao ver a pobreza brasileira, chorei no diretas-já, choro com as
crianças da rua, com os sem-terra, com as injustiças sociais, choro com a distribuição
de renda dos brasileiros. Mas não choro eu. Não tenho lágrimas que me rolem na fase
para desabafar.
Outro dia, vi uma moça chorar. Publicamente. Uma
moça linda. Chegou no restaurante com um amigo, estavam rindo felizes. Riam. Gente
bonita. Restaurante vazio. Eles numa mesa e eu em outra. Adoro observar pessoas em bares e
restaurantes e ficar imaginando o que fazem, o que são, os nomes, essas coisas.
Idiossincrasias de escritor.
Percebi que ela não estava chorando ninguém. De
repente, deu cinco minutos nela e ela começou a chorar. Convulsivamente, aos soluços.
Guardanapo no rosto, amigo alisando o cabelo dela. Ele dizia alguma coisa engraçada, ela
ria sem jeito e voltava a chorar. Ela estava desabafando alguma coisa lá dentro dela. Que
bonito. Foi lindo ver aquela menina chorando. Deu vontade de ir lá e sapecar um beijos na
face molhada dela.
Mas homem não chora. Por que, meu Deus, que a gente
não pode chorar? Sempre quis chorar um grande amor perdido (e foram tantos), mas nada.
Chegava a me esforçar mas lá vinham os ferrenhos salesianos. Você só vai chorar
realmente no dia do Juízo Final quando se encontrar com Deus. Talvez chore, pois ele pode
me mandar para o Purgatório, o Inferno ou, pior ainda, o Limbo, que deve ser um lugar
cheio de criancinhas não batizadas a chorar o dia inteiro. Já pensou?
Choro até de pena, mas não choro eu. Choro de rir,
também, que ninguém é de ferro.
O dia que eu chorar eu mesmo, vou dar uma festa e
fazer todo mundo chorar até cairem de exaustão e desidratação.
Será que o Serjão Motta chora ele ou só faz os
outros chorarem? Será que quando o presidente Fernando Henrique comete alguma injustiça
social ele chora nos braços da minha querida dona Ruth? Já pensaram, ele chorando
andando em volta da cama lá no Palácio da Alvorada? Que cena.
O ministro Pelé chorou e disse love-love-love.
Chorava ele e sua brilhante carreira.
E tem os que choram fácil. O Paulo Maluf, por
exemplo. Deve chorar cada vez que vê uma pesquisa eleitoral ou uma galinha. Chora em
discursos, chora quando embarca, chora quando volta. Invejo ele, chora quando inaugura uma
ponte com o nome da mãe. Que capacidade. Mas será que o choro malufista é mesmo sincero
ou o homem é mesmo um bom ator? Já a mulher dele não chora. Derreteria toda a
maquiagem.
Quando eu me imaginei escrevendo essa crônica,
achei que ia chorar. Ate aqui, nada. Não tem jeito. Homem não chora, gritava o meu pai
enquanto me dava uns merecidos tabetes. E ai de mim se chorasse. Piorava, e muito, a
situação.
Agora você que me leu até aqui e ainda não chorou
(apenas riu dessas besteiras) irá me perguntar: mas esse cara está a fim de chorar, por
que? Se você não sabe a resposta é porque também passou a vida a chorar os outros.
Você também nunca chorou você.
Não sei se deve ser bom chorar a gente mesmo, mas
aquela menina lá no Martin Fierro, me comoveu, me deu a certeza que, mais dias, menos
dias, eu vou chorar eu. E me chorando vou entender muito mais o mundo, as pessoas e,
nomeadamente, eu mesmo.
Agora, se você chorou esta crônica, você é uma
pessoa feliz. Ou então, está morrendo de dó aqui deste escrita machão.
Deculpe o assunto, mas eu precisava desabafar. Mesmo
sem nenhum lágrima a me rolar a face. Valeu.