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E EU DIZIA NO JÔ QUE ERA LINENSE

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o estado de s. paulo

03/12/94

 


Quando cheguei ao aeroporto de Los Angeles para ir dar uma entrevista no programa "Jô na Copa", perguntei ao motorista que foi me buscar se o estúdio era longe. Precisava voltar no mesmo dia para São Francisco.

- É longe, fica em Hollywood.

Mal sabia ele que eu nunca estivera tão perto de Hollywood em toda a minha vida. E, talvez por estar tão perto de Hollywood, me sentia tão perto da minha cidade, Lins, onde passei a minha infância, metido dentro dos hollywoodianos cinemas e dos campos de futebol de um país tetra.

E talvez por tudo isso, é que fui logo falando do meu glorioso Linense, time que me encantava na infância e adolescência e de tantas glórias. Cheguei até a dizer a escalação do Elefante da Noroeste para o incrédulo e querido Jô.

O que eu não sabia, ali, naquela noite, falando do Linense, é que, aqui no Brasil, lá em Lins, o Linense, o penta-campeão do interior, estava fechando as suas portas, os seus vestiários, pendurando as suas chuteiras. Estou triste: o Linense não existe mais. Enquanto eu gritava pelo tetra no Rose Bowl, minha voz estava calada em Lins. Naquele momento, lá no Jô, o meu time não existia mais.

No exato momento que eu torcia pelo tetra, o meu penta falia. Nem chegou a disputar as últimas partidas da divisão B-1. Apesar de nome de remédio, a B-1 era, nada mais nada menos, que a quarta divisão do futebol paulista. O Bragantino também já esteve lá e hoje disputa o Brasileiro. Mas eu tinha certeza, falando com o Jô, que o meu time do coração ia dar a volta por cima e voltar aos anos cinqüenta quanto ganhávamos de quatro a um do São Paulo e chegamos a um vice-campeonato no Torneio Início paulista. Como disse no programa, era o tempo do Herrera, Rui e Noca. Geraldo, Frangão e Ivan. Alfredinho, Américo, Washington, Próspero e Alemãozinho. Apesar de um portentoso Frangão na defesa, tínhamos um ligeiro Próspero no ataque. E ali no nosso estádio, o Gigante de Madeira, todo mundo tremia. Até o Corinthians de Gilmar, Claudio, Luizinho e Baltazar naufragava onde hoje é um cinema a passar os mesmos filmes de Hollywood. E ainda sobrou espaço para construir um supermercado.

Lugar comum mais comum que dizer que com isso morreu uma parte da minha vida, me desculpem, mas é válido neste momento.

Sei que os leitores não têm nada com isso, mas eu, Cidadão Linense, por obra e graça da Câmara Municipal, por obra e graça do meu coração, tenho que protestar contra os linenses em geral e contra as autoridades em particular. Há dois meses atrás os americanos achavam que o Brasil era do lado da Costa Rica. Hoje, depois da Copa, sabem muito mais de nós. Aprenderam a nos respeitar. Era bom encontrar com americanos que nos reconheciam na rua e ouvir um congratulation for you. Será que os meus amigos de Lins não percebem que morrendo o Linense, é uma parte de Lins que sai do mapa? Onde estava o prefeito quando resolveram fechar o Elefante da Noroeste? Onde estava o presidente da Câmara? Onde estavam os nossos torcedores?

Ligo para um amigo em Lins, indignado. Quem ´é que fez isso? Quem é que me faz passar essa vergonha? Será que não dava nem para disputar os últimos jogos da vergonhosa B-1? Sou informado que o presidente do time, era um tal de Piva, um sujeito que não era nem de Lins, ligado ao jogo do bicho. Mas que bicho deu nesse Pivete que vai fechando o meu time (e do Chico Buarque também, que está igualmente desolado) como se fechasse a porta da privada da casa dele? Já não bastava um delegado de Pirajui para fechar a nossa gloriosa Zona de Prostituição? Onde andavam as autoridades de Lins? Onde estavam os meus amigos linenses?

Quem é agora que vai difundir (bem ou mal) o nome da nossa Lins, nem que seja apenas pelos campos do interior de São Paulo? O prefeito, que é do PRN (o único prefeito do partido do Collor ainda no poder no Brasil)? E os garotos que porventura surgirão nos gramados dos colégios (como o Leivinha, por exemplo), ou nos campos de futebol de salão, irão jogar onde? No Penapolense? No Araçatuba? E eu, quando for novamente num programa do Jô, lá em Hollywood, não vou mais poder ter a coragem e alegria de dizer que torço para o Linense?

Neste ano do tetra, troco a alegria de ter visto o Brasil mais uma vez campeão do mundo pela tristeza que os linenses estão me proporcionando. Será que não tinha ninguém lá para perceber que o futebol é o melhor ministro das relações exteriores do mundo? Será que ninguém quer mais que Lins seja respeitada no cenário paulista e nacional?

Da minha parte, não toco mais no nome de Lins aqui neste espaço até que veja novamente o meu penta-campeão disputando um campeonato. Nem que seja a B-2, a B-3, não importa. Pois não é nem com vitamina, nem com jogo do bicho que vamos voltar ao cenário nacional. Mas com o coração vermelho e branco, com a garra de um elefante no peito.

Que me perdoe o Drummond, mas Lins não é, para mim, um mapa na parede. Por mais que queiram.

Por favor, alguém aí, tome uma providência.