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É Copa. É Copa?

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o estado de s. paulo

05/06/2002

 


Escrevi isto aqui na quinta-feira passada. Hoje, quarta, sorry, mas estou em Barcelona. O Brasil deve ter jogado anteontem com os turcos e não sei ainda qual foi a manchete lá na primeira página. Aqui o jogo foi às 11 da manhã e foi um luxo que eu me dei: vir assistir à Copa na casa do meu filho Antonio na Espanha. Pensando bem, faz algum tempo que não assisto a uma Copa no Brasil. E se ontem o Brasil fez menos de quatro na Turquia imagino a indignação de todos vocês aí.

Mas voltemos à quinta passada. Só com o título lá em cima já perdi uma porção de leitoras. Mas sabe o que é, minha querida (obrigado por continuar), é que ninguém está falando da Copa, como nos outros anos. Pelo menos até na quinta-feira passada, dia 30, quando embarquei com quatro camisas da seleção debaixo do braço.

Acabo de voltar do almoço e vi apenas um carro com uma bandeirinha brasileira. Deu vontade até de beijar aquela senhora fiel e confiante. Como disse o João Ubaldo outro dia no Jô, "nunca vi o Brasil tão broxa numa Copa". E por que será?

Calculo que deva desanimar um pouco o fato de não cair bem tomar aquela cervejinha às 6 da manhã. Vai cair quadrada. E também não vai dar para sair para a Paulista. E ninguém vai segurar a alegria para sair só de noite. Por outro lado, o fato de estarmos nas mãos de um gaúcho pode assustar um pouco. Os últimos gaúchos que mandaram no Brasil acabaram em muitas mortes. O Getúlio, dois ou três militares ditadores.

Mas nada disso é mesmo importante. O fato é que nunca o Brasil foi para uma Copa com tanto medo. Medo dos adversários, medo de nós mesmos. Medo do humor do Felipão. Medo do oriente ("se oriente rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul" - bons tempos), do poente e até da dor de dente.

Vivemos no Brasil uma época de medo. Transferir isso para o fracasso de mais uma Copa do Mundo, qualquer psicanalista explicaria muito melhor do que eu. O medo de ser assaltado na rua ou em casa, o medo do próximo presidente, o medo de levar um tiro que jamais saberemos de onde veio, o medo de uma discussão no trânsito. O medo do roubo dos nossos políticos e dirigentes. O medo da corrupção. O medo até do Eurico Miranda bravo. O medo de viver. Durante um mês, todos os nossos medos, serão transferidos para lá longe, lá onde o sol se põe. E nasce. Transferimos nossos medos diários para dois países onde até a língua mete medo.

Sempre que o Brasil vai para uma Copa e perde, eu fico com uma esperança. Agora as coisas vão mudar. Vão organizar isso aqui. Ledo engano. O campeonato brasileiro vai começar em agosto e ninguém sabe me dizer nem quem é que vai organizar (organizar?) o dito-cujo. Nem quais são os times. Isso, daqui a dois meses. Tudo isso também serve de desculpa para perder a Copa.

Mas o pior é que ganhando ou perdendo, a seleção volta para o Brasil gloriosa ou não (eu acho que vamos ser campeões e em cima de Portugal) e todos os nossos medos voltam juntos. Acabou a Copa. Voltemos à violência cotidiana. Só vamos nos esquecer dela outra vez, daqui a quatro anos, quando formos para a Alemanha. Mas, se não formos campeões agora, vai ter eliminatória outra vez. Estou falando isso só para lembrar dos medos que passamos durante dois anos... Lembrou, né?

O mais doido disso tudo é que a gente sofre e é feliz. Tudo vira piada no país do futebol e do carnaval. E da pizza, é claro. Espero que hoje, quarta-feira, quando vou jantar no Siete Puertas, vocês todos estejam felizes aí no Brasil. E a seleção tenha começado bem, dado alegria para todos vocês. Agora, se o Brasil empatou ou perdeu da Turquia, juro nunca mais falar de futebol aqui neste espaço, minha querida.

Vou ter de continuar a falar de pizza. Só pra lembra: o Maluf é turco, né?