De repente a Mãe CEE esticou os braços até a extremidade (mais
especificamente, Extremadura) da península ibérica e tudo está a ficar diferente. Quem
não vai a Portugal há mais de cinco anos, não viu nada. Portugal, literalmente, é
outro país. Para melhor, é claro. Mas o novorriquismo de um país velho (no bom sentido)
traz, junto com ele, situações e pessoas novas ao sítio. São artistas estrangeiros com
suas aldrabices malucas, são novidades sexuais no ecrán da televisão e suas
consequências malígnas,e são carros zero quilômetros a correr loucamente pelas novos
troços de estradas. Indo para onde? Os portugueses ficam de olhos grilidos com as
novidades.
UMA: ZEFIRELLI VAI À QUINTA
Não apenas o cinema português levou uma injeção de vitalidade, como cineastas de
outros países estão sempre por lá, a filmar. De repente, você está num restaurante,
olha para o lado e vê o Alan Bates, todo desmunhecado e afetado (ah, se o Anthony Quinn
visse), a martelar um caranguejo. Ou Kim Novak, toda gorda e repuxada (ah, se o James
Stuwart visse), dando uma entrevista na televisão. Ou o Zerifelli (francamente) a dirigir
um filme. Pois.
Uma senhora da alta aristocracia convidou o Zefirelli para uma jantarada em sua quinta,
provavelmente numa sexta. Hora marcada, Zefirelli chega, carrega na campainha, o mordomo
vai atender. Pede para o cineasta entrar e vai anunciá-lo para a patroa.
- Senhora, está aí o senhor José Firelli.
E ela, contendo o riso:
- Não é senhor José Firelli. É senhor Zefirelli.
O mordomo contorce a boca, meio sem jeito e toma a liberdade:
- Senhor Zefirelli é para a senhora, que é íntima!.. Para mim, é senhor José. Com
licença.
DUAS: O CARRO VAI À RUA
Todo mundo comprou carro (cinza). Dizem que Portugal é o terceiro país do mundo com mais
carros zero na rua. Não se pode parar, porque não tem onde estacionar. E, cada vez, tem
mais. E fica todo mundo a andar de cima para baixo, à procura de uma vaga para
parquear.
E o pior é que tudo que você compra, em Portugal, você concorre a um carro zero.
Jornal, geladeira, sabonete, fogão, gasolina, bicicleta, gilete, maionese, fruta, tudo,
tudo, tudo. Não há mais espaço nem para cachorrinho fazer xixi. Os carros já invadiram
as calçadas, os passeios e daqui a pouco vão entrar nos cinemas, nos estádios e nas
lanchonetes. Tem Metrô, tem um bom esquema de ônibus, mas todo mundo vai de carro. A
correr.
Um sociólogo português encontrou a explicaçào para o absurdo. Desde os descobrimentos
que os portugueses não se sentiam tão importantes, tão potentes. Até hoje eles viviam
da memória dos descobrimentos. Até agora, porque agora eles descobriram (foi mesmo um
descobrimento) o carro. E o carro hoje é, para o português, a sua nova nau, a sua nova
caravela e, montados nestes navios modernos, eles partem, finalmente, sem olhar para
trás, para o seu grande futuro.
E eu acrescento: vai engarrafar...
TRÊS: A DEPUTADA NO IMPÉRIO DOS SENTIDOS
O dia que a Tieta dormiu com o sobrinho seminarista fez Portugal parar para pensar.
Afinal, 67% da populaçào portugesa frequenta missa todos os domingos. Mas, o Segundo
Canal resolveu colocar lenha na fogueira e atacou de Império d os Sentidos às dez da
noite. O Bispo de Braga, depois de vomitar, disse que tinha aprendido mais em uma hora e
meia do que em sessenta e tantos anos. E o debate foi parar na Assembléia.
Um deputado da direita pede a palavra durante acalorado debate-boca para lembrar a todos
que:
- O Papa já disse, aqui mesmo em Portugal, que a finalidade única do ato sexual é a
procriação.
Neste momento, uma deputada, sentada do lado esquerdo, pede a palavra:
- O nobre deputado tem quantos filhos?
- Dois, minha senhora, respondeu o cristão.
- Então o senhor faça o favor de sentar-se, porque o debate é sobre sexo e como o
senhor só o praticou duas vezes, não entende nada do assunto!
O assunto foi encerrado, o Zefireli continuou seu filme, os carros continuaram a correr, o
Sassa Mutema comeu a professorinha e Portugal está a encontrar o seu grande destino e
deixando de ser apenas a porta da Europa. Já é o hall.