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DOMINGO: BRINCANDO DE MOCINHO E VILÃO

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o estado de s. paulo

1998

 


Domingo pede cachimbo. Este último pedia muito mais. O sol não apareceu, a chuva era fina e o convívio com os amigos inevitável.

Não apenas em São Paulo, mas creio que no mundo todo, na hora do almoço o assunto era orelhas. Não de feijoada como converia. Mas uma orelha que, se já era famosa, agora entrou definitivamente para o hall da fama. Será que o Holyfield vai gravá-la na calçada das cebridades em Los Angeles?

Depois em um branco da região de Orvieto na Itália, na casa do psiquiatra e psicanalista Tenório de Oliveira Lima e da jornalista Annette, resolvemos comer carne e não feijoada com suas orelhas, sabe-se lá de que porco.

O assunto não poderia ter sido outro. O domingo começava animado. Várias teorias tentavam explicar o arroubo (e roubo) do caso da orelha. Claro que o Tyson era o vilão e o Evander o mocinho. Logo lembraram que o Tyson era ladrão de galinhas na infância, que ele tentara comer na marra uma Miss Negra.

Convenhamos. O cara está sozinho num hotel, são duas da manhã e lá embaixo, no saguão, temos 50 misses negras ou mulatas. Acho que você, meu querido leitor, não teria feito outra coisa. Chamou e a moça subiu. E ele pegou três anos de cadeia por um ato que, me parece, nem chegou a ser consumatum est nem oeste. Mas virou vilão.

O que foi que aconteceu na luta? Logo de cara o Evander meteu a cabeçada. Sangue na arena e no supercílio. O que foi que o Evander ficou fazendo depois? Agarrando o oponente (que palavra!) e esfregando a sua careca no corte. Já pensou o que o Tyson não estaria pensando? Portanto, eu acho que o Evander estava pedindo, estava ali, abraçadinho, pedindo "me morde, me morde que eu gamo".

E, por falar em mocinho e vilão, na mesa ao lado lá no Poncho Verde, uma família estava indignada com o prêmio dado a TAM. Alguém chegou mesmo a dizer que era um prêmio Tantã, segundo o Aurélio, "amalucado, maluco, desequilibrado, tonto".

Logo percebi que era uma família que havia perdido um parente no acidente da Tam. E criticavam o bom moço Comandante Rolim, eu questões ligadas às indenizações. E mais revoltados estavam porque funcionários da revista Exame, que haviam dado o prêmio ao incansável Rolim, alegaram a postura dele correta, visitando as viúvas, consolando os órfãos, como dois sobrinhos meus, o Felipe e a Olívia.

Acho que foi mesmo um prêmio Tantã. E um senhor ainda me saiu com essa: "se esse cara fosse mesmo bom o XV de Piracicaba não tinha caído para a segunda divisão, sob o comando dele". Aqui, no caso, vilão ou mocinho?

Mas o domingo prometia mais, muito mais. O Brasil ia tentar ser, pela primeira vez, campeão da América, jogando fora de casa, enfrentando, com sua força máxima, seleções com seus reservas. Tudo bem, jogamos nas alturas e ganhamos. Não vou falar mal do Zagalo já que vamos ter, como ele mesmo disse, que engoli-lo até 98. Não seria bom chamar o Tyson, para ir começando pelas orelhinhas do Mario Lobo? Brincadeiras, à parte, parabéns, Zagallllo.

No almoço, ainda comentando a orelha do Evander, o Tenório vaticinava: "o Edmundo vai aprontar alguma. Deve estar com a mordida do Tyson na cabeça (e na orelha)". Não deu outra, Tenório.

Depois o Edmundo confessaria: "ele me olhou feio, dei a porrada mesmo". O que me preocupa é que o rapaz pensa apenas uma vez antes de agir duas. Ele vinha jogando bem, o Brasil estava crescendo. Ele nocauteia o adversário. Ele, que já havia marcado um gol visivelmente impedido.

Tenho a impressão que o Zagalo não o tirou, naquele momento, apenas da partida. Acho que foi o último murro, a última mordida em si mesmo que ele deu defendendo as cores da seleção canarinho. Nossa, estou escrevendo igual a cronista esportivo.

A orelha já foi devidamente costurada no Evander, o Edmundo já devidamente afastado do time. E as indenizações, e as indenizações, meu querido empresário do ano? Hein? Afinal, a TAM faturou 511 milhões de reais no ano passado, não foi?