Domingo pede cachimbo. Este último pedia muito mais. O sol não
apareceu, a chuva era fina e o convívio com os amigos inevitável.
Não apenas em São Paulo, mas creio que no mundo todo, na hora do
almoço o assunto era orelhas. Não de feijoada como converia. Mas uma orelha que, se já
era famosa, agora entrou definitivamente para o hall da fama. Será que o Holyfield vai
gravá-la na calçada das cebridades em Los Angeles?
Depois em um branco da região de Orvieto na Itália, na casa do
psiquiatra e psicanalista Tenório de Oliveira Lima e da jornalista Annette, resolvemos
comer carne e não feijoada com suas orelhas, sabe-se lá de que porco.
O assunto não poderia ter sido outro. O domingo começava animado.
Várias teorias tentavam explicar o arroubo (e roubo) do caso da orelha. Claro que o Tyson
era o vilão e o Evander o mocinho. Logo lembraram que o Tyson era ladrão de galinhas na
infância, que ele tentara comer na marra uma Miss Negra.
Convenhamos. O cara está sozinho num hotel, são duas da manhã e lá
embaixo, no saguão, temos 50 misses negras ou mulatas. Acho que você, meu querido
leitor, não teria feito outra coisa. Chamou e a moça subiu. E ele pegou três anos de
cadeia por um ato que, me parece, nem chegou a ser consumatum est nem oeste. Mas virou
vilão.
O que foi que aconteceu na luta? Logo de cara o Evander meteu a
cabeçada. Sangue na arena e no supercílio. O que foi que o Evander ficou fazendo depois?
Agarrando o oponente (que palavra!) e esfregando a sua careca no corte. Já pensou o que o
Tyson não estaria pensando? Portanto, eu acho que o Evander estava pedindo, estava ali,
abraçadinho, pedindo "me morde, me morde que eu gamo".
E, por falar em mocinho e vilão, na mesa ao lado lá no Poncho Verde,
uma família estava indignada com o prêmio dado a TAM. Alguém chegou mesmo a dizer que
era um prêmio Tantã, segundo o Aurélio, "amalucado, maluco, desequilibrado,
tonto".
Logo percebi que era uma família que havia perdido um parente no
acidente da Tam. E criticavam o bom moço Comandante Rolim, eu questões ligadas às
indenizações. E mais revoltados estavam porque funcionários da revista Exame, que
haviam dado o prêmio ao incansável Rolim, alegaram a postura dele correta, visitando as
viúvas, consolando os órfãos, como dois sobrinhos meus, o Felipe e a Olívia.
Acho que foi mesmo um prêmio Tantã. E um senhor ainda me saiu com
essa: "se esse cara fosse mesmo bom o XV de Piracicaba não tinha caído para a
segunda divisão, sob o comando dele". Aqui, no caso, vilão ou mocinho?
Mas o domingo prometia mais, muito mais. O Brasil ia tentar ser, pela
primeira vez, campeão da América, jogando fora de casa, enfrentando, com sua força
máxima, seleções com seus reservas. Tudo bem, jogamos nas alturas e ganhamos. Não vou
falar mal do Zagalo já que vamos ter, como ele mesmo disse, que engoli-lo até 98. Não
seria bom chamar o Tyson, para ir começando pelas orelhinhas do Mario Lobo? Brincadeiras,
à parte, parabéns, Zagallllo.
No almoço, ainda comentando a orelha do Evander, o Tenório
vaticinava: "o Edmundo vai aprontar alguma. Deve estar com a mordida do Tyson na
cabeça (e na orelha)". Não deu outra, Tenório.
Depois o Edmundo confessaria: "ele me olhou feio, dei a porrada
mesmo". O que me preocupa é que o rapaz pensa apenas uma vez antes de agir duas. Ele
vinha jogando bem, o Brasil estava crescendo. Ele nocauteia o adversário. Ele, que já
havia marcado um gol visivelmente impedido.
Tenho a impressão que o Zagalo não o tirou, naquele momento, apenas
da partida. Acho que foi o último murro, a última mordida em si mesmo que ele deu
defendendo as cores da seleção canarinho. Nossa, estou escrevendo igual a cronista
esportivo.
A orelha já foi devidamente costurada no Evander, o Edmundo já
devidamente afastado do time. E as indenizações, e as indenizações, meu querido
empresário do ano? Hein? Afinal, a TAM faturou 511 milhões de reais no ano passado, não
foi?