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EXCLUSIVO: O DIÁRIO DE UM ANJO DA GUARDA

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o estado de s. paulo

08/05/95

 


Na quarta passada escrevi uma carta/crônica para o Caio Fernando, falando da certeza da existência do Anjo da Guarda. Passei toda a semana ouvindo histórias autênticas de pessoas salvas sob as asas protetoras desses nossos amigos invisíveis. Não resisto à angelical tentação de contar uma delas, ocorrida com uma colega aqui da redação. Vamos chamá-la de Annamaria.

Vamos lá. Annamaria ficou grávida de seu primeiro filho. Assim que soube, resolveu escrever - jornalista adora escrever e engravidar nas poucas horas vagas, num Diário, tudo que ocorria com ela e a gravidez. Aquelas coisas todas. Descobri hoje que estou grávida. Hoje ouvimos o coraçãozinho dele batendo. Vai ser menino! Começou a chutar a minha barriga. Hoje tive desejo de comer mortadela com goiabada. Fiz outro ultra. Está tudo bem. Como esse menino mexe, meu Deus. Acho que chuta com os dois pés. Não aguento de vontade de fumar, mas vou segurar, meu filho. Essas coisas. Quem já teve filho entende. Assim por diante, até que o pimpolho nasceu, encerrando, assim, o ciclo do diário da gravidez. Ponto final? Ledo engano.

Annamaria guardou a sete chaves, com chaves de ouro, a preciosidade esperando, creio, mostrar um dia para o filho quando este pudesse ler e entender os nove primeiros meses de vida dele, ainda que intra-uterina.

Passado mais de um ano, uma amiga dela - vamos chamá-la de Claudia, ficou grávida. Annamaria emprestou o seu Diário para Claudia, achando que poderia ser útil e pediu que ela tomasse o maior cuidado do mundo. Claro, responde Claudia. E não é que a Claudia, estabanada e distraída, esqueceu o Diário dentro de um taxi? Never more. Desesperadas, as duas ligaram durante dias, semanas, para todos os sindicatos, associações de taxistas, frotas, o escambau. Nada. O Diário havia desaparecido para sempre. E o filhinho da Annamaria - vamos chamá-lo de Moreno, jamais ficaria sabendo direitinho das contrações, ações e reações, amores, cuidados e carinhos de sua mãe, naqueles meses.

Corte.

Semanas depois, Annamaria recebe um telefonema. Uma mulher anônima - vamos chamá-la de Carol, e humilde, havia achado o Diário. E lá tinha o telefone da diarista de plantão. Do lado de cá da linha, Annamaria quase morre de alegria, e limpando lágrimas paralelas em cima das laudas do jornal, não sabe como agradecer.

Começam a conversar e Carol confessa, meio envergonhada, que havia lido, muito emocionada - todo o Diário, pois, por uma incrível conincidência, esteva grávida na mesma época e hoje tinha uma filha - vamos chamá-la de Maria. Maria teria pois, hoje, a mesma idade de Moreno. Mas contou mais a desconhecida e salvadora Carol. Maria tinha um problema de nascença e precisava fazer urgentemente um transplante de medula muito especial e que só uma faculdade de São Paulo poderia realizá-lo. Havia o problema de uma fila enorme e de um dinheiro ainda maior.

Aqui entra o Anjo da Guarda.

E eu garanto que a história é verdadeira. Aquela que escreveu o Diário, a Annamaria, é filha do Reitor daquela faculdade. Chorou Annamaria, chorou Carol, chorei eu quando ouvi a história. Vocês acreditam? Não é coisa de Anjo da Guarda?

Maria fez o transplante e passa otimamente bem. Annamaria voltou a guardar o seu santo Diário.

Daqui a uns anos, ambas, Annamaria e Carol, vão lê-lo para Moreno e Maria.

Tá lá no Aurélio, Carol: "Anjo da Guarda: espírito celeste que se crê velar sobre cada pessoa, afastando-a do mal e inclinando-a para o bem".

Ainda bem, né, Maria?

PS - "Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não é mera coincidência", como se diz nas histórias de ficção..