Às
vezes, eu escrevo uma crônica aqui achando que vai ser o maior sucesso e não
tem nenhum retorno. Outras, despretensiosas, acontecem. Por exemplo: outro
dia, eu disse não saber a origem do "cuspido e escarrado". Choveram
cartas, telefonemas, paradas na rua. Só eu mesmo não sabia que a origem da
expressão era, originalmente, "esculpido e encarnado", para
designar "a cara de", "igualzinho a", etc.
Outra
crônica foi aquela história da Silvinha, filha do Chico. Será que foi por
se tratar da filha de uma pessoa famosa? Ou a história teria vida própria se
a personagem fosse filha do porteiro aqui do jornal? Daí então, como diria a
Marília Gabriela, hoje eu vou contar outra história buarquiana. Desta vez,
com o pai da artista, o Chico Buarque. Foi assim.
Em
1972, estava eu morando no Rio e resolvemos escrever um musical juntos. Uma
espécie de bang-bang caboclo. Trocamos as idéias, pesamos as possibilidades
diante de vários chopes e intermináveis caipirinhas. Ia ser um sucesso.
O
começo do trabalho foi naquela base ultraprofissional de horários e locais.
A coisa parecia que ia sair, mas até hoje é um pensamento arquivado
esperando novas mesas e disponibilidades outras. O que acontece é que surgiu
uma amizade mais para copos e jogos do Fluminense do que para as teclas e
cordas de violão.
Mas
a história que eu queria contar é que, um dia, a gente estava no Final do
Leblon, um boteco que fica onde o nome indica. O boteco cheio e várias
garrafas vazias. A gente discutindo, eu pedia:
—Tem
uma coisa. Quanto à parte das músicas, você se vira sozinho, que eu não
entendo nada disso. E não adianta discutir.
O
padre que me dava aula de música no Salesiano dava tanto coque na minha cabeça
que bloqueou tudo. Eu não tenho noção do que é um tom abaixo ou acima, fá
ou sol. Não tenha dó. Nem de uma letrinha simples com métrica eu tenho noção.
Mas o Chico insistia comigo que ele também não sabia nada de música
(imaginem!) e que nós tínhamos que trabalhar juntos.
—Alguma
coisa a gente sempre sabe.
—Eu,
não.
—Canta
alguma coisa para mim. Parabéns a Você, por exemplo.
—Eu
desafino. Quando eu canto Parabéns a Você em festinha de crianças, todas
elas olham para trás.
—Canta,
pô!
Foi
aí que eu comecei a cantar o Parabéns, ali na mesinha do Final do Leblon,
parecia uma bicha apaixonada pelo ídolo, com o Chico me olhando atentamente,
olho no olho, atenção nos graves e nos agudos. Cantei a música toda,
inclusive a segunda parte que a minha memória foi buscar não sei onde. O bar
foi ficando em silêncio sem que a gente percebesse.
Quando
terminei, umas 30 pessoas se levantaram e aplaudiram. Não a minha voz, mas o
Chico, que, para eles, aniversariava. Alguns, menos tímidos, foram até a
mesa e o cumprimentaram com abraços e tudo. Teve uma menina que deu um boné
para ele. O dono do bar, o seu Manuel, disse que a rodada era por conta da
casa. Desconhecidos sentaram-se na nossa mesa.
Chico,
distante pelo menos uns seis meses do seu aniversário, gostou da brincadeira
e telefonou para a Marieta convidando-a para a festa. Ligou para alguns amigos
da redondeza. O bar foi enchendo, a notícia correu pelo Leblon, as pessoas
chegando. Alguém providenciou um bolo, o trânsito quase parou. A festa foi
até de madrugada. E eu cantei a noite toda, como nunca.
No
dia seguinte, aliás, o Zózimo Barroso do Amaral deu até uma notinha na
coluna dele. Mas nem me citou, o ingrato.