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De volta ao SPA

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o estado de s. paulo

21/08/2002

 


Depois de alguns anos, eis-me de volta ao velho e bom spa aqui em Sorocaba.

Uma das minhas posturas em relação aos meus livros é não escrever a continuidade. Vários deles daria para se fazer o II - O Retorno. Minhas mulheres, Minhas Vidas, Minhas Tudo, Mas Será o Benedito. Mas evito. Sempre acho isso meio oportunismo e o II quase nunca é tão bom quanto o primeiro.

Mas voltando ao spa São Pedro, que deu origem ao livro Diário de um Magro, em 97, tive de repensar o pensar. Bastou uma semana por lá e o tal do II - O Retorno começou a bater no meu ouvido.

E começou quando eu dei uma chegada até o departamento de Estética.

Ia começar dizendo que a dona Roseti, com quem me encontrei lá e não conhecia, é gordinha, mas não farei isso. Primeiro, porque ela faz parte das famosas "meia-gordinhas", que é uma condição quilogramas distante de uma gordinha. E arrobas, da gorda. Além do mais, iria ficar chateada comigo.

Não a conhecia até que desci para a Estética. Ali, na sala de espera, é que se sabe de tudo o que rola pelo spa. Deve ser como num cabeleireiro. Quem é quem, quem com quem. Eu estava ali a fim de fazer os pés, prática que adquiri na minha primeira ida ao spa (quando meu pai soube da coisa e confessou que fazia o mesmo toda semana, relaxei os dedos).

Pois quando cheguei, a dona Roseti, paulistana, entre 50 e 60 anos (é dificílimo acertar a idade de uma "meia-gordinha"), já estava ali aguardando uma massagem oriental. No seu ombro, um calopsita. Não, meu anjo, calopsita não é quem tira calo na Estética. É aquele papagaio branco, pequeno. Tem gente que chama o bicho de cracatoa. Pois o calopsita, mascote do local, passeava pelo rechonchudo ombro da dona Roseti. E ela cracatoava alguma coisa no ouvido do bicho. Puxei assunto:

- Ele fala?

- Tou tentando ensinar, mas nada.

E desandou a falar:

- E pensar que eu vim pra cá por causa de um bichinho quase igual a esse. Um papagaio. Moramos nós dois sozinhos na Alameda Lorena. Um apartamento imenso. Só nós dois e a empregada. E ele fica o dia inteiro me chamando:

mãe!, mãe! E eu vou correndo, mas o apartamento é grande, porque se eu demoro pra chegar, sabe o que ele fica gritando para todo o prédio ouvir?:

gorda! gorda!

E ria, a minha nova amiga.

- Tava quase matando ele. Mas não adianta, eu ligo para lá para falar com a Dolores e ouço ele no ombro dela: gorda!, gorda! Não dá vontade de matar?

Agora eu estou tentando fazer este aqui aprender alguma coisa, mas tá uma luta.

Fui fazer o meu pé, quando voltei passei por ali e ouvi o que ela estava ensinando para o papagaio branco: magra! magra!

E me encontrei de novo com o seu Luizinho. Luizinho é modo de dizer, pois ele beira os 100 quilos. Empresário em Porto Alegre, sujeito alegre, divertido, grande contador de piadas de gaúchos. Pelo menos duas vezes por ano ele aporta seus quilos por lá. E, na beira da piscina, me contava a sua história:

- Sabia que eu engordo para vir para cá? Isto aqui é o meu paraíso. Quando saio, uns dez quilos mais magro, já começo a comer coxinha na primeira padaria. Quero engordar para voltar. Aqui fico longe dos negócios, da família, do trânsito. Da vida, enfim. Começo a engordar e a minha mulher ameaça me mandar para o spa. Nunca mais!, eu digo. Spa, não! Mas ela vai insistindo, insistindo, chego quase a brigar com ela. Aí eu venho. Fica todo mundo feliz. Ela, eu, meus empregados.

Tem a história do Neto e as três mexericas, a menina que comia rosas e o que aquele ministro do governo FHC trouxe em sua mala.

Portanto, você leitor e leitora, aguardem para janeiro, mais de 200 as histórias que se passam num spa.

E por falar em "meia-gordinha", recebi um e-mail do professor Claudio Cezar Henriques, titular de Língua Portuguesa da UERJ, que defende a minha meia-gordinha. Diz ele, sabiamente:

"A rigor, o que você chamou de 'erro de português' (meia-gordinha) é apenas um caso de 'concordância atrativa'. Veja o que está no Aurélio: meio. adv.

por metade; um pouco; um tanto; quase: Anda meio doente. Há muitos exemplos, no português antigo como no moderno, desse advérbio flexionado (caso de concordância por atração):

"A cabeça do Rubião meia inclinada" (Machado de Assis, Quincas Borba, p.

67); "Casou meia defunta" (Id., Várias Histórias, p. 97); "A mesma mulher, sempre nua ou meia despida" (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, p. 366); Assim, para garantir a validade de suas considerações a respeito das gordinhas, o melhor mesmo seria empregar 'as meias-gordinhas', a fim de que a atração se desse por inteiro, no gênero (feminino) e no número (plural).

Aliás, acho que as gordinhas preferirão que a atração ocorra sempre por inteiro. E as magrinhas também."

Obrigado, mestre. As "meias-gordinhas" agradecem a informação.