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DE VOLTA AO FUTURO: A SUIÇA ESTÁ LOGO ALI

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Revista VIP

07/10/94

 


uma viagem de MARIO PRATA

Você já se imaginou passando uns dias numa cidade onde as casas não têm grades na frente e o gramado se une ao da casa ao lado? Como num filme americano?

Você já se imaginou passeando nas ruas centrais de uma cidade às duas da manhã, cruzando com jovens senhoras empurrando carrinhos de bebê e com a certeza que não vai aparecer nenhum trombadinha? E as pessoas, sem pressa, se cumprimentando como nos velhos tempos? Educadas.

De noite ir a cassinos tentar o Bingo, a Roleta ou o Bacará dentro de hotéis do começo do século, com guardas de segurança?

Ficar sentado num banco verde de madeira numa praça florida, debaixo de um poste de ferro antigo, trabalhado, bem iluminado, lendo madrugada-a-fora o Chatô? E aquele sujeito suspeito que vem se aproximando e você começa a ficar com medo e ele se aproxima e diz "buena!"?

Já pensou comer carnes maravilhosas por um terço do preço aqui do Brasil? Churrasco no mercado do cáis, na aduana, com os espetos espetando sua gula com as melhores carnes do mundo?

Ver, na televisão a mais do que nunca deliciosa Xuxa, em espanhol, sem estar dublada?

Quer ir para este estrangeiro pagando o mesmo preço de uma ponte-aérea São Paulo-Belo Horizonte, menos que a passagem para Brasília? Menos de trezentos dólares, ida e volta? E sabe quanto tempo leva a viagem? Duas horas e vinte.

Estou falando de Montevidéo, Punta Del Este, Piriápolis.

Além da calma, da tranquilidade, da boa cultura dos moradores vizinhos, o Uruguai tem mais uma vantagem: não se tem nada para fazer. Se você é daqueles turistas que gostam de voltar das férias morto, precisando de dias para descansar do descanso, não vá para lá. O Uruguai foi feito para o descanso, para não se fazer nada. Passear pela cidade velha, ver a brisa do rio da Prata, na Rampla, subir no alto da Intendência e vislumbrar toda a cidade. Vista do alto lembra um pouco Havana.

Claro que há teatro. Mas um teatro um pouco parado no tempo, calmo, sem grandes ousadias modernosas. O que é ótimo. Sempre tem peças clássicas para você ver, montadas como no tempo do TBC, como Seis Personagens à Procura de Um Autor, do Pirandello, ou O Violinista no Telhado, de Aleijem. Se você gostar de futebol sempre tem um bom jogo do Nacional ou do Peñarol, lembrando que ambos já foram campeões do mundo, no magnífico Estádio Centenário.

A ditadura dos anos 70 e 80 afastou turistas e os próprios uruguaios do país. Hoje o país tem uma população de 3 milhões de habitantes. Um milhão em Montevidéo, um milhão no interior do país e o outro terço no exterior. Mas a geração que fugiu das atrocidades da ditadura militar está voltando. E os turistas também. Já é, de novo, a principal receita do país. E só tende a crescer, à base de trinta por cento ao ano, nos últimos dois anos.

Se gosta do mar, e dos frutos dele, fique em Punta Del Leste. Lembra o sul da Espanha, o norte da África. Ali, a uma hora e meia de Montevidéo. Mas se quer mais sossego ainda, fique em Piriápolis uma cidadezinha na região balnerária, entre Monte e Punta. E de noite, no quartos dos excelentes hoteis, você ainda pode assistir Mujeres de Arena, em espanhol, magnificamente dublada.

Talvez lá você converse com o povo mais civilizado e alfabetizado desta nossa América Latina. É um povo bem informado, amável, bom papo. Durante todo o tempo que estiver no Uruguai, sem fazer absolutamente nada, talvez você se lembre um pouco dos anos cinquenta. E daí? Quer coisa melhor?

O Uruguai, pelo quarto ano consecutivo, ocupa o primeiro lugar em desenvolvimento humano entre os países latinoamericanos, segundo um estudo elaborado pelo Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento. O Brasil, por exemplo, está em nono lugar. Alguns índices do pequeno país: esperança de vida ao nascer: 72,4 anos. Taxa de alfabetização de adultos: 96,5%. Média de anos de escolaridade: 8,1. Índice de alfabetismo: 0,97. Índice de escolaridade: 0,54. Renda per capita: 6.670 dólares.

Como disse o Ministro de Turismo do Uruguai, Mario Amestoy:

- Preferimos qualidade, mais que quantidade.

Em tempo: ao contrário dos vizinhos argentinos, eles amam os brasileiros. Torceram para nós na Copa.