- O brasileiro é, antes de tudo, um infiel.
Poderia ter dito Euclydes da Cunha, que conheceu na pele o
problema. E nas costas.
Mas nem todos, diriam os mais jovens. Correto. Mas eu estou a me
referir à minha geração, dos meus pais e meus avós.
Não é preciso deitar em nenhum divã de psicanalista para
entender o que aconteceu com a minha turma.
Para nós, no começo dos 60, amor e sexo eram duas coisas
completamente distintas. As namoradas não "deixavam" nada. Não se "ficava",
naquele tempo, imagine. A gente, depois de uns quinze dias pegava na mão.
Beijo na boca, só uns seis meses depois. E ficava nisso. Sexo, jamais,
impossível. Todo mundo tinha sua namorada (muitos casaram com elas). Depois do
namoro íamos para a "zona". Lá não tinha amor, tinha sexo, com
desclalcificadas prostitutas interioranas. Mas aqui na capital, acontecia o
mesmo.
Sexo com amor não existia. Portanto, para nós a divisão
amor/sexo era absolutamente normal. Para nós, até então, uma coisa não tinha
nada a ver com a outra.
A primeira vez que fiz amor e sexo junto, foi um desastre. A
namorada sentou-se na cama e me disse:
- Não é nada disso.
E começou a falar de coisas que eu nunca havia imaginado.
Carinho, por exemplo. Nunca tinha feito carinho numa puta, é claro. Essa
namorada de ensinou a fazer amor com sexo. Foi uma grande descoberta para mim.
Sei até o dia: primeiro de maio de 68 (eu tinha 22 anos), entre uma barricada
e outra lá na USP.
Portanto, para a minha geração, no início, traia-se
naturalmente, sem culpa. Hoje com um pouco de culpa, com um certo remorso.
Se na vida dos meus pais e avós eram normal a infidelidade e as
amantes fixas ou eventuais (as esposas sempre sabiam e fingiam que não era com
elas), com a nova geração a história é outra.
A maior invenção dos anos 90 foi o "ficar". Que inveja! Fica-se
com uma hoje, com outra amanhã e ninguém está enganando ninguém, traindo
ninguém. Culpa? Nem pensar. Sábia essa geração.
Ainda não entendi por que não se libera esse negócio de "ficar"
para nós também, mais velhos. Acabaria a infidelidade. "Você me traiu'? "Não,
só fiquei". Ou seja, a novíssima geração continua infiel. Só que deram um
jeito na jogada. Ficar não é pecado, não está nos mandamentos nem de Deus e
nem da Igreja. Mas se eu "ficar", como fica a minha namorada?
Mas, como já dizia Zilda Mayo, atriz de pornochanchada, numa
célebre entrevista para a revista Homem, "amar não é só colocar lá dentro".
Vou "ficando" por aqui.