Página anterior

DE COMO FICAR SEM CULPA

Próxima crônica

Revista Claudia

11/03/96

 


- O brasileiro é, antes de tudo, um infiel.

Poderia ter dito Euclydes da Cunha, que conheceu na pele o problema. E nas costas.

Mas nem todos, diriam os mais jovens. Correto. Mas eu estou a me referir à minha geração, dos meus pais e meus avós.

Não é preciso deitar em nenhum divã de psicanalista para entender o que aconteceu com a minha turma.

Para nós, no começo dos 60, amor e sexo eram duas coisas completamente distintas. As namoradas não "deixavam" nada. Não se "ficava", naquele tempo, imagine. A gente, depois de uns quinze dias pegava na mão. Beijo na boca, só uns seis meses depois. E ficava nisso. Sexo, jamais, impossível. Todo mundo tinha sua namorada (muitos casaram com elas). Depois do namoro íamos para a "zona". Lá não tinha amor, tinha sexo, com desclalcificadas prostitutas interioranas. Mas aqui na capital, acontecia o mesmo.

Sexo com amor não existia. Portanto, para nós a divisão amor/sexo era absolutamente normal. Para nós, até então, uma coisa não tinha nada a ver com a outra.

A primeira vez que fiz amor e sexo junto, foi um desastre. A namorada sentou-se na cama e me disse:

- Não é nada disso.

E começou a falar de coisas que eu nunca havia imaginado. Carinho, por exemplo. Nunca tinha feito carinho numa puta, é claro. Essa namorada de ensinou a fazer amor com sexo. Foi uma grande descoberta para mim. Sei até o dia: primeiro de maio de 68 (eu tinha 22 anos), entre uma barricada e outra lá na USP.

Portanto, para a minha geração, no início, traia-se naturalmente, sem culpa. Hoje com um pouco de culpa, com um certo remorso.

Se na vida dos meus pais e avós eram normal a infidelidade e as amantes fixas ou eventuais (as esposas sempre sabiam e fingiam que não era com elas), com a nova geração a história é outra.

A maior invenção dos anos 90 foi o "ficar". Que inveja! Fica-se com uma hoje, com outra amanhã e ninguém está enganando ninguém, traindo ninguém. Culpa? Nem pensar. Sábia essa geração.

Ainda não entendi por que não se libera esse negócio de "ficar" para nós também, mais velhos. Acabaria a infidelidade. "Você me traiu'? "Não, só fiquei". Ou seja, a novíssima geração continua infiel. Só que deram um jeito na jogada. Ficar não é pecado, não está nos mandamentos nem de Deus e nem da Igreja. Mas se eu "ficar", como fica a minha namorada?

Mas, como já dizia Zilda Mayo, atriz de pornochanchada, numa célebre entrevista para a revista Homem, "amar não é só colocar lá dentro".

Vou "ficando" por aqui.