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DANÇANDO NA CHUVA NO SÉCULO 21

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o estado de s. paulo

30.3.94

 


"GUARDA-CHUVA—Armação de varetas móveis, coberta de pano ou outro material, usada para resguardar as pessoas da chuva ou do sol. "Tá no mestre Aurélio.

Estamos quase no século 21. Nos últimos anos a informática mudou o mundo. Todas as ciências, todas as profissões, toda a sociedade foram beneficiadas por ela. O mundo evoluiu. Já conseguimos pousar até em Marte. Tudo é moderno. Mas, se você observar bem, vai perceber que um único objeto jamais se modernizou. É o mesmo desde que foi inventado. O guarda-chuva.

O guarda-chuva. Existe coisa mais antiga que o guarda-chuva? Desde que foi inventado é igual. Talvez nem tenha sido o homo sapiens quem tenha tido esta idéia primária. Talvez, antes, algum macaco, um dia, com a macaca, pegou umas folhas de palmeira, umas varetinhas, espetou um galho e foram namorar cantando na chuva. Com o mesmo guarda-chuva que Gene Kelly cantaria milhões e milhões de anos depois.

Observe a sua cidade num dia de chuva. Não parece que estamos nos anos 50? Ou menos? Não é satisfatório imaginar que este objeto que você abre quando chove foi usado um igualzinho pela Cleópatra, pelo Caim, pelo Matusalém, pelo D. Pedro I, pelo Maquiavel, pelo Tiradentes, pelo Einstein? Isso nos iguala ao resto da humanidade. E daqui a milhões de anos, estarão usando o mesmo guarda-chuva?

Estive na semana passada em Brasília. Choveu. Os brasilienses abriram seus guarda-chuvas. A cidade perdia o seu encanto de modernidade e ficava parecendo com a Rua Direita de qualquer cidade do mundo.

De uns tempos para cá inventaram uns que se dobram uma, duas vezes, coloca-se uma capinha, cabe na bolsa de qualquer um. Mas, quando se abre, fica igual ao usado por qualquer russo do século passado. Tem de pano, de plástico, de couro. Tem varetas de alumínio, de madeira, de silicone, até. Mudam o cabo. Fazem cabos retos, tortos, com bolotas na ponta. Mas são todos iguais. Tem preto, branco, colorido, tem até o do Banco Nacional. Tudo igual.
E o pior é que a gente sempre se molha. Ou seja, é um objeto que não deu certo, definitivamente. E mais, entra-se com ele na casa dos outros, nos restaurantes nos cinemas e vamos logo molhando o chão alheio. E depois, onde colocar aquela coisa flácida, molhada, respinguenta? O incômodo está instalado. E o pior é que a chuva passa, você vai embora e esquece o guarda-chuva em algum lugar. Sempre.

Será que a ciência, tão adiantada para várias direções, nunca vai dar um jeito de inventar alguma coisa moderna, um líquido, por exemplo, que a gente daria uma espreizada e ficaria imune das gotas de água? Será que nunca poderemos dançar na chuva sem precisar de um guarda-chuva?

Sem falar no nome do objejo, que está errado. Porque, decididamente, ele não guarda chuva nenhuma. Talvez em espanhol tenha um nome melhor: paráguas.


Sem contar nos motivos de riso que, às vezes, tal objeto nos oferece. Lembro-me do enterro de um velho tio no interior. A viúva, já velhinha, foi de peruca para o sepultamento do marido. Quando o caixão estava descendo para a cova definitiva, caiu a maior tempestade. Um parente, ao lado da desconsolada, logo abriu o guarda-chuva para proteger a velhinha, que já estava toda molhada de sinceras lágrimas. E não é que a varetinha do velho objeto arrancou a peruca da velha? E nem o parente e nem a abalada viúva perceberam o incidente? A peruca ficou lá em cima, pendurada na varetinha, exposta à chuva torrencial. Mas as pessoas que estavam do outro lado da tumba não só viram o inusitado espetáculo como trocaram o choro sentido por gargalhadas ruidosas. Até o padre engasgou o seu latim. E a coitada da minha tia lá, toda molhada. E careca.