- Largar de fumar é facílimo!
A frase não é minha. É do sempre ótimo Millôr
Fernandes, que complementava:
- Eu, por exemplo, já larguei umas quinze vezes!
O pior problema dos tabagistas, não é fumar. É
passar a vida inventando maneiras de deixar de fumar. Sempre achei que um dia irão
proibir a fabricação e a gente vai fumar unzinho só, traficado, por dia. Da lata!
Mas, enquanto os governos não tomam providências,
cada um vai se virando da sua maneira para deixar o vício. Conheço várias histórias de
tentativas verdadeiras (todas frustradas, e claro) de amigos e amigas.
A minha comadre Joana Fomm, por exemplo, foi me
visitar um dia em Cascais, tirou o maço do bolso e me pediu:
- Não rias! Não rias!
Cortou com a mão metade do cigarro e fumou a outra parte. Claro que eu ri. Joana continua
fumando até hoje. Só que, no lugar de um maço, fuma dois, pela metade.
Mas tem seu fundo científico. Segundo o doutor
Castanho, do spa São Pedro, este método está sendo testado nos Estados Unidos e muita
gente vem abandonando o prazer. Sabia, Joaninha?
Meu querido colega João Ubaldo Ribeiro, por
exemplo. Foi proibido de fumar porque a nicotina estava afetando a visão dele. Na Copa
dos Estados Unidos, onde quer que a gente estivesse, ele se encostava em mim e falava
baixinho no meu ouvido:
- Me dá um.
- Mas você não está proibido?
- Mas eu vou fumar escondido.
- Escondido de quem?
- De mim, uai.
E ia fumar atrás de uma árvore. Parecia que estava
a fazer xixi.
Tenho um amigo, em Lins, de mais idade, que também
está proibido. E olha que ele é médico. Sabe o que ele faz? Nem fuma, nem traga. Come
cigarro. Isso mesmo, come.
Mas os métodos vão evoluindo. Na minha infância
tinha um tal de Nicotinex. Depois inventaram chichetes de nicotina. Dava um hálito
horroroso. Hoje em dia tem as tais placas que você gruda no peito. Com todo o meu
respeito as indústrias farmacêuticas, sei não...
E o furo na orelha, você lembra? Grande moda do
final dos anos setenta. Chegou um gringo aqui e começou a furar orelha de todo mundo.
Parecia o Tyson. Não podia ver um fumante com orelha que mandava o bisturi. Depois dava
um ponto. Tinha uma fila. Ele operava trinta, quarenta pessoas de cada vez. Deve ter
ficado rico.
Sem falar na acupuntura. Sei não...
Me lembro de um famoso advogado que fez a operação
da orelha (eu também fiz) e começou a fumar escondido da família e dos amigos. Pode?
Pode, porque eu também fiz a mesma coisa.
Agora, o pior não-fumante é o ex-fumante. Como
fica chato. É como aquele que pára de beber e não consegue mais acompanhar o papo dos
que bebem. Além do mais, passam a fumar charutos e/ou cachimbo. Quer cheiro pior?
Todo esta tergiversação começou com um encontro
casual que eu tive com uma ex-namorada que eu não via há quase 30 anos. Foi domingo num
spa. Ela estava com as tais placas peito acima, me garantindo que, desta vez, ia largar o
vício de mais de 40 anos.
Ela estava de visita ao irmão e eu num almoço para
uns publicitários. Cinco horas, ela indo embora. Meu cigarro acabou e eu ainda ia ficar
mais umas duas horas.
- Aninha, você não se incomoda de deixar o seu
maço comigo? O meu acabou e a lojinha está fechada.
- Tenho vergonha, me disse toda tímida.
- Vergonha do quê, de me dar o seu maço?
- É que você não vai acreditar.
Me deu um maço de Free. Já tínhamos (novamente)
alguma coisa em comum.
- Olha.
Olhei.
- Mas o que é isso?
Juro:
- É que, para fumar menos, puxar menos fumaça, eu
pego o maço, ainda fechado e faço vários furos nele. De um lado até o outro do maço,
está vendo. Igual aquelas espadas nas caixas de mágico com, mulher dentro. Acerto o
filtro e várias partes do cigarro.
Você não pode imaginar o estrago que estava o
maço da Aninha.
Ela foi embora. Eu tentei fumar. Tentei.
Pode ser uma solução. Furar o mal pela raiz.