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o estado de s. paulo

09/08/2000

 


"Nas últimas horas os computadores do mundo inteiro, via Internet, reproduzem um texto de Gabriel García Márquez que vive, lúcido e consciente, seus últimos dias de vida, vítima de um câncer linfático.

No Brasil, o primeiro a divulgá-lo foi Márcio Moreira Alves, na sua coluna de O Globo. Todos se emocionam com a despedida de Márquez, um instante inesquecível da sensibilidade humana:

A Despedida de Márquez "Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.

Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse.

Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua.

Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes - te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.

Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...

Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.

Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre.

Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo."

Já havia mandado este texto para o jornal, quando recebi a informação por um jornal de Madri, dizendo que isso tudo é mentira. Ou seja, o Gabriel García Márquez não está com nenhum câncer linfático, passa bem e riu muito do texto publicado acima. Coisas da Internet, coisas de fim de século de cem anos de solidão. E eu coloco aqui o que escrevi sobre ele no livro Minhas Mulheres e Meus Homens:

Ele não deve se lembrar de mim, mas eu era um atento fã sentado na mesma mesa dele, num dos bares do festival de cinema de Cuba, tomando morritos.

Acho que foi o Ruy Guerra quem perguntou, sei lá por que, como era a relação dele com o pai. A história que ele contou, mágica, me levou imediatamente para Macondo.

Em 1926, por aí, o meu pai era um jovem telegrafista. Viajava pela Colômbia levando os postes, os fios e os aparelhos. García, era o nome dele. Quando chegou em Aracataca, cidadezinha isolada, conheceu a minha mãe, da família Márquez, tradicional, com certa grana. Começaram a namorar. Mas, além de muito jovem, não ficava bem namorar um telegrafista, imagine.

Então o pai dela, conseguiu a transferência dele para a outra ponta do país.

Mas... ele era telegrafista e assim se comunicavam e namoravam. Quando a minha mãe ficou grávida de mim, o velho disse que me criaria, mas que o pai sumisse. E foi assim, fui criado na casa dos meus avós.

Quanto ao meu pai, via pouco, conversava pouco com ele.

Mas agora, que a gente tem quase a mesma idade, ficamos muito amigos.

(No Amor nos Tempos do Cólera tem um namoro por telégrafo, lembra?)