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Craques da Fazendinha: Duda, Felipe, Wladimir

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o estado de s. paulo

09/98

 


Duda:

Tudo começou em 1973 quando o Samuel Wainer me apresentou a sua irmã Marta. Trabalhávamos na Última Hora.

Dias depois conheci o resto da família dela. O Mario e a Loli. Depois, Leco, Lulu, você, Miguel e Guelé. Você tinha 15 anos, melenas longas e um sorriso permanente.

Um dia a Marta foi entrevistar o Wladimir, craque de alma longa e pernas curtas. Aquele Wladimir que, depois, junto com o Casagrande, o Sócrates e outros fariam a Democracia Corinthiana, mesmo naqueles cinzentos anos 70 e começo de 70.

Do encontro da sua irmã com o Wladimir ficou uma foto dos dois lá no campo do Corinthians, a Fazendinha. Lembro-me bem da foto. Os dois sentados na arquibancada, ela com um caderninho de anotações nas mãos e ele com um sorriso gostoso mostrando uns cinquenta alvos dentes. Sua irmã, que ficou fã do craque da Fazendinha guardou a foto.

Depois nasceram nossos filhos Antonio e Maria. Você foi o padrinho do Tunico, junto com a Ruth, minha irmã.

Quis o destino e as coincidências da vida que você conhecesse outra Ruth. Acabaram se casando. Eu já estava separado da Marta mas você sabe que, da sua família eu nunca iria me separar. E você e a Ruthinha, aquela Tigreza de olhos verdes, fizeram questão que eu subisse ao altar para ser seu padrinho. Viramos compadres por todos os lados.

Mais tarde vieram os seus: Felipe e Olivia. Felipe, como Wladimir, corinthiano confesso, de carteirinha e boné.

Na quinta-feira, você subiu aos céus literalmente, num rasante e rápido vôo.

E foi a partir daí que os fatos se cruzaram.

Na sexta, sua irmã Marta e meus filhos estavam indo para a sua casa na Fazendinha. Não a do Wladimir, mas aquele bairro depois do Granja Vianna: Fazendinha. Coincidência?

No caminho, na estrada, um jovem negro levada uns dez garotos para um treino de futebol. Veja o destino, meu querido. O jovem negro era o Wladimir segurando o seu Felipe pelas mãos. O craque da seleção brasileira soube da tragédia do dia anterior e foi dar uma força para o futuro craque Felipe.

E aí que vem o mais interessante e que fez com que quem chovava de tristeza, chorasse de alegria.

Felipe, com o boné do Timão virado para trás, ao ver a Marta dentro do carro, ao invés de apresentar o Wladimir para ela, disse, com o maior orgulho:

- Wladimir, Wladimir, essa é aquela tia que eu te falei!

Obviamente que ele devia ter contado para o professor de futebol que tinha visto a tal foto de vinte anos atrás numa outra Fazendinha.

Duda, craque do coração aberto, craque como filho, irmão, esposo e pai. Craque como compadre, padrinho e como engenheiro.

Wladimir, um dos maiores craques de toda a história do Corinthians. Craque da solidariedade, craque da hora certa no lugar certo, craque que foi na missa de domingo, rezada por aquele padre cantor do casamento do Guelé. Levou a esposa e três filhos. O mais velho já tem até ginga de craque. Até brinco já colocou. E o Wladimir com um corpinho que acho que ainda ajudaria o seu velho time nos dias de hoje.

E o Felipe que não sei se aprenderá tudo o que o mestre lhe vem ensinando nos gramados da sua casa lá na Fazendinha. Mas acho que não é apenas o futebol que ele está aprendendo com o outro craque. Amor, carinho e solidariedade humana.

Coisas que o Felipe aprendeu com você também, tenha certeza.

E a Tigreza continua linda. Por fora e por dentro.

Fique com Deus, compadre. E não se preocupe não, que a gente "estamos aí", da Fazendinha do Wladimir à Fazendinha do Felipe e da Olívia.