Duda:
Tudo começou em 1973 quando o Samuel Wainer me
apresentou a sua irmã Marta. Trabalhávamos na Última Hora.
Dias depois conheci o resto da família dela. O
Mario e a Loli. Depois, Leco, Lulu, você, Miguel e Guelé. Você tinha 15 anos, melenas
longas e um sorriso permanente.
Um dia a Marta foi entrevistar o Wladimir, craque de
alma longa e pernas curtas. Aquele Wladimir que, depois, junto com o Casagrande, o
Sócrates e outros fariam a Democracia Corinthiana, mesmo naqueles cinzentos anos 70 e
começo de 70.
Do encontro da sua irmã com o Wladimir ficou uma
foto dos dois lá no campo do Corinthians, a Fazendinha. Lembro-me bem da foto. Os dois
sentados na arquibancada, ela com um caderninho de anotações nas mãos e ele com um
sorriso gostoso mostrando uns cinquenta alvos dentes. Sua irmã, que ficou fã do craque
da Fazendinha guardou a foto.
Depois nasceram nossos filhos Antonio e Maria. Você
foi o padrinho do Tunico, junto com a Ruth, minha irmã.
Quis o destino e as coincidências da vida que você
conhecesse outra Ruth. Acabaram se casando. Eu já estava separado da Marta mas você sabe
que, da sua família eu nunca iria me separar. E você e a Ruthinha, aquela Tigreza de
olhos verdes, fizeram questão que eu subisse ao altar para ser seu padrinho. Viramos
compadres por todos os lados.
Mais tarde vieram os seus: Felipe e Olivia. Felipe,
como Wladimir, corinthiano confesso, de carteirinha e boné.
Na quinta-feira, você subiu aos céus literalmente,
num rasante e rápido vôo.
E foi a partir daí que os fatos se cruzaram.
Na sexta, sua irmã Marta e meus filhos estavam indo
para a sua casa na Fazendinha. Não a do Wladimir, mas aquele bairro depois do Granja
Vianna: Fazendinha. Coincidência?
No caminho, na estrada, um jovem negro levada uns
dez garotos para um treino de futebol. Veja o destino, meu querido. O jovem negro era o
Wladimir segurando o seu Felipe pelas mãos. O craque da seleção brasileira soube da
tragédia do dia anterior e foi dar uma força para o futuro craque Felipe.
E aí que vem o mais interessante e que fez com que
quem chovava de tristeza, chorasse de alegria.
Felipe, com o boné do Timão virado para trás, ao
ver a Marta dentro do carro, ao invés de apresentar o Wladimir para ela, disse, com o
maior orgulho:
- Wladimir, Wladimir, essa é aquela tia que eu te
falei!
Obviamente que ele devia ter contado para o
professor de futebol que tinha visto a tal foto de vinte anos atrás numa outra
Fazendinha.
Duda, craque do coração aberto, craque como filho,
irmão, esposo e pai. Craque como compadre, padrinho e como engenheiro.
Wladimir, um dos maiores craques de toda a história
do Corinthians. Craque da solidariedade, craque da hora certa no lugar certo, craque que
foi na missa de domingo, rezada por aquele padre cantor do casamento do Guelé. Levou a
esposa e três filhos. O mais velho já tem até ginga de craque. Até brinco já colocou.
E o Wladimir com um corpinho que acho que ainda ajudaria o seu velho time nos dias de
hoje.
E o Felipe que não sei se aprenderá tudo o que o
mestre lhe vem ensinando nos gramados da sua casa lá na Fazendinha. Mas acho que não é
apenas o futebol que ele está aprendendo com o outro craque. Amor, carinho e
solidariedade humana.
Coisas que o Felipe aprendeu com você também,
tenha certeza.
E a Tigreza continua linda. Por fora e por dentro.
Fique com Deus, compadre. E não se preocupe não,
que a gente "estamos aí", da Fazendinha do Wladimir à Fazendinha do Felipe e
da Olívia.