UM
Eu já disse, na quinta-feira, que os brasileiros
tomaram o Hilton de São Francisco, como piratas de Sir Francis Drake. É impossível não
ser indiscreto com os nossos amigos. Impossível sentar-se na mesa ao lado de dois casais
de canarinhos e não ouvir o que eles estão conversando:
- Você notou, Ana Cristina, como o papel aqui rasga
direitinho no lugar picotado?
- E o mais impressionante é que a gente nem vê
onde é o picotado. Que país, menina!
- E o chuveiro? Já notaram quando a gente toma
banho? O espelho não embaça.
- Esses americanos... Eles devem passar algum
líquido no espelho.
- Com certeza. Primeiro mundo é assim, minha filha!
- E a pasta de dentes que a gente pode deixar
destampada que a ponta não fica dura? Pelo menos esta briga nós não estamos tendo.
- Isso tem no Brasil também.
- Nunca vi.
- Mas o que mais me impressionou foi a máquina de
gelo no corredor. Já tirou gelo? Então tira. É o maior barato.
- E as toalhas, gente?!. No nosso quarto tem oito
toalhas de banho. Pra dois, menina! Não é aquela pobreza do Brasil só de duas, não.
Oito!
- Tão branquinhas...
- Você sabia que o shampu é de graça, né,
Mariana? Perguntei. Pode usar quantos quiser. Aliás, muito bom.
- E o negócio do quarto, Alexandre? Como é que
você resolveu o problema de não poder fumar no quarto?
- Simples, Rodrigo, simples. Tirei a pilha do
alarme.
E começam os quatro a cantar: "com brasileiro,
não há quem possa, nós somos o esquadrão de ouro!"
DOIS
E por falar em máquinas e brasileiros, a televisão
aqui do hotel tem um canal próprio onde passam filmes. Pagos. Infantis, de aventura, de
ação, etc. E filmes para adultos. Ou, de sacanagem, como preferem os brasileiros. Não
prevendo a vinda de tantos canarinhos solitários, a TV avisa que você pode assistir ao
começo de um filme, sem pagar nada (o filme inteiro custa 9 dólares) durante cinco
minutos para poder optar por outro. Foram dar esta dica e eu ouvi num bar, aqui perto,
três jovens e solitários masturbadores conversando na maior animação, sobre a
programação adulta. Mesmo porque a mocinha da esquina cobra 200 dólares para subir ao
quarto.
- O melhor é o 64. A gente assiste por quatro
minutos e dá para resolver o problema. Sem pagar nada.
- 64? Bom é o 63 que já começa numa suruba
danada, nos letreiros. Tem que acabar antes do Direção De.
- Não liguem no 52 que demora pra começar a
sacanagem. Uns sete minutos de bate-papo. Me dei mal, tive que pagar.
- O 35 demora um minuto e meio mas, quando vem, é
sacanagem da grossa. Só hoje lá liguei três vezes.
TRÊS
Se você ainda pretende vir para a Copa, fique
sabendo que os canais americanos não transmitem todos os jogos. Mas há um, o 14, em
espanhol, que garantiza que vai passar os 52 jogos. Portanto, anote algumas expressões
que eles usam, para entrar logo no clima:
TIRO DE ESQUINA - Não é nenhum tiroteio na
O´Farrell com a Mason Street. É, simplesmente, o escanteio.
MOLESTADO - De repente algum jogador sai de campo
molestado. Não, ninguém o pertubou. Ele está é contundido.
BOTINAZO - Um chute muito forte ao gol. Usam também
pelotazo.
PORTEIRA - O gol, o arco, as traves.
INTERTIEMPO - Não, não é nenhuma revista nova que
o Mino Carta vai lançar. É o intervalo de jogo.
FUERA DE JUEGO - Expressão muito usada nesta Copa:
jogador impedido.
CONTRAGOLPE - Contrataque.
SAQUE - Lateral.
SAQUE DE META - Tiro de meta.
PROPOSTA FUTEBOLÍSTICA - Não se trata nem da venda
nem da compra de nenhum craque. Mas sim, da tática do time.
HABILITADO - Quando um jogador está habilitado,
significa que ele está bem colocado para receber a bola.
CAMARIM - Sim, são todos grandes artistas da bola.
E é para o camarim que eles vão no intertempo: vestiário.
PERFUME DE GOL - Quando um time está atacando
muito, eles dizem: hay en el aire un perfume de golo. O que ele quer dizer é que tá
cheirando gol.
QUATRO
E aqueles dois já bronzeados gordos de Belo
Horizonte, à beira da piscina de água quente, no décimo sexto andar, tomando uma
cervejinha gelada, rodeados por europeus por todos os lados:
- O hotel é bom. Muito bom. Só falta uma coisa
aqui nesse hotel.
- Mulher?
- Uma churrasqueira aqui na piscina. Já pensou? Com
essa cervejinha gelada?
- Hum!...
CINCO
E tem aqueles brasileiros que residem aqui há
muitos anos e se agregam. Como aquele que é a cara do PC e mora em Los Gatos há 24 e
nunca voltou ao Brasil. Não larga do pé dos jornalistas brasileiros. É bem
intencionado, coitado, só que as gírias que ele usa são de quando ele deixou o Brasil.
Quando ele quer dizer que ficou amigo de alguém,
logo tasca um "meu amigo Charlie Brown". Ou quando algum jornalista faz um
comentário correto, ele logo elogia: "o macaco tá certo!". Ele está feliz com
a nossa visita, apesar de achar o Parreira "um bokomoko"!