Fui publicar no final da crônica passada (Glenn
Miller) o meu e-mail e tive que passar o resto da semana recebendo e respondendo a
simpática correspondência. Não deu para responder a todos.
Deu de tudo. Claro que a grande maioria era sobre
Glenn Miller. Fãs indignados (não com a crônica) com o biógrafo que afirma que Miller
morreu transando num bordel parisiense, de um ataque do coração.
Impressionante como o maestro deixou fãs aqui no
Brasil. Em primeiro lugar, vou fazendo duas correções no meu texto que todos,
educadamente, me chamaram a atenção. A primeira é que a meiga e boa June Alysson está
viva. Sumida, mas viva. A segunda é que quem apresentou Grace Kelly ao príncipe Rainier
foi o Caryl Grant e não o James Stewart como eu escrevi. Certo?
Mas o e-mail (será que nunca vão traduzir esta
palavra? O "e" é do quê? Eletrônico?) que mais me chamou a atenção foi de
uma carioca (tinha que ser uma carioca) a me informar que, hoje em dia, dar o endereço
eletrônico para outra pessoa é a mais nova maneira de se cantar alguém. E me explica:
"Convidar para ver a coleção de borboleta,
pedir o telefone, perguntar o endereço do cachorrinho são cantadas pré-eletrônicas.
Trocar o e-mail pode parecer apenas que você é um cara moderno, por dentro do mundo de
hoje. Como também a possibilidade de trocar culturas, informações, etc. Para os
tímidos então é uma maravilha, pois ele recebe a correspondência e tem tempo de pensar
na resposta quanto quiser".
E ela termina: "você está me cantando?"
Ora, Mirtes (pelo nome, deve ter mais de cinqüenta), acho que é você que está me
cantando. Mas deixa pra lá, que a resposta pessoal já seguiu.
Mas a cartinha da Mirtes me fez pensar que ela tem
uma certa razão. Não que trocar correspondência signifique cantada. Mas sim, para a
gente pensar um pouco na evolução da cantada em si. E nos outros.
No princípio não era o verbo. Era uma cacetada na
cabeça e se arrastada a vítima para casa. Embora hoje em dia algumas pessoas ainda ajam
assim.
Depois as cantadas eram organizadas pelas famílias
dos jovens. Eu me lembro que o meu avô foi pedir uma moça em casamento e o pai dela
disse:
- A fulana está muito novinha. Leva a beltrana que
está a encalhar.
Viraram meus avós e viveram felizes por muitos e
muitos anos. Que eu saiba.
Passaram-se alguns anos e veio o escurinho do
cinema. Que coisa mágica. As moças sentavam-se primeiro e "guardavam" o nosso
lugar. A gente ficava andando em círculos dentro do cinema, apagava a luz e a gente
sentava. "Oi". Eu tinha uma técnica: pegava na mão no primeiro beijo na tela.
Achava que era o clima ideal. E quando não saia beijo na tela? E quando demorava? E
éramos educados. Não íamos pegando assim sem mais nem menos. Perguntava-se:
"posso?" Ela já sabia o que era. Beijo era coisa para dali a umas semanas. No
rosto. Tive namorada que nem cheguei a beijar na boca.
O passeio na praça, a pipoca. E quando inventaram
"dançar de rosto colado". Como facilitou tudo. Mesmo porque não se dançava
apenas com o rosto colado. Eram seis músicas em cada seleção da orquestra. Ao começar
a quinta a gente começava a maneirar para não dar vexame na hora de devolver a moça para
a mãe dela que, de longe, a tudo observava. Sim, havia luzes nos salões.
Tempos depois quando a coisa estava ficando uma
beleza com a tal da amizade colorida, veio a AIDs. Agora pede-se em namoro com o exame
negativo de HIV no bolso. "Sim, mas de quando é?"
Quem diria que iríamos chegar ao final do século
com estas siglas e novas expressões todas participando da nossas vidas sentimentais e
sexuais? AIDS, HIV, E-MAIL, Mirc, Forum, Chat, Bate-papo, e outras.
É, parece que o amor, não tem mais apenas quatro
letras, como a rosa que se ofertava em dias de graça e descontração.
Pedia-se a mão ao pai. Hoje, como aconteceu
recentemente nos Estados Unidos, leva-se a mãe.