Página anterior

COISAS DO E-MAIL, Ô MEU

Próxima crônica

o estado de s. paulo

1999

 


Fui publicar no final da crônica passada (Glenn Miller) o meu e-mail e tive que passar o resto da semana recebendo e respondendo a simpática correspondência. Não deu para responder a todos.

Deu de tudo. Claro que a grande maioria era sobre Glenn Miller. Fãs indignados (não com a crônica) com o biógrafo que afirma que Miller morreu transando num bordel parisiense, de um ataque do coração.

Impressionante como o maestro deixou fãs aqui no Brasil. Em primeiro lugar, vou fazendo duas correções no meu texto que todos, educadamente, me chamaram a atenção. A primeira é que a meiga e boa June Alysson está viva. Sumida, mas viva. A segunda é que quem apresentou Grace Kelly ao príncipe Rainier foi o Caryl Grant e não o James Stewart como eu escrevi. Certo?

Mas o e-mail (será que nunca vão traduzir esta palavra? O "e" é do quê? Eletrônico?) que mais me chamou a atenção foi de uma carioca (tinha que ser uma carioca) a me informar que, hoje em dia, dar o endereço eletrônico para outra pessoa é a mais nova maneira de se cantar alguém. E me explica:

"Convidar para ver a coleção de borboleta, pedir o telefone, perguntar o endereço do cachorrinho são cantadas pré-eletrônicas. Trocar o e-mail pode parecer apenas que você é um cara moderno, por dentro do mundo de hoje. Como também a possibilidade de trocar culturas, informações, etc. Para os tímidos então é uma maravilha, pois ele recebe a correspondência e tem tempo de pensar na resposta quanto quiser".

E ela termina: "você está me cantando?" Ora, Mirtes (pelo nome, deve ter mais de cinqüenta), acho que é você que está me cantando. Mas deixa pra lá, que a resposta pessoal já seguiu.

Mas a cartinha da Mirtes me fez pensar que ela tem uma certa razão. Não que trocar correspondência signifique cantada. Mas sim, para a gente pensar um pouco na evolução da cantada em si. E nos outros.

No princípio não era o verbo. Era uma cacetada na cabeça e se arrastada a vítima para casa. Embora hoje em dia algumas pessoas ainda ajam assim.

Depois as cantadas eram organizadas pelas famílias dos jovens. Eu me lembro que o meu avô foi pedir uma moça em casamento e o pai dela disse:

- A fulana está muito novinha. Leva a beltrana que está a encalhar.

Viraram meus avós e viveram felizes por muitos e muitos anos. Que eu saiba.

Passaram-se alguns anos e veio o escurinho do cinema. Que coisa mágica. As moças sentavam-se primeiro e "guardavam" o nosso lugar. A gente ficava andando em círculos dentro do cinema, apagava a luz e a gente sentava. "Oi". Eu tinha uma técnica: pegava na mão no primeiro beijo na tela. Achava que era o clima ideal. E quando não saia beijo na tela? E quando demorava? E éramos educados. Não íamos pegando assim sem mais nem menos. Perguntava-se: "posso?" Ela já sabia o que era. Beijo era coisa para dali a umas semanas. No rosto. Tive namorada que nem cheguei a beijar na boca.

O passeio na praça, a pipoca. E quando inventaram "dançar de rosto colado". Como facilitou tudo. Mesmo porque não se dançava apenas com o rosto colado. Eram seis músicas em cada seleção da orquestra. Ao começar a quinta a gente começava a maneirar para não dar vexame na hora de devolver a moça para a mãe dela que, de longe, a tudo observava. Sim, havia luzes nos salões.

Tempos depois quando a coisa estava ficando uma beleza com a tal da amizade colorida, veio a AIDs. Agora pede-se em namoro com o exame negativo de HIV no bolso. "Sim, mas de quando é?"

Quem diria que iríamos chegar ao final do século com estas siglas e novas expressões todas participando da nossas vidas sentimentais e sexuais? AIDS, HIV, E-MAIL, Mirc, Forum, Chat, Bate-papo, e outras.

É, parece que o amor, não tem mais apenas quatro letras, como a rosa que se ofertava em dias de graça e descontração.

Pedia-se a mão ao pai. Hoje, como aconteceu recentemente nos Estados Unidos, leva-se a mãe.