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COISAS DE CINEMA

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o estado de s. paulo

12/02/96

 


O cinema é a arte da ilusão, já disse alguém. É tanta ilusão que eu fico a ver os filmes e imaginar como tudo dá certo nas telas. Nada sai errado. Querem ver?

O sujeito que está procurando o taxi, acha na hora. Basta esticar o braço. E o mais grave: a pessoa que vai seguir o primeiro taxi, também leva a mesma facilidade. É clássica a frase: siga aquele taxi! Coisa de cinema.

Só no cinema os casais acordam e se beijam e conversam de pertinho. Ninguém escova os dentes, já repararam? Personagem não tem mau hálito nunca.

E quando o ator lervanta da mesa no bar e deixa o dinheiro certinho, trocadinho e vai embora sem ao menos olhar para trás?

E as crianças que dormem no ato? Encostam a cabecinha no travesseiro e dormem. E os quartos delas que são super arrumadinhos? E as casas não têm empregada. Não sei quem arruma aquilo tudo.

E quando o casal desliga a luz no quarto para dormir? Já notaram como o luar é forte? Mais forte que o luar do nosso sertão. Tudo azul, uma beleza. E a janela está fechada, pode notar.

Telefone nunca dá ocupado. O sujeito disca e o outro atende no ato. O outro sempre está do outro lado. E o mais interessante é que eles não se despedem. Tocam o assunto e desligam na cara do outro.

A pessoa sai para fazer uma compra e sempre tem o que elas procuram. E por que será que em toda briga quebram pelo menos uma mesa? Redonda, geralmente.

Já viram cavalo beber água em cinema? Coitados. Xixi e cocô, nem pensar, nunca fazem. E ninguém tira os arreios deles. Colocar colocam, mas tirar, jamais.

Roupa molhada no corpo, na cena seguinte já está sequinha. E o melhor, passadinha.

Já viu isqueiro falhar em filme?

E a velocidade com que a comida pedida no restaurante chega à mesa? Sem falar nos drinques.

No cinema todo mundo fala inglês. Inclusive os índios e os extra-terrestres.

E as velas, gente, como iluminam! Uma simples velinha ilumina uma sala enorme.

Mas o melhor mesmo é a facilidade de se estacionar nas grandes cidades. E estacionam bem na porta de onde têm que ir. Isso em Nova Iorque e São Francisco!

Na hora de morrer, o moribundo sempre tem uma frase definitiva para dizer. Ou um segredo. Ou quem é o assassino. Depois tomba a cabeça para o lado esquerdo.

Outra coisa que me intriga é quem fecha o saloon. Porque saloon não tem porta de fechar, só aquelas de vai-e-vem. Será que o serviço é de vinte e quatro horas?

E como fazem amor rápido, pessoal Em menos de meio minuto os dois já estão mais do que satisfeitos e acendendo um cigarrinho. Todos têm orgasmos.

Dois músicos se encontram em algum lugar com dois instrumentos diferentes e começam a tocar. Ninguém afina, pois já vêm afinadíssimos.

E cada revolver de seis balas que dispara mais de quinhentas? Sem falar nas espingardas de um cano só.

A exemplo dos cavalos, ninguém vai ao banheiro no cinema. E olham que comem e bebem pra burro.

Na hora de se atravessar um rio, ele é sempre rasinho, mas quando o herói pula lá de cima do despenhadeiro é claro que o rio é fundo. Nunca vi ninguém morrer, pulando lá de cima.

E por que cargas d'água todo cinema brasileiro tem pulgas? Que devem, inclusive, falar inglês tão bem quanto nosso heróis de ficção.