O cinema é a arte da ilusão, já disse alguém. É
tanta ilusão que eu fico a ver os filmes e imaginar como tudo dá certo nas telas. Nada
sai errado. Querem ver?
O sujeito que está procurando o taxi, acha na hora.
Basta esticar o braço. E o mais grave: a pessoa que vai seguir o primeiro taxi, também
leva a mesma facilidade. É clássica a frase: siga aquele taxi! Coisa de cinema.
Só no cinema os casais acordam e se beijam e
conversam de pertinho. Ninguém escova os dentes, já repararam? Personagem não tem mau
hálito nunca.
E quando o ator lervanta da mesa no bar e deixa o
dinheiro certinho, trocadinho e vai embora sem ao menos olhar para trás?
E as crianças que dormem no ato? Encostam a
cabecinha no travesseiro e dormem. E os quartos delas que são super arrumadinhos? E as
casas não têm empregada. Não sei quem arruma aquilo tudo.
E quando o casal desliga a luz no quarto para
dormir? Já notaram como o luar é forte? Mais forte que o luar do nosso sertão. Tudo
azul, uma beleza. E a janela está fechada, pode notar.
Telefone nunca dá ocupado. O sujeito disca e o
outro atende no ato. O outro sempre está do outro lado. E o mais interessante é que eles
não se despedem. Tocam o assunto e desligam na cara do outro.
A pessoa sai para fazer uma compra e sempre tem o
que elas procuram. E por que será que em toda briga quebram pelo menos uma mesa? Redonda,
geralmente.
Já viram cavalo beber água em cinema? Coitados.
Xixi e cocô, nem pensar, nunca fazem. E ninguém tira os arreios deles. Colocar colocam,
mas tirar, jamais.
Roupa molhada no corpo, na cena seguinte já está
sequinha. E o melhor, passadinha.
Já viu isqueiro falhar em filme?
E a velocidade com que a comida pedida no
restaurante chega à mesa? Sem falar nos drinques.
No cinema todo mundo fala inglês. Inclusive os
índios e os extra-terrestres.
E as velas, gente, como iluminam! Uma simples
velinha ilumina uma sala enorme.
Mas o melhor mesmo é a facilidade de se estacionar
nas grandes cidades. E estacionam bem na porta de onde têm que ir. Isso em Nova Iorque e
São Francisco!
Na hora de morrer, o moribundo sempre tem uma frase
definitiva para dizer. Ou um segredo. Ou quem é o assassino. Depois tomba a cabeça para
o lado esquerdo.
Outra coisa que me intriga é quem fecha o saloon.
Porque saloon não tem porta de fechar, só aquelas de vai-e-vem. Será que o serviço é
de vinte e quatro horas?
E como fazem amor rápido, pessoal Em menos de meio
minuto os dois já estão mais do que satisfeitos e acendendo um cigarrinho. Todos têm
orgasmos.
Dois músicos se encontram em algum lugar com dois
instrumentos diferentes e começam a tocar. Ninguém afina, pois já vêm afinadíssimos.
E cada revolver de seis balas que dispara mais de
quinhentas? Sem falar nas espingardas de um cano só.
A exemplo dos cavalos, ninguém vai ao banheiro no
cinema. E olham que comem e bebem pra burro.
Na hora de se atravessar um rio, ele é sempre
rasinho, mas quando o herói pula lá de cima do despenhadeiro é claro que o rio é
fundo. Nunca vi ninguém morrer, pulando lá de cima.
E por que cargas d'água todo cinema brasileiro tem
pulgas? Que devem, inclusive, falar inglês tão bem quanto nosso heróis de ficção.