Dia 19 de junho, aniversário do Chico. Não o desta semana, mas o de 1998.
Paris, Copa do Mundo, Chico fazendo 54 anos. Neste dia, pela tarde,
jogariam Nigéria e não sei quem. Fiquei de ir assistir com ele no seu
apartamento em Marais. Torcíamos fervorosamente pelo time africano.
Cheguei na hora combinada, vinho nacional debaixo do braço,
animado. Toco o interfone. Nada. Espero uns dez minutos, ele poderia estar
tomando banho, porque ia jogar futebol antes. Nada. Chegando a hora do
jogo. Vou para a rue St. Paul. Tinha um bom boteco lá. Assisto todo o
primeiro tempo. Volto para o apê dele. Toco, ele atende, a porta abre, eu
subo.
- Fui preso!!!
Nem disse oi. Fui preso!!! Mesmo irritado, dava umas
risadas. Preso, cara! Suado, ainda de calção e camiseta do Brasil.
- Preso?
- Eu e o Vinícius! Presos!
Vinícius era um músico que tinha ido jogador futebol com
ele. Deu carona pru Chico num carro alugado.
- Dá para explicar?
- Ia chegar na hora, desculpa. O Vinícius me deixou ali na
avenida. Quando eu abri a porta do carro pra sair, vinham duas bichinhas
holandesas de moto e entraram na porta. Caíram, saiu sangue. Se tem
sangue, tem polícia e ambulância. Aqui é assim. A gente tinha que esperar.
- Mas machucou muito?
- Porra nenhuma, um cortezinho de nada no joelho. (mostrou o
tamanho do corte abrindo dois dedos) Dois pontinhos. Mas a bichinha ficava
gemendo no chão. Eu com medo de passar algum jornalista brasileiro por
ali.
- Somos uns 700!
- Pois é. Foi juntando gente e o cara lá no chão. Aí chega a
viatura. Pede documentos pra mim e pru Vinícius. A gente não tinha. Eu
tava assim, ó, desse jeito. Vou levar documento pra jogar futebol em
Paris? Aí começou a complicar. O guarda já telefonou pra outro. Chegou o
outro – enquanto a ambulância pegava os holandeses e...
- Como é que você sabe que eram holandeses.
- Tavam de laranja. Aí resolveram nos levar para a delegacia
para fazer o B.O. Tentei argumentar com o cara, disse que era famoso no
Brasil, que tava cheio de jornalista brasileiro na cidade, que ia ser um
escândalo, aquele lero todo. Mas tinha que fazer o boletim de ocorrência.
Tinha sangue, eles insistiam muito nisso.
- Sangrava muito (ele fez o gesto com os dedos e o corte
estava ficando cada vez maior)?
- Uma bobagem. Aí o segundo guarda consentiu em fazer o B.O.
dentro da viatura. Entramos lá dentro eu e o Vinícius no banco de trás e
os dois no banco da frente.
- Nome, nacionalidade e profissão. Eu: Francisco, tal,
brasileiro, músico. O Vinícius: Vinícius, tal, brasileiro, músico. O cara:
data de nascimento. Eu: 19 de junho de 1944 (que é hoje, né?).
- Você ainda não deu espaço para o abraço.
- Deixa eu acabar. Quando eu falei 19 de junho de 44, o
Vinícius começou a me olhar meio de lado. Quando perguntaram o nascimento
dele, ele: 19 de junho de 1944. Você acredita, acredita? Nascemos no mesmo
dia, mês e ano e é hoje. Aí os guardas começaram a achar que a gente tava
gozando com a cara deles. Principalmente porque nós dois começamos a nos
abraçar, falando em português, nos cumprimentando, né?, e os caras ficando
irritados. Meu, eu não acredito. Quando a gente percebeu, a viatura já
estava andando. Aí eu vi que eles viraram ali naquela esquina, aquela ali,
e eu disse que morava aqui e podia pegar os documentos. O cara subiu aqui
comigo e dizia: se você não nasceu hoje a Copa do Mundo acabou para você.
Acredita, cara? Só não fui algemado. Vai ligando a televisão aí que eu vou
tomar uma ducha rápido.
Ele foi subindo a escada.
- Chico, parabéns!
- Por que?
- Nada... A Nigéria tá perdendo.
- Que merda, cara!