Paris - Eu e a Maria, 19, minha filha, sentados num
banquinho, vendo o povo passar. Ligo o meu mini-gravador. Ela, lendo Elle.
* Passam três carros com franceses sem camisa, corpo
fora da janela, gritando: vive la France, vive la France!
* Porque hoje é sábado, Vinicius de Moraes? Me lembro de
uma história que ele contava. Era adido cultural aqui, liga uma miss Brasil em missão
oficial. Queria sair com ele. Ele se entusiasma. Ela pede para ver a torre Eiffel. Queria
confirmar se era mesmo inclinada. Ele broxou.
* Passa um ônibus de turismo, de dois andares. Aberto em
cima. Saiu o sol por aqui. Europeu não sabe tomar sol. Pimentão. Para o sol as francesas
colocaram as manguinhas de fora. E as pernas. Mais brancas, impossível.
* Bem na nossa frente o Fouquets, um dos
restaurantes mais caros daqui. Sem saber, entrei lá outro dia e fiz xixi (que bobagem!).
* Um carrinho de lixo vai limpando a sarjeta. Dirigido
por uma loira francesa e muito da interessante. Pode, uma francesa lixeira? Pode.
* Uma puta negra ginga na esquina. Cinco e meia da tarde,
mil dólares.
*
O sol nas bancas de revistas. Na Elle da Maria modelos francesas, deslumbrantes. Procuro
por elas na calçada. Nada. Tá mais pra Ipiranga com São João.
* Quatro francesinhas sobem a avenida abraçadas e
cantando algo incompreensível. Dezenas de jovens descem, de patins. Muitos. Por toda a
avenida bandeiras dos países da copa. Nas bancas, jornais do mundo todo. Do Brasil, não.
* Uma crioulinha de uns dois anos cai dentro da placa do
bar. E ri. Caiu, mas caiu em Paris. Muita gente passando pra cá e pra lá. Africanos com
suas elegâncias nada discretas.
* Passa uma loira linda, linda. Até achei que ela olhou
para mim. Fui seguindo com o rabo do olhos sabendo que, nunca mais na vida, vou ver ela de
novo. Dá vontade de sair correndo atrás.
* Queria ver o Rui Barbosa ali na esquina, subindo num
banquinho e perguntando: em que língua quereis que eu fale? Ia se dar mal.
* Pouca gente com celular por aqui. Não é aquele
novo-riquismo de brasileiro.
- Pai, o que você está fazendo?
- Uma crônica. Alguma coisa como "vendo os
franceses passar".
- Mas, pai, aqui só tem turista.
- Lê a sua revista, lê. Eu sei o que estou fazendo.
* Passam dois soldadinhos de chumbo.
- Você tem que ir onde tem francês. Lá, todo
mundo usa celular. Igual em Londres.
- Maria, você tá muito metidinha, sabia?
* Uma peituda francesa discute com o motorista que
avançou na faixa de pedestre.
- Não é francesa, pai. É alemã.
- Posso trabalhar? Que coisa! Já ouviu falar em licença
poética?
* O pessoal em volta dá razão para a peituda francesa.
- Pai, essa sua crônica não vai dar certo. Como você
é ignorante, pai. Tá pensando que isso aqui é Lins? A peituda é alemã. Na pior das
hipóteses, belga.
- Maria, você está comigo ou contramigo? Não percebe
que eu quero, a partir de um sábado de tarde, na Champs Elysée, fazer uma análise do
povo francês? Ou alguma coisa parecida?
- Mas aqui, pai, sábado de tarde, só dá turista. Olha
aí em volta.
- Aquele ali é francês. Olha o jeitão dele.
- Mexicano. Já viu brasileiro em Paris falando espanhol,
pai?
- Pode estar querendo disfarçar.
- Disfarçar o quê?
- Olha aqui, menina, eu estou aqui trabalhando. Não sou
turista, não.
- Ih, pai, que babaquice. Só estava querendo ajudar. Se
eu soubesse que você tinha vindo para cá para ver francês, tinha te avisado.
- Ah, é? E onde é que eu vejo francês?
- No estádio, ué? A França está jogando agora.
Caio em mim. Na França, caio em mim.
Desligo o gravador.
- Vamos embora.
- Desistiu da crônica?
- Que crônica, menina? Que crônica?
Ela pega na minha mão e me convida para um sorvete.
- Aqui, não. Muito turista.
E dou um beijo na testa dela.