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Champs elysées,  sábado de tarde

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ISTOÉ

18/06/98

 


Paris - Eu e a Maria, 19, minha filha, sentados num banquinho, vendo o povo passar. Ligo o meu mini-gravador. Ela, lendo Elle.

* Passam três carros com franceses sem camisa, corpo fora da janela, gritando: vive la France, vive la France!

* Porque hoje é sábado, Vinicius de Moraes? Me lembro de uma história que ele contava. Era adido cultural aqui, liga uma miss Brasil em missão oficial. Queria sair com ele. Ele se entusiasma. Ela pede para ver a torre Eiffel. Queria confirmar se era mesmo inclinada. Ele broxou.

* Passa um ônibus de turismo, de dois andares. Aberto em cima. Saiu o sol por aqui. Europeu não sabe tomar sol. Pimentão. Para o sol as francesas colocaram as manguinhas de fora. E as pernas. Mais brancas, impossível.

* Bem na nossa frente o Fouquet’s, um dos restaurantes mais caros daqui. Sem saber, entrei lá outro dia e fiz xixi (que bobagem!).

* Um carrinho de lixo vai limpando a sarjeta. Dirigido por uma loira francesa e muito da interessante. Pode, uma francesa lixeira? Pode.

* Uma puta negra ginga na esquina. Cinco e meia da tarde, mil dólares.

                    * O sol nas bancas de revistas. Na Elle da Maria modelos francesas, deslumbrantes. Procuro por elas na calçada. Nada. Tá mais pra Ipiranga com São João.

* Quatro francesinhas sobem a avenida abraçadas e cantando algo incompreensível. Dezenas de jovens descem, de patins. Muitos. Por toda a avenida bandeiras dos países da copa. Nas bancas, jornais do mundo todo. Do Brasil, não.

* Uma crioulinha de uns dois anos cai dentro da placa do bar. E ri. Caiu, mas caiu em Paris. Muita gente passando pra cá e pra lá. Africanos com suas elegâncias nada discretas.

* Passa uma loira linda, linda. Até achei que ela olhou para mim. Fui seguindo com o rabo do olhos sabendo que, nunca mais na vida, vou ver ela de novo. Dá vontade de sair correndo atrás.

* Queria ver o Rui Barbosa ali na esquina, subindo num banquinho e perguntando: em que língua quereis que eu fale? Ia se dar mal.

* Pouca gente com celular por aqui. Não é aquele novo-riquismo de brasileiro.

- Pai, o que você está fazendo?

- Uma crônica. Alguma coisa como "vendo os franceses passar".

- Mas, pai, aqui só tem turista.

- Lê a sua revista, lê. Eu sei o que estou fazendo.

* Passam dois soldadinhos de chumbo.

- Você tem que ir onde tem francês.  Lá, todo mundo usa celular. Igual em Londres.

- Maria, você tá muito metidinha, sabia?

* Uma peituda francesa discute com o motorista que avançou na faixa de pedestre.

- Não é francesa, pai. É alemã.

- Posso trabalhar? Que coisa! Já ouviu falar em licença poética?

* O pessoal em volta dá razão para a peituda francesa.

- Pai, essa sua crônica não vai dar certo. Como você é ignorante, pai. Tá pensando que isso aqui é Lins? A peituda é alemã. Na pior das hipóteses, belga.

- Maria, você está comigo ou contramigo? Não percebe que eu quero, a partir de um sábado de tarde, na Champs Elysée, fazer uma análise do povo francês? Ou alguma coisa parecida?

- Mas aqui, pai, sábado de tarde, só dá turista. Olha aí em volta.

- Aquele ali é francês. Olha o jeitão dele.

- Mexicano. Já viu brasileiro em Paris falando espanhol, pai?

- Pode estar querendo disfarçar.

- Disfarçar o quê?

- Olha aqui, menina, eu estou aqui trabalhando. Não sou turista, não.

- Ih, pai, que babaquice. Só estava querendo ajudar. Se eu soubesse que você tinha vindo para cá para ver francês, tinha te avisado.

- Ah, é? E onde é que eu vejo francês?

- No estádio, ué? A França está jogando agora.

Caio em mim. Na França, caio em mim.

Desligo o gravador.

- Vamos embora.

- Desistiu da crônica?

- Que crônica, menina? Que crônica?

Ela pega na minha mão e me convida para um sorvete.

- Aqui, não. Muito turista.

E dou um beijo na testa dela.