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Chamem o Delegado!!!

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o estado de s. paulo

24/04/2002

 


Há uns dois anos fui ao programa da Babi, lá no SBT. O assunto era a Internet. Éramos três os entrevistados e estava ao meu lado um delegado carioca, com direito a terno e gravata. Orgulhoso de ser o titular da 1.ª Delegacia de Crimes pela Internet, ou coisa que o valha. Um policial e advogado que me pareceu ter as melhores das boas intenções em combater certos abusos. Mas senti, naquela noite, que nem o delegado nem a Internet sabiam muito bem que crimes eram aqueles.

Pois bem. Queria falar de direitos autorais, para o delegado. Não naquela noite, mas agora. É preciso, senhor delegado, saber a origem dos textos que rodam pela rede. Não deve ser difícil rastrear e chegar ao primeiro a soltar esse ou aquele texto. Para quem não entende como a coisa viaja pela Internet, é assim: uma pessoa (de qualquer lugar do Brasil ou do mundo) manda um texto qualquer para 50 pessoas numa teclada só. Cada uma dessas manda para mais cem, as cem para mais cem. Ou seja, em menos de uma semana, tal texto já foi lido por mais de 1 milhão de pessoas.

Uns exemplos. Um dia correu pela Internet um texto que seria do Gabriel García Márquez, se despedindo pois ele estava morrendo. O mundo inteiro ficou sabendo do caso. Saiu em todos os jornais do mundo. Era mentira. Deu um trabalhão para o colombiano provar que estava vivo.

Recebi um texto outro dia (de alguém que não conheço, mas descola o endereço da gente), assinado pelo Millôr Fernandes, sobre o palavrão. Aliás, um texto genial. Dias depois recebi o mesmo texto assinado pelo Verissimo. Provavelmente não é de nenhum deles.

Um texto assinado pelo Ziraldo apareceu em várias telas do Brasil. Não era dele. Ou seja, a irresponsabilidade está instalada e instaurada.

Agora anda rolando um texto meu por aí (eu já recebi uns quatro), chamado "Carta do escritor Mário (com acento) Prata ao ministro Pedro Malan". Realmente o texto é meu, e foi publicado aqui neste mesmo espaço no dia 16 de junho de 99. Todo mundo achando que o texto é atual. Jornais me ligando pedindo a informação. Ao mesmo tempo devem estar incomodando o ministro lá em Brasília. Sim, um colega do Correio Braziliense me achou em Florianópolis. Quando eu disse que era coisa do passado, morreu ali mesmo. Só que, como a coisa viaja muito rápido, alguém (sempre tem um alguém) colocou um texto do Fernando Pessoa anexado ao final da minha crônica. Um texto, aliás, que não tinha nada a ver com o contexto. Passado uns dias, recebi mais uma vez a mesma crônica, com o texto do Pessoa grudado e sem a assinatura dele. Depois comecei a receber e-mails dizendo que eu estava usando texto do Pessoa como se fosse meu. Ou seja, virei ladrão! Isso, diante de centenas de milhares de internautas. Como é que eu faço, seu delegado, para chegar à origem disso tudo?

Mas o mais grave está acontecendo agora e também envolve o meu nome e da escritora Adriana Falcão, de quem sou o fã número 1, como diz todo fã que se preza. Veja que loucura: em novembro do ano passado, escrevi aqui a crônica Ela de novo, comentando seu novo livro Mania de Explicação. Um livro cheio de frases geniais. Uma, por exemplo: "Felicidade é um agora sem nenhuma pressa." Na crônica - na verdade mais uma resenha do que crônica -, citei ainda mais umas cinco ou seis frases dela, dando nome da autora e até da editora. Aliás, a editora (Salamandra) fez até um anúncio do livro nos jornais, tendo como pano de fundo o meu texto, o que muito me envaideceu.

Pois um belo dia recebi (eu!) uma crônica assinada por mim, com várias frases do livro da Adriana. Mandei um e-mail para a remetente explicando o caso todo. Mas a coisa já havia se espalhado como joio. Até que o livro da Adriana - com toda a justiça do mundo - entrou na lista dos dez mais vendidos infantis. O que foi então que aconteceu? Metade das pessoas está achando que a Adriana usou os "meus textos" daquela "crônica". Outra metade considera que eu copiei o texto da Adriana e espalhei pelo mundo. Ou seja, seu delegado, um de nós - eu ou ela - somos bandidos. E como é que fica isso? O senhor não acha que a primeira pessoa, que um dia escreveu aquelas frases todas da Adriana com o meu nome, não cometeu um crime? Ou o senhor acha que isso não é crime? Posso te mandar um e-mail que recebi de uma professora universitária - mandado para centenas de pessoas - dizendo que o texto não era meu. Será que aqui não entra a famosa lei dos danos morais?

Ou seja, eu não tenho nada com isso. Estou quieto aqui na minha casa, passando por ladrão. E a Adriana, coitada, diz que não está nem aí. Mas eu estou!

Hoje em dia, qualquer garoto pode abrir um endereço grátis no hotmail, no zipmail até com o nome do presidente da República e ficar soltando barbaridades por aí. Usando textos sei lá de quem e colocando o nome de escritores sérios.

A delegacia não foi criada para isso? Ou o senhor fica o dia inteiro aí jogando paciência? Tenha a santa paciência!!!