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CEROULAS NA INVERNADA

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Revista de Urologia

17/04/96

 


Naquele tempo, diria Jesus, não existiam os motéis. Naquele tempo que eu digo, é há uns 30 anos. Principalmente no interior. Mais precisamente em Lins. Pois foi que o fato se deu.

Havia lá um médico muito conhecido na cidade (aliás, todo mundo era conhecido na cidade) e que está vivo até hoje. E, desde aquele tempo, era considerado o maior garanhão da cidade. Mas não poderia ir à zona de prostituição, com a reputação dele (de médico, quero dizer).

Como é que se fazia, então? Pegava-se uma biscate (meninas que não eram da zona e ficavam zanzando pela cidade, davam por prazer, não cobravam), ia-se para a estrada de asfalto, pegava-se um atalhozinho de terra, uma invernada e pronto. Quebrava-se o galho assim, em tempos idos.

Pois numa noite fria o nosso médico-herói assim fez. Disse para a dileta patroa (uma das dez mais elegantes da cidade) que ia ao poquerzinho do clube, como toda quarta-feira. Varreu a cidade com seu Simca Chambord amarelo-cheguei, pegou uma moça e foi para a estrada e foi para o mato tentar, pelo menos, uma trinca de ás.

Parou o carro, sairam do carro. Nada de amorzinho. Tudo tinha que ser feito meio às pressas. Tiraram a roupa (fazia frio e ele estava, inclusive, de ceroulas), ele encostou a moça no carro e estavam a começar o serviço quando, lá na entrada da estradinha, entra outro carro, espalhando luz sobre a dupla de amantes clandestinos. Nosso médico se vestiu correndo, tiritando de frio (coito interrompido faz a gente tremer, já perceberam?), a moça idem, entraram no carro, ele fez um a manobra rápida para fugir dali.

Nisso, o carro que ia entrando, ao perceber a manobra do Simca e, percebendo que naquele mato já tinha coelho, deu uma marcha a ré e foi embora, procurar outra biboca para bibocar.

O doutor saiu novamente do carro, tiraram a roupa de novo. Não deve ter conseguido uma trinca de ás, mas deve ter feito um parzinho de sete. Terminado a consulta, vestiram-se novamente e voltaram para a cidade.

O ginecologista ainda teve tempo de passar no clube e fazer algumas rodadas com os amigos e beber umas e outras. Mais outras do que uma, eu diria. Além de mulher, era chegado num Mansion House.

Chegou em casa tarde, a mulher dormia, tomou um belo banho quente, colocou o pijama de lã e foi dormir.

No dia seguinte, bem cedo, a mulher o acorda:

- Onde é que o senhor foi ontem de noite?

- No clube, criatura, como toda quarta-feira.

- E como é que o senhor pode me explicar esta marca de pneus nas suas ceroulas?

Ele não tinha explicação, é claro. Marca de pneu em ceroulas, não tem desculpa. Não há álibi nenhum.

O que aconteceu é que na primeira vez que ele se vestiu, não colocou as ceroulas, fez a manobra com o carro e passou por cima delas.

Deu desquite na invernada do café.

 

PS - Sei que muitos médicos de Lins vão vestir a carapuça. Ou melhor, as ceroulas.