Naquele tempo, diria Jesus, não existiam os motéis.
Naquele tempo que eu digo, é há uns 30 anos. Principalmente no interior. Mais
precisamente em Lins. Pois foi que o fato se deu.
Havia lá um médico muito conhecido na cidade (aliás,
todo mundo era conhecido na cidade) e que está vivo até hoje. E, desde aquele tempo, era
considerado o maior garanhão da cidade. Mas não poderia ir à zona de prostituição,
com a reputação dele (de médico, quero dizer).
Como é que se fazia, então? Pegava-se uma biscate
(meninas que não eram da zona e ficavam zanzando pela cidade, davam por prazer, não
cobravam), ia-se para a estrada de asfalto, pegava-se um atalhozinho de terra, uma
invernada e pronto. Quebrava-se o galho assim, em tempos idos.
Pois numa noite fria o nosso médico-herói assim fez.
Disse para a dileta patroa (uma das dez mais elegantes da cidade) que ia ao poquerzinho do
clube, como toda quarta-feira. Varreu a cidade com seu Simca Chambord amarelo-cheguei,
pegou uma moça e foi para a estrada e foi para o mato tentar, pelo menos, uma trinca de
ás.
Parou o carro, sairam do carro. Nada de amorzinho. Tudo
tinha que ser feito meio às pressas. Tiraram a roupa (fazia frio e ele estava, inclusive,
de ceroulas), ele encostou a moça no carro e estavam a começar o serviço quando, lá na
entrada da estradinha, entra outro carro, espalhando luz sobre a dupla de amantes
clandestinos. Nosso médico se vestiu correndo, tiritando de frio (coito interrompido faz
a gente tremer, já perceberam?), a moça idem, entraram no carro, ele fez um a manobra
rápida para fugir dali.
Nisso, o carro que ia entrando, ao perceber a manobra do
Simca e, percebendo que naquele mato já tinha coelho, deu uma marcha a ré e foi embora,
procurar outra biboca para bibocar.
O doutor saiu novamente do carro, tiraram a roupa de
novo. Não deve ter conseguido uma trinca de ás, mas deve ter feito um parzinho de sete.
Terminado a consulta, vestiram-se novamente e voltaram para a cidade.
O ginecologista ainda teve tempo de passar no clube e
fazer algumas rodadas com os amigos e beber umas e outras. Mais outras do que uma, eu
diria. Além de mulher, era chegado num Mansion House.
Chegou em casa tarde, a mulher dormia, tomou um belo
banho quente, colocou o pijama de lã e foi dormir.
No dia seguinte, bem cedo, a mulher o acorda:
- Onde é que o senhor foi ontem de noite?
- No clube, criatura, como toda quarta-feira.
- E como é que o senhor pode me explicar esta marca de
pneus nas suas ceroulas?
Ele não tinha explicação, é claro. Marca de pneu em
ceroulas, não tem desculpa. Não há álibi nenhum.
O que aconteceu é que na primeira vez que ele se vestiu,
não colocou as ceroulas, fez a manobra com o carro e passou por cima delas.
Deu desquite na invernada do café.
PS - Sei que muitos médicos de Lins vão vestir a
carapuça. Ou melhor, as ceroulas.