Meu caro Edmundo:
Sei que o que você mais odeia é um
jornalista dizer que você é o melhor jogador de futebol do Brasil e depois dizer que
você é isso ou aquilo. Principalmente jornalistas paulistas. E equatorianos. Sou
jornalista, mas mineiro. Talvez assim você me leia.
Sim, Edmundo, vou começar como todos.
Você é o melhor jogador de futebol do Brasil da atualidade. Melhor, muito melhor que o
Romário, por exemplo. Sendo o melhor do Brasil, você é o melhor jogador do mundo. Você
sabe disso. É um prazer ver você em campo, quando você não está, feito uma criança,
de castigo.
Antes de continuar: não sou palmeirense,
mas adoro ver um bom jogador, como você, jogar. Outro dia estava em Rio Preto visitando
um amigo e fomos para o campo ver você. Você marcou um golaço naqueles dois a dois. Foi
um prazer.
Continuando: você é o melhor jogador do
mundo, mas não ganha o melhor salário do mundo. Não ganha nem o melhor salário do
Brasil. Talvez o seu salário (parece que são 20 mil) não esteja nem entre os vinte
maiores do Brasil. Você não faz publicidade porque a imagem não é positiva. Você não
disputou a Copa do Mundo, você não foi vendido para o estrangeiro. Você não vai ser
chamado para a seleção. Você quer a punição e a auto-punição.
Quando você apronta alguma, te dão
castigos. Te deixam de lado, te isolam. É assim que os pais e responsáveis agem com os
filhos traquinas. O clube te multa, a Federação te proíbe de jogar, te dão suspensões
e a imprensa te coloca num canto da sala, ao lado do quadro-verde, com um cone na cabeça,
onde se lê: burro. E você é muito inteligente, Edmundo. Está muito acima de média.
Você sabe disso.
Mas você, como uma criança, vive
levando reprimendas, Edmundo. E acha que a imprensa paulista é culpada. Não adianta
você ir para o Rio. Eles vão brigar com você lá. E você, com eles. Não adianta ir
para o Japão, meu craque preferido. Lá também a imprensa, os clubes e as federações
vão cair como um terremoto em cima de você.
Meu Deus, será que ninguém da imprensa,
dos clubes e das federações percebe que você é um desamparado desequilibrado mental?
Calma, não queira arrebentar a minha cara. Eu sei que a palavra é forte, tomou um certo
sentido pejorativo. Mas não é tão grave assim e tem cura. Se você, meu lúdico e belo
driblador, for olhar no dicionário, tá lá: "psicopatia, estado mental patológico
caracterizado por desvios, sobretudo caracteriológicos, que acarretam comportamentos
anti-sociais".
Isso tem cura, meu querido, como um
simples resfriado. Basta um bom tratamento psiquiátrico. É isso que os dirigentes do
Palmeiras, da Seleção e das Federações não entendem, não enxergam debaixo de suas
cartolas de aço. Tenho certeza que duas sessões e alguns toques por semana no lugar de
um dois-toques, resolveriam o seu problema em pouco tempo. Antes que você brigue com a
imprensa do Rio, depois com a de Minas, depois com a da Paraíba, até acabar num campinho
de várzea chutando latas baratas.
Cuida da cabeça, menino. Peça aos seus
patrões para arrumarem um bom psiquiatra para você. Aí sim, você voltaria à
seleção, ganharia mais de 100 mil por mês, seria reconhecido como o melhor do mundo, a
imprensa ia te adorar e você não ficaria mais preso ridiculamente em banheiros de
hotéis equatorianos. Afinal, Edmundo, o mundo já veio junto com o seu nome: é de mundo!
E o mundo é redondo, como a bola que você mata no peito e mete no véu da noiva.
É isso que você precisa, Edmundo.
Cuidar da cabeça. Você vai cabecear melhor e seus pés não atingirão mais as câmeras
de televisão do mundo todo. Pelo contrário, as câmeras do mundo todo vão mostrar,
muito em breve, como você joga futebol, como você se diverte com essa passageira e
gratificante profissão.
Vai por mim, não é coisa de viado,
não. Tem muito machão por aí chorando em negros divãs. É melhor sentar lá na
poltrona do médico do que num banco de reserva daqui a poucos anos.
Ou deitar eternamente no catre duro e
sujo de um distante presídio, a jogar futebol de salão com outros que nunca se cuidaram,
que apenas levaram castigos e punições de uma encartolada sociedade que nunca os
compreenderam, nunca os ajudaram e, um dia, os esqueceram.