Desculpem a cano. Mas o motivo foi mesmo
de força maior.
Principalmente por ser este colégio onde
meus dois filhos, Antonio e Maria estudaram tantos anos e as recordações são as
melhores. Inclusive sobre o anti-gazeteiro (ainda se usa essa palavra?) Paim. A honra,
para mim, fica adiada.
Quando era da idade de vocês, estudava
no interior e nunca, mas nunca mesmo, um escritor foi fazer palestra para a gente.
Eu já gostava de escrever desde os dez
anos numa velha Remigton no laboratório do meu pai. Confesso que escrevia crônicas
horríveis, geralmente pregando a liberdade e duvidando da existência de Deus. Dali, para
o comunismo foi um pulo. Um pulo por cima do Muro de Berlim que estava sendo
construído.
Estávamos em 61.
Mas na frente da minha casa ficava a
redação de A Gazeta de Lins, vibrante vespertino linense. E eu ficava lá olhando o Kiko
bater no linotipo e aquele chumbo virar letras, palavras, frases, opiniões.
Tinha lá eu uns 14 anos quando resolvi
escrever para o jornal, fazendo coluna social com o intrigante nome de Franco Abbiati.
Pode? Com 16 fui levado para a Última Hora do saudoso e mestre Samuel Wainer.
Meus pais chamavam àquilo que eu
escrevia de bobageiras e me previam um péssimo futuro. Medicina, engenharia, direito ou
Banco do Brasil. E nada de estudar Filosofia ou Letras: coisa de viado.
Enquanto isso eu ia lendo,
desordenadamente. Em Lins não chegavam os grandes clássicos. Tinha o Monteiro Lobato, o
Fernando Sabino (de quem, anos depois, viria a ser um fraternal amigo) E a revista
Manchete trazia, toda semana, para minha felicidade, as crônicas do Fernando, do Henrique
Pongetii, do Rubem Braga (o maior de todos) e do Paulo Mendes Campos. Além do Stanislaw
Ponte Preta, na Última hora, é claro.
Eram meus mestres. Portanto, a minha
formação sempre foi calcada na crônica e no humor. Coisas que eu venho tentando fazer
aqui todas as quartas-feiras.
Pode-se viver de escrever? Eu vivo. Mas
são trinta e seis anos de datilografia e cabeça fundida! Mas tem que se virar. Roteiro
de cinema, peças de teatro, livros, jornalismo. Parece que é muito, mas não é.
Aqui que entra a parte da culpa. Porque
ninguém consegue conviver com um escritor (principalmente as esposas que trabalham fora)
pois a gente passa o dia inteiro pensando besteira para depois colocar no papel. E o pior
é que tem gente que paga pelas nossas loucuras.
Minha psicanalista disse que eu não devo
ter tenho culpa por achar que trabalho só duas horas por dia. Na verdade a cabeça de um
escritor fica ligada 24 horas por dia. Sim, temos também excelentes idéias em forma de
sonho. Mas sempre fica um culpazinha lá no fundo.
Outra perguntas que vocês poderiam estar
me fazendo nesta quarta-feira:
- É difícil escrever?
Vou contar uma história ocorrida com o
escritor americano William Faulker. Estava ele a fazer uma palestra para um grupo de
jovens como vocês, quando uma adolescente fez a mesma pergunta:
- É difícil escrever?
Ele coçou a barba e respondeu:
- Minha filha, ou é facílimo ou é
impossível!
E musa, é verdade que todos os
escritores tem uma musa?, poderiam me perguntar. Eu diria que isso é coisa do passado,
dos velhos poetas do século passado.
Mas Hemingway, já dizia, há mais de
cinqüenta anos, que o "escritor escreve para duas pessoas: para ele mesmo e para a
pessoa que ele ama". E posso garantir que é uma grande verdade. Sempre que eu
termino algum traballho, quero antes de mais nada mostrar para as pessoas que amo: mulher,
filhos, quem estiver mais perto.
Esta crônica por exemplo, escrevi para
mim e para todos vocês aí do Oswald de Andrade (por sinal, cronista de primeira).