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Carta ao "Mario Prata"

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o estado de s. paulo

1999

 


Tudo começou e acabou no dia de Natal, pela manhã. Toca o meu celular, eu ainda na cama, atendo.

 - Por favor, é da casa do escritor Mario Prata?

 - Sim.

 - É a "Isa" (o nome era outro).

 - Que "Isa"?

 - Desculpa, acho que foi engano.

 Algumas horas depois acordo de vez, tomo um banho e no meu telefone normal, estava lá o recado: "por favor, é da casa do escritor Mario Prata? Liga para a 'Isa'."

 Meia hora depois estou chegando num posto de gasolina, toca o celular de novo.

 - Desculpa, é a "Isa".

 Conheço algumas Isas.

 - Oi, "Isa".

 - Você sabe que "Isa", é?

 - Conheço mais de uma.

 - Mas você é o escritor, não é? Tem outro Mario Prata escritor?

 - Que eu saiba, não.

 - Eu sou a "Isa" para quem você ligou ontem a noite.

 - Me desculpa, mas eu não liguei para nenhum "Isa" ontem de noite.

 - Ligou, Mario. Deixou um recado na minha secretária.

 - Eu? E que recado eu deixei?

 - Disse que nunca mais ia me ligar. Por que, eu quero saber.

 - Olha, eu acho que está havendo alguma confusão.

 - Há dois meses você me liga e ontem deixou aquele recado.

 - Olha, desculpa, mas eu não ligo para você há dois meses. Nem nunca liguei.

 - Você não escreve no Estadão toda quarta?

 - Escrevo.

 - Não escreveu "Mas Será o Benedito"? Tem até a sua foto lá.

 - Isso é verdade.

 - Então, a gente já discutiu tantas crônicas suas...

 - Olha, um de nós é doido.

 - Você não freqüenta o Pé Prafora?

 - Freqüento.

 - Então. Um dia você marcou um encontro comigo lá. Cheguei e você tinha acabado de sair.

 Neste momento eu percebi que tem um "Mario Prata" por aí usando o meu nome. Para cantar mulheres. Só isso, ou outras coisas. Começo eu agora a fazer perguntas para a "Isa".

 - Você já se encontrou com esse "Mario Prata"?

 - Não, a gente só se fala por telefone ou conversa pela Internet.

 - E você acha a minha voz parecida com a do "Mario Prata"?

 - Realmente é diferente. Eu não estou entendendo mais nada. Você não é separado?

 - Sou. Quantos filhos eu tenho?

 - Você me disse, quer dizer, o outro "Mario Prata" me disse que você nâo tem filhos.

 - Pois eu tenho dois. O Antonio e a Maria.

 - Você jura que não é o "Mario Prata"?

 - Não, eu sou o Mario Prata. O outro "Mario Prata" é que não é o Mario Prata.

 - Meu Deus, que loucura!

 - Loucura digo eu.

 - Você jura que você não é você?

 - Eu sou eu. Ele é que não é eu. Faça o seguinte, quando ele te ligar de novo, peça o telefone dele e o e-mail. Vou pôr a polícia atrás desse sujeito. 

 - Policia? Atrás de você?

 - Já pensou se ele estiver broxando por aí em meu nome?

 - Como?

 - Nada, não.

 - Você, quer dizer ele, nunca me deu o telefone. Era você que sempre me ligava e marcava a hora para a gente navegar juntos pela Internet. Mas por que será que ele estava fazendo isso?

 Comecei a perceber que agora ela estava acreditando em mim. E eu a ficar preocupado com esse cidadão que sabe até o nome do restaurante onde eu (e não ele) almoçava todos os dias.

 Ela, uma pessoa muito educada e simpática acabou se despedindo de mim. Tchau, tchau, feliz Natal. Com a pulga atrás da orelha. Ela e eu.

 E agora eu estou aqui escrevendo isso e esperando que o "Mario Prata" assuma sua verdadeira identidade. Já falei com os meus dois advogados. Isso é crime. Crime sério. Dá cadeia.

 Pára com isso, "Mario Prata". Ou então escolha alguém melhor que eu. Tente o Veríssimo, o João Ubaldo, o Mateus, o Ignácio. Mas deixe o meu santo nome em paz.

 Não quero jamais ler nos jornais que o "Mario Prata" foi preso. O que pensariam os meus dois filhos que você nunca os teve?

 E que a "Isa" encontre alguém que exista de verdade e seja muito feliz.

 Um bom 97 para todos vocês. Menos para o "Mario Prata".