Tudo começou e acabou no
dia de
Natal,
pela
manhã.
Toca o
meu
celular,
eu
ainda na
cama, atendo.
-
Por
favor, é da
casa do
escritor Mario
Prata?
-
Sim.
- É a "Isa" (o nome era outro).
- Que "Isa"?
- Desculpa, acho que foi engano.
Algumas horas depois acordo de vez, tomo um banho e no
meu telefone normal, estava lá o recado: "por favor, é da casa do
escritor Mario Prata? Liga para a 'Isa'."
Meia hora depois estou chegando num posto de gasolina,
toca o celular de novo.
- Desculpa, é a "Isa".
Conheço algumas Isas.
- Oi, "Isa".
- Você sabe que "Isa", é?
- Conheço mais de uma.
- Mas você é o escritor, não é? Tem outro Mario Prata
escritor?
- Que eu saiba, não.
- Eu sou a "Isa" para quem você ligou ontem a noite.
- Me desculpa, mas eu não liguei para nenhum "Isa" ontem
de noite.
- Ligou, Mario. Deixou um recado na minha secretária.
- Eu? E que recado eu deixei?
- Disse que nunca mais ia me ligar. Por que, eu quero
saber.
- Olha, eu acho que está havendo alguma confusão.
- Há dois meses você me liga e ontem deixou aquele
recado.
- Olha, desculpa, mas eu não ligo para você há dois
meses. Nem nunca liguei.
- Você não escreve no Estadão toda quarta?
- Escrevo.
- Não escreveu "Mas Será o Benedito"? Tem até a sua foto
lá.
- Isso é verdade.
- Então, a gente já discutiu tantas crônicas suas...
- Olha, um de nós é doido.
- Você não freqüenta o Pé Prafora?
- Freqüento.
- Então. Um dia você marcou um encontro comigo lá.
Cheguei e você tinha acabado de sair.
Neste momento eu percebi que tem um "Mario Prata" por aí
usando o meu nome. Para cantar mulheres. Só isso, ou outras coisas.
Começo eu agora a fazer perguntas para a "Isa".
- Você já se encontrou com esse "Mario Prata"?
- Não, a gente só se fala por telefone ou conversa pela
Internet.
- E você acha a minha voz parecida com a do "Mario
Prata"?
- Realmente é diferente. Eu não estou entendendo mais
nada. Você não é separado?
- Sou. Quantos filhos eu tenho?
- Você me disse, quer dizer, o outro "Mario Prata" me
disse que você nâo tem filhos.
- Pois eu tenho dois. O Antonio e a Maria.
- Você jura que não é o "Mario Prata"?
- Não, eu sou o Mario Prata. O outro "Mario Prata" é que
não é o Mario Prata.
- Meu Deus, que loucura!
- Loucura digo eu.
- Você jura que você não é você?
- Eu sou eu. Ele é que não é eu. Faça o seguinte, quando
ele te ligar de novo, peça o telefone dele e o e-mail. Vou pôr a polícia
atrás desse sujeito.
- Policia? Atrás de você?
- Já pensou se ele estiver broxando por aí em meu nome?
- Como?
- Nada, não.
- Você, quer dizer ele, nunca me deu o telefone. Era você
que sempre me ligava e marcava a hora para a gente navegar juntos pela
Internet. Mas por que será que ele estava fazendo isso?
Comecei a perceber que agora ela estava acreditando em
mim. E eu a ficar preocupado com esse cidadão que sabe até o nome do
restaurante onde eu (e não ele) almoçava todos os dias.
Ela, uma pessoa muito educada e simpática acabou se
despedindo de mim. Tchau, tchau, feliz Natal. Com a pulga atrás da
orelha. Ela e eu.
E agora eu estou aqui escrevendo isso e esperando que o
"Mario Prata" assuma sua verdadeira identidade. Já falei com os meus
dois advogados. Isso é crime. Crime sério. Dá cadeia.
Pára com isso, "Mario Prata". Ou então escolha alguém
melhor que eu. Tente o Veríssimo, o João Ubaldo, o Mateus, o Ignácio.
Mas deixe o meu santo nome em paz.
Não quero jamais ler nos jornais que o "Mario Prata" foi
preso. O que pensariam os meus dois filhos que você nunca os teve?
E que a "Isa" encontre alguém que exista de verdade e
seja muito feliz.
Um bom 97 para todos vocês. Menos para o "Mario Prata".