Presidente:
Tenho certeza que se alguém lhe perguntar quem sou
eu, o senhor responderá: o escritor. E, talvez - cutucado pela doce dona
Ruth - até acrescente: pai do Antonio, também escritor.
Pois é, meu querido presidente: o senhor e a dona
Ruth errariam. E eu estou aproveitando aqui o meu espaço no Estadão e os
seus últimos meses aí no comando para te pedir um favor. Um favor de um
brasileiro que o senhor conhece e até já leu uma vez ou outra. Um favor
pessoal, quase íntimo.
O que eu quero, meu presidente, é que antes de o
senhor deixar o governo, me reconheça como escritor. Não apenas eu. O
Verissimo, o Ubaldo, o Loyola, o Mateus, o Jorge Amado, o Machado de
Assis, também estão na mesma situação minha. Como está o meu filho
Antonio. Resumindo, meu caro: não existe a profissão de escritor no
Brasil. Vou repetir: não existe.
Quando declaro meu Imposto de Renda (não existimos,
mas pagamos), tenho de me dizer ou jornalista ou assemelhado. É duro, meu
presidente, depois de 42 anos escrevendo (e vivendo disto) ainda seja
apenas um elemento assemelhado. Não é nem semelhante, é assemelhado mesmo!
Minha profissão não existe, presidente. Não posso me
aposentar... Não tenho um sindicato que me represente. Estou sujeito a
contratos de direitos autorais absurdos que sempre beneficiam os editores
e/ou contratantes. Eles, todos com profissão definida.
Se me permite, senhor presidente, faça alguma coisa
pela cultura neste seu fim de octaedro democrático. Sim, se o senhor olhar
para trás, vai ver que deixará apenas as tais leis de incentivo fiscais
que eu tenho certeza de que não lhe contaram direito como funcionam. Nunca
tanto dinheiro ficou na mão de tão poucos (melhor ainda: poucas) "agentes
culturais". Antes das tais "leis", as peças de teatro tinham oito
apresentações por semana, lembra?
Agora têm três. Mas eu acho que nem o seu ministro da
Cultura vai saber te explicar isso direito. Se quiser mais detalhes,
converse com o embaixador de Portugal. Passei uns dias com ele lá em
Lisboa e expus as minhas preocupações.
Voltando ao nosso problema, dos escritores. Dá um
jeito aí, Fernando. Oficializa a coisa. Nos dê uma profissão, com direito
a uma cidadania digna. Descola aí umas leis de incentivo pra gente (mas
que não caia nas mãos das produtoras).
Não é nem mais por mim, que te peço isso
publicamente. Mas é por uma nova geração de escritores que vem surgindo no
País. Inclusive com o gigantesco apoio da sua esposa.
Não quero que o meu filho ouça a vida toda a
ressalva: "Mas escritor é profissão? Tudo bem, mas, além de escrever,
trabalha com o quê?"
Só para te dar um exemplo de um país onde o escritor
é um profissional reconhecido pelas leis. E amparado por elas. Na
Inglaterra, toda editora a publicar um livro, tem que mandar um exemplar
para cada biblioteca pública do país. Claro que os 40 mil exemplares são
comprados pelo governo. Quem ganha? Em primeiro lugar o público. Ganha a
editora, ganha o escritor. Ganha o País. Ganha a profissão.
O senhor poderá dizer que eu estou chorando de
barriga cheia, que eu vendo bem. Tudo bem, mas se eu não escrever um livro
por ano até o fim da minha vida, talvez eu não possa ajudar o meu filho
que anda lá por Barcelona tentando ser escritor. Ou seja, morro de fome.
E para o Imposto de Renda, serei apenas mais um
assemelhado morto, um CIC a menos. Mas esta crônica, presidente, não vai
morrer, não. Vão-se os dedos, ficam os dígitos.
Quebra essa pra gente, FHC. Mesmo porque você vai
sair aí do Planalto Central e vai passar o resto da sua vida a escrever
uns livros.
E não vai querer que na sua biografia para o século
seguinte alguém leia: "Ex-presidente da República, no fim da vida
tornou-se importante assemelhado."
P.S.: Por fim, senhor presidente, já havia escrito a
crônica acima, já havia visto o senhor elogiando os nossos craques e o
Felipão, logo após a maravilhosa conquista dos nossos jogadores lá na
Ásia. Pois logo depois de ouvir suas palavras, recebo um telefonema da
produção do Fantástico, da Rede Globo. Me diz o rapaz que eles estavam
pedindo para cinco escritores brasileiros uma pequena crônica de 30
segundos para ir ao ar logo mais. Fiquei envaidecido, presidente, de poder
usar 30 segundos do Fantástico para cumprimentar aquela garotada toda. Só
que - acrescentou o rapazinho - não tinha cachê. Se eu não faria o
trabalho só pelo prestígio, senhor presidente. Será que esse rapazinho
sabe quanto o Fantástico cobra por 30 segundos de comercial no domingo à
noite? Será que ele sabe que eu trabalho há 42 anos, diariamente, para
viver de... prestígio?