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CARTA ABERTA AO CAIO FERNANDO

Próxima crônica

o estado de s. paulo

1999

 


Caio querido:

Sua crônica, domingo, aqui neste espaço, não era apenas uma crônica, mais uma domingueira crônica. Era uma carta aberta, declarada e emocionada aos seus amigos de quem você deve ter dado tchauzinho da janela do avião que te levava de volta.

Deixou-nos a todos emocionados e gratificados com as suas lembranças. E, melhor do que isso, reativou outras.

No domingo teve almoço na casa do Tenório e da Annette, amigos recentes e já profundos. Não estavam lá nem o Ruy Fontana Lopes, nem a Maria Emilia Bender, daquele memorável apartamento da rua Alagoas, daqueles intermináveis, etílicos e frontais desabafos. Mas estava o David Arrigucci (casado com uma menininha que eu até evitei olhar), o Zé Milguel Wisnik (com a eternamente linda Laura), o Mateus Shirts com a Silvia e, é claro, o nosso Reinaldo Moraes, com a Martinha, da Companhia das Letras. E a Ana Cristina Cesar, é claro, é sempre falta sentida.

Reinaldinho ainda não havia lido sua crônica. Mostrei para ele. Tomando absinto, debulhou-se em lágrimas em cima de um fumegante vatapá. Teu texto rolou de mão em mão, de coração em coração. Principalmente de coração em coração. Só faltaram os morangos (não mofados) de sobremesa. Pena que eu não te vi. Desta vez.

E imagina que chego em casa, tinha um telefonema da minha mãe, lá de Uberaba, comentando, igualmente emocionada, o seu texto. Você mexeu até com ela.

A última vez que te vi foi saindo de um flat na Frei Caneca, com sua elegância quixotesca. Não podia deixar de me lembrar que passamos bem uns seis meses -eu, você e a Lu Villares - trancafiados no flat do Eldorado tentando bolar uma história para o Wilker que estava na Manchete. Nem poderia me esquecer de você tomando chá com torradinhas na casa do mestre Antonio Cândido.

Estou escrevendo esta carta porque o Reinaldo disse que você pediu para a gente escrever para você. Talvez com esta minha carta, surjam outras, de leitores, para você ler deliciando-se nos jardins dos seus dias aí em Porto Alegre.

Estou completamente lento, depois de um Frontal e uma cervejinha na casa do Rei. Ele perguntou: o que você vai escrever para ele? Não sei, disse. E continuo sem saber. Para falar a verdade, estava sem nenhuma idéia sobre a crônica de hoje, até ver o Reinaldo chafurdar-se em lágrimas no delirante vatapá da grande baiana Leninha.

Mas estava para te escrever desde que soube que o "Meu Nome é Enéas" está te processando. Não li o que você escreveu sobre ele, mas deve ser o que todo mundo pensa. Então ele deveria processar o Brasil inteiro. Ou o Brasil é que deveria processá-lo?

Outro dia, numa das minhas intermináveis mudanças, achei o texto que escrevemos, junto com a Lu Villares, para a Manchete. Rosaura, a Enjeitada. Acho que era esse o nome, não era? Indicação do Antonio Cândido entre uma bolachinha e outra da dona Gilda. Me lembro que fazia de tudo para extrair um pouco de humor de você. Era difícil. Pois queria lhe dizer, agora, Caio, que as suas crônicas atuais estão recheadas de humor. De bom humor. Isso é comovente. Quem sabe um dia a gente ainda não escreva uma comediazinha de costumes bem da sem-vergonha?

Tenho um tio padre que outro dia me disse que ele podia até não acreditar na existência de Deus mas, de uma coisa, ele tinha certeza: existe Anjo da Guarda! E você tem o seu Anjo da Guarda particular que te segura aí e mais uma porção deles aqui em São Paulo. Podes crer, Caio, que todos nós somos os teus Anjos da Guarda.

Vocês nos comoveu com a sua crônica. Continue fazendo isso. Não se deve esquecer os Anjos da Guarda, mesmo que você esteja nos vendo através da janela de um avião a caminho do Céu.

Um beijo, querido.                                 

Mario Prata