Caio querido:
Sua crônica, domingo, aqui neste espaço, não era
apenas uma crônica, mais uma domingueira crônica. Era uma carta aberta, declarada e
emocionada aos seus amigos de quem você deve ter dado tchauzinho da janela do avião que
te levava de volta.
Deixou-nos a todos emocionados e gratificados com as suas
lembranças. E, melhor do que isso, reativou outras.
No domingo teve almoço na casa do Tenório e da Annette,
amigos recentes e já profundos. Não estavam lá nem o Ruy Fontana Lopes, nem a Maria
Emilia Bender, daquele memorável apartamento da rua Alagoas, daqueles intermináveis,
etílicos e frontais desabafos. Mas estava o David Arrigucci (casado com uma menininha que
eu até evitei olhar), o Zé Milguel Wisnik (com a eternamente linda Laura), o Mateus
Shirts com a Silvia e, é claro, o nosso Reinaldo
Moraes, com a Martinha, da Companhia das Letras. E a Ana
Cristina Cesar, é claro, é sempre falta sentida.
Reinaldinho ainda não havia lido sua crônica. Mostrei
para ele. Tomando absinto, debulhou-se em lágrimas em cima de um fumegante vatapá. Teu
texto rolou de mão em mão, de coração em coração. Principalmente de coração em
coração. Só faltaram os morangos (não mofados) de sobremesa. Pena que eu não te vi.
Desta vez.
E imagina que chego em casa, tinha um telefonema da minha
mãe, lá de Uberaba, comentando, igualmente emocionada, o seu texto. Você mexeu até com
ela.
A última vez que te vi foi saindo de um flat na Frei
Caneca, com sua elegância quixotesca. Não podia deixar de me lembrar que passamos bem
uns seis meses -eu, você e a Lu Villares - trancafiados no flat do Eldorado tentando
bolar uma história para o Wilker que estava na Manchete. Nem poderia me esquecer de você
tomando chá com torradinhas na casa do mestre Antonio Cândido.
Estou escrevendo esta carta porque o Reinaldo disse que
você pediu para a gente escrever para você. Talvez com esta minha carta, surjam outras,
de leitores, para você ler deliciando-se nos jardins dos seus dias aí em Porto Alegre.
Estou completamente lento, depois de um Frontal e uma
cervejinha na casa do Rei. Ele perguntou: o que você vai escrever para ele? Não sei,
disse. E continuo sem saber. Para falar a verdade, estava sem nenhuma idéia sobre a
crônica de hoje, até ver o Reinaldo chafurdar-se em lágrimas no delirante vatapá da
grande baiana Leninha.
Mas estava para te escrever desde que soube que o
"Meu Nome é Enéas" está te processando. Não li o que você escreveu sobre
ele, mas deve ser o que todo mundo pensa. Então ele deveria processar o Brasil inteiro.
Ou o Brasil é que deveria processá-lo?
Outro dia, numa das minhas intermináveis mudanças,
achei o texto que escrevemos, junto com a Lu Villares, para a Manchete. Rosaura, a
Enjeitada. Acho que era esse o nome, não era? Indicação do Antonio Cândido entre uma
bolachinha e outra da dona Gilda. Me lembro que fazia de tudo para extrair um pouco de
humor de você. Era difícil. Pois queria lhe dizer, agora, Caio, que as suas crônicas
atuais estão recheadas de humor. De bom humor. Isso é comovente. Quem sabe um dia a
gente ainda não escreva uma comediazinha de costumes bem da sem-vergonha?
Tenho um tio padre que outro dia me disse que ele podia
até não acreditar na existência de Deus mas, de uma coisa, ele tinha certeza: existe
Anjo da Guarda! E você tem o seu Anjo da Guarda particular que te segura aí e mais uma
porção deles aqui em São Paulo. Podes crer, Caio, que todos nós somos os teus Anjos da
Guarda.
Vocês nos comoveu com a sua crônica. Continue fazendo
isso. Não se deve esquecer os Anjos da Guarda, mesmo que você esteja nos vendo através
da janela de um avião a caminho do Céu.
Um beijo, querido.
Mario Prata