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Cansado de guerra

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o estado de s. paulo

09/04/2003

 


Segundo estatísticas inglesas, no momento, passou para baixo de 50% os anglos favoráveis àquela sacanagem que anda rolando pra lá de Bagdá e mais pra lá ainda de Marrakesh. Fora as gordas neuróticas americanas, ninguém agüenta mais aquela mentirada toda.

Pois saiba você, leitor amigo, que cá eu também tenho as minhas pesquisas.

Minhas, particulares. Dos e-mails recebidos durante a semana, exatamente a metade me pede que continue falando da guerra. Não a nossa guerrinha civil do Rio de Janeiro. Não a dos dólares mandados para a Suíça, não a da cara-de-pau do Saddam, perdão, do Antonio Carlos Magalhães, não a guerra dos jovens brasileiros que estão matando pais, mães e avós. E pais matando filhos. Não, nada disso. O meu público - pelo menos metade - quer que eu fale da guerra de Bagdá, lá entre o Tigre e o Eufrates, lá por onde Jesus andou há alguns poucos anos. Aliás, mataram-no.

É fantástico, o show da morte. A televisão brasileira se preparou há meses para o evento. Dizem que se a guerra não saísse, algumas emissoras iriam perder muitos petrodólares. Sim, já estavam assinados os contratos com grandes multinacionais para transmitirem a guerra ao vivo e, infelizmente, em cores. Ainda bem que a guerra saiu e a gente pôde ver locutores passeando em cima dos mapas das regiões atingidas, como se caminhassem pela própria horta, mostrando os legumes prestes a serem recolhidos.

E as cenas de simulação dos atentados, que maravilha! Aquilo diverte. Aquilo nos faz até mesmo esquecer que se trata de uma guerra de verdade. Nota 10!

E não é que eu já cheguei até aqui e tudo que eu queria dizer é que a metade dos meus leitores que queria que eu escrevesse sobre a guerra, iria perder a minha preferência. Não quero falar daquela guerra. Aquela guerra não é a minha nem a nossa, já escrevi aqui na semana passada.

Mas o que falar hoje? Uma quarta-feira absolutamente normal, um dia 9 de abril que só é importante para quem nasceu hoje e eu não sei se é o seu caso.

Portanto, chega!, não vou falar da guerra.

Mas eis que me chega um e-mail genial do sempre presente (em tempos de guerra e paz) Reinaldo Moraes. Transcrevo um pedaço:

"Como tá frio e garoando, e o Rubinho perdeu a corrida por falta de gasolina (situação curiosa, num carro com a Shell de co-patrocinadora), desisti da minha elucubração matinal e decidi te enviar uma sugestão de crônica que se me aflorou na cabeça ociosa.

Seguinte: você já pensou no que vai acontecer com o pequeno exército de sósias do Saddam Hussein quando a guerra acabar? Eles voltarão às suas vidas normais, suponho. Um voltará a ser sapateiro. O outro açougueiro. Outro lá, despachante. Ou técnico de bocha, calista, tintureiro, garçom. Bem, a julgar pela recepção eufórica que um desses Saddans teve nas ruas de Bagdá, quando saiu pra dar uma voltinha promocional, na sexta-feira passada, é de se imaginar que os sósias todos ficarão no mínimo ricos em tempos de paz.

Que iraquiano não vai querer levar seu pisante pro Saddam botar uma meia-sola? Qual dona de casa não vai querer comprar sua alcatra, seu patinho, sua lingüiça no açougue do Saddam - que, aliás, tantas vezes foi acusado pelo Bush de ser justamente um açougueiro? Quem não quererá ter seu terno lavado a seco, seu carro lacrado, seu calo raspado, seu IPVA regularizado, seu chope trazido à mesa - pelo grande pai da nação mesopotâmica? É a oportunidade de ouro para os sósias de Saddam no mundo todo. Até japonês de barrigão, bigode e chapéu vai tentar a sorte em Bagdá.

E não faltarão Saddanas oportunistas, de espingardão na mão, dando as caras por lá pra faturar.

Enfim, dileto amigo, acho que o seu famoso estro, imenso engenho e refinada arte poderiam desentranhar desse tema uma crônica, talvez não a melhor da sua carreira, but... De quebra, você aproveita para lançar a idéia de um serviço de sósias dedicado a arranjar um duplo perfeito para seus clientes, de modo que eles possam passar as tardes de domingo mandando um churrasco com cerveja e piadas sujas com os amigos, ou morgando de pijama diante do futebol na tevê, enquanto o sósia leva as crianças e a patroa ao teatrinho infantil das 4 da tarde..."