"Pedaço, fragmento de rocha dura", é o que nos ensina o mestre Houaiss.
Mas tem outro significado, ainda segundo o mesmo dicionarista: "Notícia,
artigo etc. utilizado para preencher espaço criado pela falta de material
editorial ou por falha no cálculo da diagramação." E é, também, uma
belíssima praia, lá no Maranhão.
Pois na sexta-feira passada, exatamente às 13 horas e 30 minutos, dia de
semana e horário de trabalho para milhões e milhões de brasileiros, um
deles, um senador, conversava com um governador, ali, da varanda da sua
casa de praia, talvez bebendo um suco de mangaba ou uma caipirinha de
gravatá, quando o fato se deu.
Distante pouco quilômetros deles, além do mar e da brisa maranhenses, 22
ou mais brasileiros, que trabalhavam duro, explodiram em uma base de
lançamento de foguetes. Ao ver o cogumelo de Alcântara, o senador deve ter
gritado:
- Marly, Marly, traga a câmera digital! Anda, criatura!
No dia seguinte a foto da dona Marly, sob um ponto de vista privilegiado,
estava nos principais jornais do País. Principalmente no matutino do
senador. Sim, além de pedir a foto, ligou para sua redação e ordenou
mandarem um repórter lá para ver que fumaceiro era aquele. O resto você
sabe.
Antes de continuar, quero deixar claro meu apreço ao senador Sarney,
presidente do Senado Nacional. Não posso me esquecer jamais (nem você) que
foi ele, enquanto presidente do Brasil, quem terminou de vez com a Censura
em nosso Brasil depois de anos e anos de ditadura. Basta isto para ter o
meu respeito e minha gratidão. Além de ser um bom escritor, o acadêmico. E
não era apenas o nosso presidente do Senado que tricotava naquele dia
útil. Todo o Senado Nacional e toda a Câmara dos Deputados bebericava em
algum ponto do País.
Depois fui lendo nos jornais as possíveis causas do triste acidente. Falta
de verba! O orçamento para este ano deveria ser de 100 milhões de reais,
mas eles receberam apenas 35. Isto significa mais ou menos o seguinte: se
eles precisavam de uma peça de 100 reais, digamos, tiveram de se contentar
com uma ultrapassada de 35. Palavras do presidente da Agência Espacial
Brasileira, Luiz Bevilacqua: "Nos últimos 15 anos, se tivéssemos mais
investimentos em equipamentos, seria possível ter sucesso neste lançamento
e nos dois anteriores", que também foram para o espaço. Ou seja, o
governo, o Senado e a Câmara dos Deputados ou levam a sério o investimento
ou parem de matar 22 ou mais capacitados técnicos formados pelo ITA.
O Brasil deve ser o único país do mundo onde os nossos representantes
(pagos com o suor das 22 ou mais vítimas, mais o seu e o meu) só trabalham
terça, quarta e quinta. E todo mundo acha isso normal, faz parte do nosso
cotidiano. Sexta, sábado, domingo e segunda, assistem ao Brasil explodir.
E implodir! E ainda fotografam.
Quando é que este país vai ter um presidente da República macho para
acabar com esta pouca vergonha?
Me desculpe o desabafo, mas tem hora que eu tenho uma certa vergonha de
ser brasileiro. Mas não é todo dia, não. Só segunda e sexta.
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