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CALHAU

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o estado de S. Paulo

27/08/2003

 


"Pedaço, fragmento de rocha dura", é o que nos ensina o mestre Houaiss. Mas tem outro significado, ainda segundo o mesmo dicionarista: "Notícia, artigo etc. utilizado para preencher espaço criado pela falta de material editorial ou por falha no cálculo da diagramação." E é, também, uma belíssima praia, lá no Maranhão.

Pois na sexta-feira passada, exatamente às 13 horas e 30 minutos, dia de semana e horário de trabalho para milhões e milhões de brasileiros, um deles, um senador, conversava com um governador, ali, da varanda da sua casa de praia, talvez bebendo um suco de mangaba ou uma caipirinha de gravatá, quando o fato se deu.

Distante pouco quilômetros deles, além do mar e da brisa maranhenses, 22 ou mais brasileiros, que trabalhavam duro, explodiram em uma base de lançamento de foguetes. Ao ver o cogumelo de Alcântara, o senador deve ter gritado:

- Marly, Marly, traga a câmera digital! Anda, criatura!

No dia seguinte a foto da dona Marly, sob um ponto de vista privilegiado, estava nos principais jornais do País. Principalmente no matutino do senador. Sim, além de pedir a foto, ligou para sua redação e ordenou mandarem um repórter lá para ver que fumaceiro era aquele. O resto você sabe.

Antes de continuar, quero deixar claro meu apreço ao senador Sarney, presidente do Senado Nacional. Não posso me esquecer jamais (nem você) que foi ele, enquanto presidente do Brasil, quem terminou de vez com a Censura em nosso Brasil depois de anos e anos de ditadura. Basta isto para ter o meu respeito e minha gratidão. Além de ser um bom escritor, o acadêmico. E não era apenas o nosso presidente do Senado que tricotava naquele dia útil. Todo o Senado Nacional e toda a Câmara dos Deputados bebericava em algum ponto do País.

Depois fui lendo nos jornais as possíveis causas do triste acidente. Falta de verba! O orçamento para este ano deveria ser de 100 milhões de reais, mas eles receberam apenas 35. Isto significa mais ou menos o seguinte: se eles precisavam de uma peça de 100 reais, digamos, tiveram de se contentar com uma ultrapassada de 35. Palavras do presidente da Agência Espacial Brasileira, Luiz Bevilacqua: "Nos últimos 15 anos, se tivéssemos mais investimentos em equipamentos, seria possível ter sucesso neste lançamento e nos dois anteriores", que também foram para o espaço. Ou seja, o governo, o Senado e a Câmara dos Deputados ou levam a sério o investimento ou parem de matar 22 ou mais capacitados técnicos formados pelo ITA.

O Brasil deve ser o único país do mundo onde os nossos representantes (pagos com o suor das 22 ou mais vítimas, mais o seu e o meu) só trabalham terça, quarta e quinta. E todo mundo acha isso normal, faz parte do nosso cotidiano. Sexta, sábado, domingo e segunda, assistem ao Brasil explodir. E implodir! E ainda fotografam.

Quando é que este país vai ter um presidente da República macho para acabar com esta pouca vergonha?

Me desculpe o desabafo, mas tem hora que eu tenho uma certa vergonha de ser brasileiro. Mas não é todo dia, não. Só segunda e sexta.