- Não se pode confiar numa mulher que tem binóculo em
casa!
Talvez esta tenha sido uma das últimas frases que eu
ouvi dele. Mas, se você preferir, outra:
- Depois dos 50, o que o homem precisa é de um
psicanalista e um advogado.
Estávamos todos lá. No enterro do nosso amigo.
A gente se via pouco nos últimos anos, mas ele era
eterno para todos nós. Éramos uma turma, lá no interior. Turma que existiu
mesmo entre 55 e 66. Da turma, ali, no velório da Santa Casa, tinha uns
dez do nosso tempo. E ele, Mindinho. Para os mais jovens, seu Mindinho.
Ali, estendido, careca-careca, no caixão. O Mindinho,
de todos os que estavam ali, foi aquele - toda turma tem - que não deu
certo. Viveu de bicos. Teve as mais estranhas e pirotécnicas profissões.
Inteligentíssimo, mas não deu certo. Aquela sinistra mão direita. Ou seria
outro o motivo para aquela vida desastrada?
O Mindinho era mulato. Mais para o claro, mas mulato.
Mas nunca alisou o cabelo. E casou com uma mulata. Honesto.
Lurdinha, a Perereca, como a chamávamos, sua primeira
e única esposa, havia morrido há pouco tempo. Nenhum parente dela no
velório. Mindinho e Perereca se casaram e se separaram umas dez vezes. Foi
a vida de casal mais atribulada, agoniada, maconhada, bebida, apertada e
triste que eu já tinha conhecido ou mesmo lido na literatura russa ou
francesa do século passado. Era o que nós pensávamos da vida dele. Até que
uma frase me faria mudar completamente de opinião a respeito:
- Ele deixou esta caixa de sapatos pra você.
Eu só não desconfiava quem era aquele adolescente
cheio de espinhas com a caixa de sapatos na mão esquerda, embrulhada com
papel marrom, igualzinho ao que as mães da gente encapava os cadernos do
primário.
Era para ser Oscar, o nome dele. Mas o escrivão fez
um O tão cheio de rococós, que virou um E. Escar. Com acento no ár. Escár!
Ele gostava mais de Mindinho.
O problema dele - o grande problema dele - era na mão
direita. Ele não tinha o dedo mindinho. E o mais estranho é que não havia
também o lugar onde deveria ter o dedo mindinho. Eram só os outros dedos.
De nascença. E, desde que eu conheci o Mindinho, ele já era Mindinho. Vim
a saber do seu nome Escar só no primeiro ano do primário, quando a doce
dona Gessy, lendo a chamada, chamou: Escar!
E ele falou presente! E todo mundo olhou e disse
(berrou, na verdade):
- Escááááár???
E, o que ninguém sabia, agora, pai.
Inesquecível Mindinho! Pois eu me lembrava - ali, ao
lado dele morto - das melhores histórias do Mindinho, desde a infância. E
das frases. Adorava frases. Uma vez, de madrugada, de porre, olhando para
a igreja matriz, de smoking do baile de debutante, exclamou alto para quem
estivesse atravessando a concreta praça ouvir:
- O que seria hoje de Olavo Bilac, se vivo fora e se
encontrasse com os irmãos Campos?
E mais: já naquela época, anos 60, ele dizia, em alto
e bom som, que tinha tido outras vidas, noutras épocas. E, sempre - ele
frisava isso - sem o mindinho na mão direita. Dizia que tinha sido
crioulo, escravo, por aí. Tudo sem o mindinho. Foi quase de tudo na vida,
mas sempre sem aquele mindinho.
O Mindinho é desses caras que tiveram várias fases na
vida. Uma época - e nem estava ainda na moda - ele foi evangélico. Citava
a Bíblia o dia todo. Enchendo a cara com a gente, mas citava. Teve uma
fase em que foi acusado de um crime bárbaro. Isso são pequenos momentos na
vida dele que eu estou lembrando agora, aqui, olhando para a sua cara
branca.
Ele está com as mãos cruzadas no peito, como convém.
No lugar do mindinho, alguém de bom coração, colocou um cravo, como
convinha. Branco, como ele gostava de usar com o primeiro terno, em 1960,
aos 14 anos. O oportuno cravo na lapela.
Prometo não me lembrar da parte do seminário,
Mindinho. Fica frio.
Foi o único filho dele (Oscar, também sem o mindinho)
quem me deu a caixa de sapatos.
Antes, preciso falar desse garoto. Nunca ninguém
soube que o Mindinho tinha um filho. Assim que cheguei ao velório me
chamou, dizendo que tinha me visto num programa de televisão. Usava uma
luva na mão direita. Tirou e eu fiquei estupefato. Ele não tinha o
mindinho.
- Ninguém sabe, mas sou filho dele.
- Não tenho nenhuma dúvida, eu disse, me lembrando
das espinhas do Mindinho na adolescência.
- Ninguém sabia, continuou, mas foi um grande pai.
Ele fez questão. Pediu para o senhor publicar. Se quiser, né? Se achar que
vale a pena. Ele falou várias vezes:
- Se ele achar que vale a pena.
Publicar? O bastardo filho, uns 16 anos, orgulhoso:
- Você sabia que ele escrevia?
Nunca poderia imaginar que o Mindinho escrevesse. Me
lembro que era bom nas redações do padre Pedro Cometti, no Salesiano. Mas
era mais de poemas que ele gostava. Talvez tenha me deixado uns poemas
bilaquianos, de sua lavra. Que eu sabia, ele tinha sido gerente de banco,
guia de cego em Orlândia (juro!), dono de loja de sapatos (femininos),
auxiliar de protético, motorista de van, garçom, locutor de rádio, chefe
de gabinete de vereador e até (nunca ficou provado) professor de
esperanto.
Depois do enterro voltei para São Paulo. E só então
fui ver as coisinhas que o amigo havia me deixado. Fiquei pasmado.
Ele fazia projetos para teatro, cinema e televisão. E
mais: havia recortes e mais recortes de histórias sobre o dedo mindinho.
Meu amigo de infância, na surdina, se tornara, durante seus 55 anos de
vida, um especialista em mindinhos. Sabia tudo. Ou, pelo menos, quase
tudo.
Dentro da caixa de sapatos, cuidadosamente
organizados por temas e em envelopes lacrados, textos. Textos e mais
textos. E, para cada texto, uma introdução dele.
E, entre um recorte e outro sobre todo o trabalho de
anos, ele vai narrando, mesmo que alternadamente, sua vidinha doentia com
a já mencionada Lurdinha. Que, aliás, não é mãe do filho dele.
E, por gostar de quase tudo que eu escrevo, é que o
seu Mindinho me legou sua - digamos - obra.
E, além de tudo, mostra-se um autêntico internauta,
nos últimos cinco anos, deixando textos de alguns sites quase
inacreditáveis, impressos. Ele andava, no final da vida, sem ter mesmo o
que fazer, vivendo completamente sozinho e isolado, fazendo mesmo um
estudo, um quase tratado sobre o dedo mindinho. Trocava e-mail com
anônimos e famosos, sobre o dedinho.
Um estudo surpreendente. E muitíssimo bem organizado,
já disse. Pedaços de jornais dentro de envelopes de cartas. Textos de
livros, copiados. Para mim, que achava que o Mindinho era um deu-pra-nada,
a surpresa com o estudo sobre o auricular dedo me contagiou e muito.
E, em tudo que ele me deixou, a presença do dedo
mindinho.
Acrescentei uma ou outra coisinha que eu me lembrava
dele.
Tudo mentira, ele diria, lendo isto aqui.
- O Mario Prata só escreve mentira! Tudo
passarinho!!!
* * *
PS.: E, por falar em mentira, Umberto Eco, na
contracapa do seu último livro, Baudolino, diz o seguinte:
"Se queres transformar-te num homem de letras, e quem
sabe um dia escrever histórias, deves também mentir, e inventar histórias,
pois senão a tua história ficaria monótona.
Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena
os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e
premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas."
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* * *
(Texto de abertura do meu novo livro, Buscando o
Mindinho, a sair em março, pela Editora Objetiva)