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Buscando o mindinho

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o estado de s. paulo

12/12/2001

 


- Não se pode confiar numa mulher que tem binóculo em casa!

Talvez esta tenha sido uma das últimas frases que eu ouvi dele. Mas, se você preferir, outra:

- Depois dos 50, o que o homem precisa é de um psicanalista e um advogado.

Estávamos todos lá. No enterro do nosso amigo.

A gente se via pouco nos últimos anos, mas ele era eterno para todos nós. Éramos uma turma, lá no interior. Turma que existiu mesmo entre 55 e 66. Da turma, ali, no velório da Santa Casa, tinha uns dez do nosso tempo. E ele, Mindinho. Para os mais jovens, seu Mindinho.

Ali, estendido, careca-careca, no caixão. O Mindinho, de todos os que estavam ali, foi aquele - toda turma tem - que não deu certo. Viveu de bicos. Teve as mais estranhas e pirotécnicas profissões. Inteligentíssimo, mas não deu certo. Aquela sinistra mão direita. Ou seria outro o motivo para aquela vida desastrada?

O Mindinho era mulato. Mais para o claro, mas mulato. Mas nunca alisou o cabelo. E casou com uma mulata. Honesto.

Lurdinha, a Perereca, como a chamávamos, sua primeira e única esposa, havia morrido há pouco tempo. Nenhum parente dela no velório. Mindinho e Perereca se casaram e se separaram umas dez vezes. Foi a vida de casal mais atribulada, agoniada, maconhada, bebida, apertada e triste que eu já tinha conhecido ou mesmo lido na literatura russa ou francesa do século passado. Era o que nós pensávamos da vida dele. Até que uma frase me faria mudar completamente de opinião a respeito:

- Ele deixou esta caixa de sapatos pra você.

Eu só não desconfiava quem era aquele adolescente cheio de espinhas com a caixa de sapatos na mão esquerda, embrulhada com papel marrom, igualzinho ao que as mães da gente encapava os cadernos do primário.

Era para ser Oscar, o nome dele. Mas o escrivão fez um O tão cheio de rococós, que virou um E. Escar. Com acento no ár. Escár! Ele gostava mais de Mindinho.

O problema dele - o grande problema dele - era na mão direita. Ele não tinha o dedo mindinho. E o mais estranho é que não havia também o lugar onde deveria ter o dedo mindinho. Eram só os outros dedos. De nascença. E, desde que eu conheci o Mindinho, ele já era Mindinho. Vim a saber do seu nome Escar só no primeiro ano do primário, quando a doce dona Gessy, lendo a chamada, chamou: Escar!

E ele falou presente! E todo mundo olhou e disse (berrou, na verdade):

- Escááááár???

E, o que ninguém sabia, agora, pai.

Inesquecível Mindinho! Pois eu me lembrava - ali, ao lado dele morto - das melhores histórias do Mindinho, desde a infância. E das frases. Adorava frases. Uma vez, de madrugada, de porre, olhando para a igreja matriz, de smoking do baile de debutante, exclamou alto para quem estivesse atravessando a concreta praça ouvir:

- O que seria hoje de Olavo Bilac, se vivo fora e se encontrasse com os irmãos Campos?

E mais: já naquela época, anos 60, ele dizia, em alto e bom som, que tinha tido outras vidas, noutras épocas. E, sempre - ele frisava isso - sem o mindinho na mão direita. Dizia que tinha sido crioulo, escravo, por aí. Tudo sem o mindinho. Foi quase de tudo na vida, mas sempre sem aquele mindinho.

O Mindinho é desses caras que tiveram várias fases na vida. Uma época - e nem estava ainda na moda - ele foi evangélico. Citava a Bíblia o dia todo. Enchendo a cara com a gente, mas citava. Teve uma fase em que foi acusado de um crime bárbaro. Isso são pequenos momentos na vida dele que eu estou lembrando agora, aqui, olhando para a sua cara branca.

Ele está com as mãos cruzadas no peito, como convém. No lugar do mindinho, alguém de bom coração, colocou um cravo, como convinha. Branco, como ele gostava de usar com o primeiro terno, em 1960, aos 14 anos. O oportuno cravo na lapela.

Prometo não me lembrar da parte do seminário, Mindinho. Fica frio.

Foi o único filho dele (Oscar, também sem o mindinho) quem me deu a caixa de sapatos.

Antes, preciso falar desse garoto. Nunca ninguém soube que o Mindinho tinha um filho. Assim que cheguei ao velório me chamou, dizendo que tinha me visto num programa de televisão. Usava uma luva na mão direita. Tirou e eu fiquei estupefato. Ele não tinha o mindinho.

- Ninguém sabe, mas sou filho dele.

- Não tenho nenhuma dúvida, eu disse, me lembrando das espinhas do Mindinho na adolescência.

- Ninguém sabia, continuou, mas foi um grande pai. Ele fez questão. Pediu para o senhor publicar. Se quiser, né? Se achar que vale a pena. Ele falou várias vezes:

- Se ele achar que vale a pena.

Publicar? O bastardo filho, uns 16 anos, orgulhoso:

- Você sabia que ele escrevia?

Nunca poderia imaginar que o Mindinho escrevesse. Me lembro que era bom nas redações do padre Pedro Cometti, no Salesiano. Mas era mais de poemas que ele gostava. Talvez tenha me deixado uns poemas bilaquianos, de sua lavra. Que eu sabia, ele tinha sido gerente de banco, guia de cego em Orlândia (juro!), dono de loja de sapatos (femininos), auxiliar de protético, motorista de van, garçom, locutor de rádio, chefe de gabinete de vereador e até (nunca ficou provado) professor de esperanto.

Depois do enterro voltei para São Paulo. E só então fui ver as coisinhas que o amigo havia me deixado. Fiquei pasmado.

Ele fazia projetos para teatro, cinema e televisão. E mais: havia recortes e mais recortes de histórias sobre o dedo mindinho. Meu amigo de infância, na surdina, se tornara, durante seus 55 anos de vida, um especialista em mindinhos. Sabia tudo. Ou, pelo menos, quase tudo.

Dentro da caixa de sapatos, cuidadosamente organizados por temas e em envelopes lacrados, textos. Textos e mais textos. E, para cada texto, uma introdução dele.

E, entre um recorte e outro sobre todo o trabalho de anos, ele vai narrando, mesmo que alternadamente, sua vidinha doentia com a já mencionada Lurdinha. Que, aliás, não é mãe do filho dele.

E, por gostar de quase tudo que eu escrevo, é que o seu Mindinho me legou sua - digamos - obra.

E, além de tudo, mostra-se um autêntico internauta, nos últimos cinco anos, deixando textos de alguns sites quase inacreditáveis, impressos. Ele andava, no final da vida, sem ter mesmo o que fazer, vivendo completamente sozinho e isolado, fazendo mesmo um estudo, um quase tratado sobre o dedo mindinho. Trocava e-mail com anônimos e famosos, sobre o dedinho.

Um estudo surpreendente. E muitíssimo bem organizado, já disse. Pedaços de jornais dentro de envelopes de cartas. Textos de livros, copiados. Para mim, que achava que o Mindinho era um deu-pra-nada, a surpresa com o estudo sobre o auricular dedo me contagiou e muito.

E, em tudo que ele me deixou, a presença do dedo mindinho.

Acrescentei uma ou outra coisinha que eu me lembrava dele.

Tudo mentira, ele diria, lendo isto aqui.

- O Mario Prata só escreve mentira! Tudo passarinho!!!

* * *

PS.: E, por falar em mentira, Umberto Eco, na contracapa do seu último livro, Baudolino, diz o seguinte:

"Se queres transformar-te num homem de letras, e quem sabe um dia escrever histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua história ficaria monótona.

Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas."

* * *

(Texto de abertura do meu novo livro, Buscando o Mindinho, a sair em março, pela Editora Objetiva)