Há poucos dias, lendo um conto do Honoré de Balzac, senti um alívio
muito grande quando o autor de A Mulher de Trinta Anos cita outro
francês, o Laurence Stener (que viveu no século 18): “Um homem que não
tem um brinquedo ignora todo o partido que se pode tirar da vida. Um
brinquedo é o meio exato entre a paixão e a loucura”.
Achava - até então - que os
meus brinquedos, os meus “campeonatinhos” eram uma coisa meio insana
de minha parte. Apesar de ter amigos que também criam seus
brinquedos e seus campeonatinhos (Chico Buarque, para citar apenas
um, brinca o dia inteiro), me achava meio infantil. Outro dia, lá no
apartamento do Fernando Morais, em Paris, fui explicar para ele um
campeonato de futebol que inventei a partir do jogo de paciência do
computador. Jogo este que já me consumiu mais de cinco cadernos de
200 páginas. No meio da explicação o Fernando (que às vezes brinca
de ser político) me olhou muito sério e perguntou: “Você não contou
isso para ninguém, né?”, educadamente me chamando de louco. E nem
quis ouvir a minha ludicidade até o fim.
Faço campeonatinhos com a
quilometragem do meu carro. Um dia, consegui completar 44.444
quilômetros às quatro horas e quatro minutos, a quarenta e quatro
quilômetros por hora. Luciana, minha esposa na época, fotógrafa
profissional, fotografou o painel. Loucura? Sei agora que há 250 anos
atrás um francês, o Stener (que influenciou e muito o Eça e o Machado,
além do próprio Balzac) já me defendia.
Me lembro que, quando adolescente
– eu e o Sergio, hoje alto diretor do porto de Santos –, íamos aos
jogos de basquete lá em Lins e nossa diversão não era assistir ao
jogo. A gente escolhia um jogador qualquer e ficava só olhando para
ele o jogo inteiro, independente do que estava acontecendo na quadra.
Gargalhávamos. Era um brinquedo interessante e completamente inútil.
Como, aliás, qualquer jogo de basquete americano.
Tudo bem, o brinquedo dá o
equilíbrio entre a paixão e a loucura, descubro agora e relaxo. Mas
veja: meus brinquedos não interferem na vida de ninguém. Brinco
sozinho ou com meus amigos mais doidos. Ou amigas. Converso com os
meus botões. Mas tem gente grande por aí brincando, que interfere na
vida do mundo todo. É o caso do presidente dos Estados Unidos, aquele
país que se leva a sério. Só que a brincadeira do Bush está mais para
a loucura do que pela paixão. Ou melhor, está para a paixão e
idolatria que ele tem pelo pai dele, o velho Bush. O velho Bush foi
quem comandou a Guerra do Golfo há doze anos, lembra.
Pois outro dia o Bush – o W -
disse um negócio que me deixou muito impressionado e foi muito pouco
divulgado pela imprensa. Disse – literalmente – o seguinte: “Este cara
quis matar o papai”. Não foi nem “meu pai” que ele resmungou. Foi
“papai”. Dad. Tá brincando? Está. Só que cada vez que ele diz que vai
“pegar o Sadhan na saída”, despencam as bolsas do mundo inteiro, o
dólar sobe aqui no Brasil e a gente não está aqui para brincadeiras de
gringos.
É bom brincar com a gente mesmo.
Todos nós temos os nossos brinquedos, apesar de já estarmos com uma
certa idade. Todos nós temos os nossos joguinhos. Todo nós brincamos
até de amar. Mas não mexemos na bolsa de ninguém e nem na
instabilidade da nossa moeda.
E tem gente que brinca de
depositar dinheiro nosso na Suissa e fica por isso mesmo. Silveirinhas
brincando com o nosso dinheirinho impunemente.
Têm certos brinquedos – aqui no
nosso Brasil – que deveriam ser rigorosamente proibidos e punidos. Mas
parece que as nossas autoridades também estão brincando de poder. Foi
um francês também que disse que o Brasil não é um país sério.
Felizmente, mon ami. Mas existem
brinquedos e brinquedos. Paixões e paixões. Loucuras e loucuras.
Tudo que eu queria era brincar em
paz. Minha loucura é inofensiva. Por isso que eu gosto de dividi-la
com você, tão louco ou louca quanto eu. Pensando bem, nunca ninguém
tentou matar o meu pai. Não sei como reagiria. Mas tenho certeza que
não iria dividir a minha bronca com o mundo inteiro. Talvez apenas com
você, que brinca comigo toda quarta-feira.
|