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Brinquedos

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o estado de s. paulo

29/01/2003

 


Há poucos dias, lendo um conto do Honoré de Balzac, senti um alívio muito grande quando o autor de A Mulher de Trinta Anos cita outro francês, o Laurence Stener (que viveu no século 18): “Um homem que não tem um brinquedo ignora todo o partido que se pode tirar da vida. Um brinquedo é o meio exato entre a paixão e a loucura”.

Achava - até então - que os meus brinquedos, os meus “campeonatinhos” eram uma coisa meio insana de minha parte. Apesar de ter amigos que também criam seus brinquedos e seus campeonatinhos (Chico Buarque, para citar apenas um, brinca o dia inteiro), me achava meio infantil. Outro dia, lá no apartamento do Fernando Morais, em Paris, fui explicar para ele um campeonato de futebol que inventei a partir do jogo de paciência do computador. Jogo este que já me consumiu mais de cinco cadernos de 200 páginas. No meio da explicação o Fernando (que às vezes brinca de ser político) me olhou muito sério e perguntou: “Você não contou isso para ninguém, né?”, educadamente me chamando de louco. E nem quis ouvir a minha ludicidade até o fim.

Faço campeonatinhos com a quilometragem do meu carro. Um dia, consegui completar 44.444 quilômetros às quatro horas e quatro minutos, a quarenta e quatro quilômetros por hora. Luciana, minha esposa na época, fotógrafa profissional, fotografou o painel. Loucura? Sei agora que há 250 anos atrás um francês, o Stener (que influenciou e muito o Eça e o Machado, além do próprio Balzac) já me defendia.

Me lembro que, quando adolescente – eu e o Sergio, hoje alto diretor do porto de Santos –, íamos aos jogos de basquete lá em Lins e nossa diversão não era assistir ao jogo. A gente escolhia um jogador qualquer e ficava só olhando para ele o jogo inteiro, independente do que estava acontecendo na quadra. Gargalhávamos. Era um brinquedo interessante e completamente inútil. Como, aliás, qualquer jogo de basquete americano.

Tudo bem, o brinquedo dá o equilíbrio entre a paixão e a loucura, descubro agora e relaxo. Mas veja: meus brinquedos não interferem na vida de ninguém. Brinco sozinho ou com meus amigos mais doidos. Ou amigas. Converso com os meus botões. Mas tem gente grande por aí brincando, que interfere na vida do mundo todo. É o caso do presidente dos Estados Unidos, aquele país que se leva a sério. Só que a brincadeira do Bush está mais para a loucura do que pela paixão. Ou melhor, está para a paixão e idolatria que ele tem pelo pai dele, o velho Bush. O velho Bush foi quem comandou a Guerra do Golfo há doze anos, lembra.

Pois outro dia o Bush – o W - disse um negócio que me deixou muito impressionado e foi muito pouco divulgado pela imprensa. Disse – literalmente – o seguinte: “Este cara quis matar o papai”. Não foi nem “meu pai” que ele resmungou. Foi “papai”. Dad. Tá brincando? Está. Só que cada vez que ele diz que vai “pegar o Sadhan na saída”, despencam as bolsas do mundo inteiro, o dólar sobe aqui no Brasil e a gente não está aqui para brincadeiras de gringos.

É bom brincar com a gente mesmo. Todos nós temos os nossos brinquedos, apesar de já estarmos com uma certa idade. Todos nós temos os nossos joguinhos. Todo nós brincamos até de amar. Mas não mexemos na bolsa de ninguém e nem na instabilidade da nossa moeda.

E tem gente que brinca de depositar dinheiro nosso na Suissa e fica por isso mesmo. Silveirinhas brincando com o nosso dinheirinho impunemente.

Têm certos brinquedos – aqui no nosso Brasil – que deveriam ser rigorosamente proibidos e punidos. Mas parece que as nossas autoridades também estão brincando de poder. Foi um francês também que disse que o Brasil não é um país sério. Felizmente, mon ami. Mas existem brinquedos e brinquedos. Paixões e paixões. Loucuras e loucuras.

Tudo que eu queria era brincar em paz. Minha loucura é inofensiva. Por isso que eu gosto de dividi-la com você, tão louco ou louca quanto eu.  Pensando bem, nunca ninguém tentou matar o meu pai. Não sei como reagiria. Mas tenho certeza que não iria dividir a minha bronca com o mundo inteiro. Talvez apenas com você, que brinca comigo toda quarta-feira.