- Esse ano é da Maclaren.
Você já parou para pensar nesta
profunda e rápida frase? Já teve ano da Willians, lembra? Benetton...
Menos de dez anos atrás, o que valia era
o piloto. Esse ano vai dar Prost. Piquet vai ser tri? O Emerson conseguiu até ganhar uma
corrida com o Coperçucar. Acerela, Airton! Bons tempos! Tiraram o que ainda havia de
humano da Fórmula 1. Me diz aí o (estou pedindo apenas um) bom piloto hoje da categoria.
Aquele alemão baixinho? É, já não se fazem mais pilotos como antigamente. Tem razão
quem diz que automobilismo não é esporte. Pode até ter sido. Mas não é mais, não.
No último final de semana só deu
corrida. A Maclaren já ganhou os quatro primeiros lugares em duas corridas. E ninguém
segura a máquina. A própria televisão já está mais preocupada em ficar um buraco mais
embaixo: quem vai ser o terceiro?
Mas a Indy (que nem se chama mais Indy)
é que é mais engraçada. Além das máquinas quase falarem, o piloto é comandado de
fora. Colocam uns alto-falantes na orelha do cara e acontece de tudo. O Helio Castro Neves
(piloto brasileiro sem "n" no final do nome, sei não: Emerson, Wilson, Airton,
Cristian, Nelson) estava fazendo uma curva complidadíssima na última corrida e um cara
enchendo o saco dele, gritando no ouvido:
- Vira o botão da mistura de
combustível para a posição B, porra! - O cara fazendo a curva, o outro gritando. - Já
disse, porra, vira essa merda para a posição B! Você tem que economizar metanol.
O Helio, disse depois, errou na curva, é
claro.
Já pensou?
Como se isso não bastasse, toda a
imprensa, sei lá como, fica sabendo o que os donos das equipes estão conversando com os
teleguiados pilotos. Vira uma fofoca geral, a corrida:
- Está dizendo para o Zanardi que o
Moore está atrás dele.
- Estão pedindo para o Hernandez fazer a
troca do pneu, já!
A coisa está dum jeito que eu acho que
todo mundo tem acesso à conversa de todo mundo. Já vi, inclusive, uma vez, o Cristian
dando entrevista enquanto corria. O cara lá fazendo uma curva a trezentos por hora e o
repórter querendo saber o que ele estava pensando naquele momento. E, o pior, é que o
Cristian respondia.
Não vai demorar muito e uma equipe vai
conseguir entrar na onda de rádio de outra e azarar o adversário dando falsas notícias,
ou mesmo colocando um discurso do Maluf na reta de largada. E a zona vai virar circo mesmo
quando um piloto estiver correndo e ouvir:
- Seu Roberto Pupo Morteno, aqui é do
Citibank e caiu um cheque sem fundo do senhor. Dá para depositar até segunda-feira?
E a esposa perguntando se ele vem para o
jantar ou vai ficar correndo até mais tarde? Já pensou um piloto discutindo com a esposa
a relação naquela velocidade?
Tá rindo? É sério. Definitivamente, o
piloto das corridas de hoje em dia é descartável, como o plástico do seu visor. Pra que
piloto? Corremos a passos (e acelerações) rápidos para chegarmos finalmente ao Autorama
da Estrela. Aliás um bom nome para a velha Indy: Autorama das Estrelas. Ficam os donos
das escuderias no box com o controle remoto na mão. Tenho certeza que Paul Newman pode
não ganhar nenhum corrida, mas que as câmeras vão ficar em cima dele, isso você não
duvide.
Eu não tenho nenhuma dúvida de que,
daqui a uns dez anos, piloto tá desempregado.
Mas, vamos mais longe. Já pensou se o
Zagallo um dia ler jornal e descobrir isso? E pedir um egoista para cada jogador e ficar
ele - o egoista-chefe - sentadinho lá no banco, dando informações aos seus comandados e
teleguiados craques? Já pensou o Roberto Carlos caindo para a ponta, o Ronaldinho
entrando na área e o Zagallo para o Roberto Carlos:
- Não está vendo o número um vindo lá
de trás? Atrasa para ele! Atrasa para ele, porra! Não, não centra, idiota! Olha aí,
gol... Não disse para recuar, cara? O que é, está querendo me derrubar?
É, parece que agora é definitivo: vamos
ter que agüentar o penta Zagallo na nossa orelha até o terceiro jogo da primeira fase...