MONTEVIDEO
- A Copa América não é a Copa do Mundo!
Me
disse Roberto Benevides, editor de esportes aqui do Estadão, lá na festa do
Tetra, em Los Angeles.
Não
entendi muito bem o que ele queria dizer quando lhe propus que viéssemos para
a cobertura de mais esta Copa. Por que? Na Europa, o campeonato europeu de
seleções, realizado a cada dois anos, tem tanta rivalidade quanto um
campeonato do mundo. Durante um ano acontecem as eliminatórias. No ano
seguinte, as oito equipes classificadas disputam, num único país (no ano que
vem, na Inglaterra), o título máximo europeu.
Agora,
aqui em Montevideo, com mais de 800 correspondentes de toda parte do mundo
(inclusive europeus), como me informa o jornalista uruguaio apaixonado pelo
Brasil, Rubén Castillo, começo
a entender o que o Benevides quis me dizer, já meio de pilequinho, naquela
churrascaria americana, há exato um ano, diante de um Ricardo Teixero
completamente embriagado.
Quando
parti para a Califórnia, uns dez dias antes de começar a Copa do Mundo
(aquela que o Brasil não ganhou; foram os outros que a perderam), já no avião
dezenas, centenas de torcedores com suas camisas amarelas e suas cornetas
pentelhas, davam o tom da festa. Agora, no vôo para cá, nada. Executivos com
suas pastinhas misteriosas. E ainda tinha lugares vagos. Isso há dois dias da
competição. Desta vez a dona Stella Barros e a Tia Augusta não fizeram
pacotes (ou paquetes, como se diz por acá).
Começo
a pensar que o Brasil (e os brasileiros), não levam essa competição a sério.
Começo a pensar, não: tenho certeza. O Brasil não faz parte da América
Latina, eis a verdade. O Brasil não leva a sério a América Latina.
Talvez
essa crônica devesse ser escrita pelo meu amigo brasilianista e corinthiano
Matthew Shirts, mas ele está, de novo, na Califórnia. Ou por um Roberto da
Matta. Vou tentar explicar.
Tanto
Zagalo quanto os cartolas da CBF já disseram que a Copa América não é a
prioridade da Seleção. Eles estão preocupados é com uma competição
amadora chamada Olimpíada de Atlanta, que nunca falou muito ao coração do
Brasileiro. Zagalo nem trouxe os melhores do Brasil. Romário e Bebeato
fizeram cudoce. Palmeiras, Corinthias, São Paulo, Santos, Portuguesa e
Guarani concordaram em ceder apenas um jogador. Muita gente boa ficou no
Brasil. Nem os jogadores, nem os torcedores, estão muito preocupados com esta
Copa América, já disputada (se não me engano) vinte e oito vezes. O Brasil
só ganhou quatro. Aliás, as quatro disputadas no Brasil, em 1919, 22, 49 e
89 (quarenta anos depois). Uruguai e Argentina já faturaram nove vezes, cada
um. Me lembro que uma vez a CBF mandou o time do Palmeiras para representar o
Brasil. Noutra vez, o Atlético Mineiro.Latinos vexames. Desprezo e menosprezo
pelos nossos irmãos sulamaricanos. Irmãos, cara pálida?
Veja
o caso, por exemplo, da Libertadores da América. O Brasil nunca está
disposto a ganhar este campeonato. O que quer, apenas, é vencer para ser o
trampolim para o Projeto Tókyo. Um time qualquer ganha o campeonato do estado
e logo o presidente diz que agora "começamos o Projeto Tokyio". Só
por isso disputam a Libertadores. Para chegar no Japão. O Japão, para o
Brasil, vale mais que Buenos Ayres ou Montevidéo. É por isso, que na
Libertadores, a Argentina já venceu 16 vezes e o Uruguai 8 (com apenas dois
Times, o Nacinal e o Penarol).
A
Libertadores já foi disputada 35 vezes. Times brasileiros ganharam apenas 7
vezes. Uma em cada cinco. Santos e São
Paulo duas vezes, Grêmio, Flamengo e Cruzeiro. Excetuando o Cruzeiro que
perdeu o título mundial em 75, jogando contra o Bayern de Munique sobre uma
camada de gelo, todos os outros seis foram campeões do Mundo. Santos em 62 e
62, Flamengo em 81, Grêmio em 83, São Paulo em 92 e 93. Aqui sim, eles levam
a sério.
Acho
que o buraco, Benevides, é mais embaixo. Não saberia explicar como Shirts ou
da Matta, este distanciamento que o Brasil tem da América Latina. O Brasil (e
os brasileiros, em geral) não gosta da América Latina. O Brasil não se
considera América Latina. O brasileiro se acha superior aos latinos
americanos. Nunca houve uma integração social e econômica. Agora tentam o
Mercosul. Não sei se é a diferença de línguas ou de raças. Mas o Brasil
vive de costas viradas para eles.
Parece
ter vergonha de ser campeão no meio desses índios todos. Mas tenho certeza
que, se houvesse um jogo, em Toronto, por exemplo, entre o Campeão da América
e o Campeão da Europa, os brasileiros iriam levar muito mais a sério.
Romario viria jogar, os times dispensariam seus melhores jogadores. Afinal a
vitrina estaria aberta ao mundo e não apenas aos cucarachos.
O
dia que o Brasil entender a América Latina seremos todos mais felizes. No
esporte, no plano econômico e até mesmo, porque não dizer, no plano
amoroso. As uruguaias, são lindas, minha gente. Educadas. E mais, adoram os
brasileiros.E, ao contrário das francesas e inglesas tomam banho todo dia.