Não,
não ganhou da França. Ganhou a França.
O
torcedor brasileiro fez a sua parte. Com choro e vela na final, como não
convinha, mas foi brilhante. A guilhotina não decapitou nenhum de nós,
torcedores e entoados canarinhos.
A
copa acabou e ninguém na imprensa aqui no Brasil falou de nós, torcedores
que estávamos lá. Como se a gente não importasse. Como se 22.000 pessoas não
existiram, não torceram, não sofreram, não choraram. Para cada jogador,
havia mil pessoas, mil brasileiros, lá. Ao vivo e de todas as cores. Muitos
deles economizaram durante quatro anos, outros venderam o carro. Mas nenhum
vendeu a alma por um par de tênis ou um leite azedo.
Nenhum
de nós teve convulsão na hora H. E em nenhuma outra hora, a hora Z de
Zagallo ou hora L de Lídio. Não era necessário nenhum eletro nem tomografia
para sentir a batucada do coração-torcedor brasileiro. Eles estavam lá,
lavando a alma. Infelizmente, depois, os culpados passaram um ferro quente em
cima dela.
O
torcedor brasileiro ganhou a guerra. Ninguém foi preso. ninguém traiu, ninguém
deserdou.
Me
lembro da primeira partida fora de Paris. Destino, Nantes. Na Estação do
Norte (não lembra nem um pouco a do Brás) centenas de policiais e cachorros
policiais. Sabe aqueles camuflados, com metralhadora e tudo? Tava cheio, lá.
Naquele momento, sete mil brasileiros barulhentos, de cara pintada embarcavam
num trem bala amarelo rumo aos marroquinos de Nantes. Sete mil! Homens,
mulheres, jovens, velhos, crianças, estudantes, políticos, empresários,
bancários. Todos amarelaram no melhor dos bons sentidos. Minha filha Maria,
que achava que ia chorar na hora do hino nacional, começou ali mesmo na Gare
Nord. Já chorei três vezes, pai. Isso, antes de embarcar.
Parecia
coisa de doido. Aquilo não ia dar certo. Pensavam os franceses e eu. Afinal,
holingans ingleses, holandeses e escoceses andavam, ao pé da letra,
barbarizando. Média de cinqüenta presos por dia. Bêbados caídos pelas cal
çadas,
mendigos escoceses (pode ser mais chique, de saia e tudo?) pedindo pedaço de
fromage em restaurantes.
Sete
mil gritando, tocando aquelas cornetas horrorosas. Isso não vai dar certo.
Nego vai perder o trem. Deu certo. Para espanto de toda a parafernália
policial e dos transeuntes franceses. Eles ficavam abismados no início.
Depois iam entrando no ritmo, uns tentando o passo da batucada, outros pedindo
para tirar fotos. Nenhum deles, que estavam ali na estação, vai se esquecer,
jamais!, de nós. Começaram a sorrir pra nós. Francês sorrindo? Pois é.
Sentiram que ali tinha Gente. Ali tinha um povo, uma raça, mistura de tantas
que foi dar na gente. Curvaram-se para nos cumprimentar e abrir alas, aqueles
pierrôs e aquelas colombinas brancas.
Me
lembro também da última saída, quase um mês depois da primeira. Para
Marselha, contra os holandeses. Se tinha algum policial na Estação do Norte
eram os do dia-a-dia. Os franceses sabiam que ali era gente boa. O mesmo em
Marselha. Ninguém na estação, ninguém no metrô. Os brasileiros desfilavam
a nossa bandeira pelas ruas francesas. Senhoras saiam à janela e aplaudiam o
Brasil. Cumprimentavam aquele bando de loucos mansos, de apaixonados baianos,
cariocas, paulistas, amazonenses e tinha até uns do Tocantins.
Diziam
que os franceses eram carrancudos, mal humorados e coisa e tal. Ai de quem não
falar francês! Ledo engano. Nos trataram como se nós (e não os jogadores)
fossemos os tetracampeões do mundo. E logo perceberam que de penta a gente não
tinha nada.
Até
chofer de táxi puxava conversa. Todos queriam a final entre a França e nós,
os torcedores. Não porque somos os melhores torcedores do mundo, não para
dizer que ganharam do melhor. Mas simplesmente porque eles queriam dividir a
festa deles conosco, os torcedores. Ganhando ou perdendo, eles queriam o estádio
azul e amarelo.
Merci
beaucoup, francesada amiga e campeã do mundo. Aliás, beau coup parece
significar boa copa. Mas, literalmente, quer dizer bom golpe.
E
au revoir me lembra uma revoada. Uma revoada de canarinhos. Não aqueles 22
dentro do campo que nunca chegaram a voar como nós, mil vezes mais Brasil.
Não
tenha dúvida, mon ami, nós, torcedores, ganhamos a França. Três a zero? Não.
Très bien.