Véspera do Dias dos Pais. Morrem dois
pais brasileiros. Um, no Rio, o Betinho. O Betinho que surgiu como "a volta do irmão
do Henfil", voltou, deu a volta por cima. Nos noticiários sobre seu velório,
lembraram do Henfil, como irmão dele.
Não conheci Betinho pessoalmente. Mas
não precisava. Ele entrava na casa da gente todo dia, pelos jornais e pela televisão. A
gente sabia que ele ia partir a qualquer momento. Então prestava mais atenção nele.
Acreditava na luta travada. Pela vida dele e, principalmente, pela vida de tantos betinhos
espalhados pelo Brasil. Conheci bem o irmão, Henfil. Do traço fino, do sorriso irônico
e do coração do tamanho de um bonde, como se dizia naquele tempo. No tempo em que ele
ainda se chamava Henriquinho, filho da dona Maria. Foi ele quem me levou para o Pasquim em
72.
Disse lá em cima que no Dia dos Pais
morreram dois brasileiros. Claro que morreram muito mais. Mas dois que me marcaram. Do
Betinho, não preciso dizer mais nada além daquelas sábias palavras que o bailarino e
equilibrista Aldic Blanc escreveu aqui na segunda feira.
Mas o outro brasileiro... Sete e meia da
manhã de sábado o telefone toca assustado. Do lado de lá a Claudia, em Lins:
- Seu amigo Heyde morreu.
Claudia é a filha do meu amigo Heyde.
Morreu às sete horas. Não consegui nem dizer "meus pêsames, Claudinha. Um beijo na
sua mãe". Nada. Estado de choque. Acendo um cigarro. Penso no Heyde. A nicotina o
matou. Apago o cigarro, choro. Ligo para o meu pai em Uberaba. Ele chora.
O doutor Heyde era bem mais velho do que
eu. Amigo e colega de profissão do meu pai. Baiano bom falador, contador de histórias.
Quando chegou em Lins nos anos 50, eu ainda garoto, ganhei o apelido dele de Santos
Dumont, porque repartia o cabelo como o velho cientista.
Até hoje ele me chamava de Santos
Dumont. Escritor bissexto, deve ter deixado hilárias histórias sobre a sua Bahia que
tanto amava e cantava.
O Heyde não poderia subir aos céus em
melhor companhia que a do Betinho a quem já deve estar divertindo com seu sotaque
agreste.
Eu sei, meu caro leitor, que você não
tem nada a ver com os meus amigos que partem, nem com os que chegam. Mas me desculpe, eu
não poderia deixar de falar do doutor Heyde.
Era médico do coração. Literalmente.
Era médico do meu coração e de tantos outros lá de Lins.
Não sei se você se lembra mas, há uns
dois anos, escrevi aqui uma crônica chamada "A Morte Anunciada do Doutor
Heyde", depois de um boato sobre a morte dele. Foi a primeira vez que meu coração
doeu. Mas desta vez era verdade.
Eu só estou escrevendo isto tudo por um
único motivo: o doutor Heyde era uma pessoa boa. Sabe gente boa? Pai, marido, avô,
amigo. Seria uma espécie de Betinho de Lins. Isso, acho que é isso que está me fazendo
juntar o doutor Heyde com o doutor Herbert de Sousa. Dois santos.
Aliás, o doutor Heyde fazia um
trocadilho com o nome dele Heyde C. Santos: hei de ser santo. Já é, querido.
Agora, Heyde, se me permite, vou tomar um
uisquinho e fumar um cigarrinho em sua homenagem.
Como fizemos na última vez que estivemos
juntos na varanda da sua casa, no dia seguinte do casamento da Claudinha.
Depois você me acompanhou até o carro.
Eu ia voltar para São Paulo.
- Cuidado e vá com Deus, Santos Dumont.
Fique com Deus, Heyde C. Santos.
Ou, como disse Frei Betto sobre o
Betinho:
- A Deus, Heyde!