Condenado
em pleno tropicalismo, em agosto de 67, a 351 anos, 9 meses e 3 dias (por que
esses 3 dias?) a prisão, Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha,
aos 54 anos de idade, vai deixar a prisão hoje, sábado, depois de cumprir
exatos 30 anos no Carandiru.
Mas
este Acácio, que rendeu um belíssimo filme ao Rogério Sganzerla no final
dos 60, não é o verdadeiro Bandido da Luz Vermelha. Este é cópia de um
outro, o verdadeiro, um americano. Na época se dizia que o que era bom para
os Estados Unidos era bom também para o Brasil. Tempos da ditadura militar
americanizada.
Eu
explico.
No
final dos anos cinqüenta, surgiu, nos Estados Unidos, um sujeito chamado Caryl
Chesmann, jovem, bonito, charmoso, que aprontava barbaridades, sempre usando
uma lanterna vermelha em seus assaltos, estupros e assassinatos. Logo a
imprensa americana, escandalizada, lhe deu a alcunha de O Bandido da Luz
Vermelha.
Depois
de uma grande caça, foi preso, julgado e condenado à cadeira elétrica. Na
prisão, dispensou advogado e estudou Direito passando ele mesmo a se defender
nos tribunais. Os americanos e o mundo acharam aquilo o máximo. Ele sempre
conseguia adiar a pena de morte. E cada vez mais o mundo inteiro seguia seus
julgamentos como uma espécie de OJ Simpson branco.
E
mais fez o Caryl. Começou a escrever livros, contando a sua infância podre,
seus crimes, suas amantes. O Corredor da Morte foi o que fez mais sucesso. Na
época vendia mais que o Paulo Coelho hoje. Aqueles livros cariam como uma
luva para os produtores de Hollywood. Seus filmes corriam o mundo. Tornara-se
um ídolo americano e de todos nós adolescentes da época, que o confundíamos
com o James Dean. A juventude transviada estava no auge e precisava de seus
heróis.
Em
1961, depois de adiar estupidamente várias vezes sua morte, finalmente
caminhou pelo corredor da morte em San Quentin e, apesar de milhões de cartas
do mundo todo, foi executado. Dizem que até João XXIII pediu clemência.
Morto
aquele, surgiu o nosso Acácio. Mesmo jeitão, boa pinta (loiro), 24 anos. Diz
a lenda que as mulheres por ele estupradas pediam a sua volta.
O
Brasil era uma efervescência cultural na época. O tropicalismo no auge, Zé
Celso no seu auge, Glauber ditando regras, Flavio Cavalcanti quebrando discos.
Com tanto louco na praça, o Acácio foi benvindo. Todo mundo torcia para que
o Bandido da Luz Vermelha não fosse capturado. Mas foi.
Em
1993 fiz uma visita ao Carandiru para obter material para a minha minissérie James
Lins, o Playboy que não deu certo, junto com o jornalista Renato
Lombardi. Ele me aponta um sujeito desdentado, dizendo palavras da Bíblia.
-
Olha lá o Bandido da Luz Vermelha.
Levei
um choque cultural. Ainda tinha na minha cabeça o Luz (como é chamado na
prisão) dos anos 60. Dizem que pirou e não queria sair da prisão, pois não
saberia mais viver aqui fora.
Pois
é, no momento que você está lendo esta crônica, o homem já está na rua.
Ponha-se no lugar dele. Fique 30 anos trancado numa penitenciária (sem nunca
sair) depois saia e encare São Paulo. E o Brasil.
Imagine
o choque, o susto. Nenhum Gordini na rua, o Comodoro fechado, aqueles prédios
todos lindos da Paulista, milhares de crianças pedindo esmola. Será que ele
vai entender o escândalo dos frangos da dona Sylvia? E o Claudio, Luizinho,
Baltazar, Rafael e Simão? Não jogam mais? O Jânio já morreu? Lula? Pelé
ministro? Não tem mais gonorréia? Beatles? E o Austregésilo, ainda vive?
Hamburguer? Fecharam a Salada Paulista? Minhocão?
Vai
ser difícil para o nosso Bandido da Luz Vermelha se acostumar e entrar na
Internet com seus 54 anos.
Sei
não, acho que ele vai voltar a usar a sua velha lanterna vermelha de novo,
cometer alguma coisa braba para voltar para a sua casa lá no Carandiru.
Para
ele, com certeza, tem mais vida lá dentro do que aqui fora.
Te
cuida, Luz.