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o estado de s. paulo

04/07/2001

 


Imagine você que, na quinta-feira (da semana passada), eu recebo um e-mail da Glorinha do Estadão, me dizendo para mandar o assunto da próxima semana (hoje) na sexta, que agora ia ter ("além da carinha") uma ilustração.

Pensei logo em mandar dizer que o tema era "não era nada disso" para ver como o ilustrador iria se virar. Estou escrevendo isto sem saber quem é o ilustrador.

Estou dizendo isso tudo porque a moça me pegou de repente. Meu dia de pensar neste espaço aqui é sábado e domingo. Na quinta é muito antes e a idéia vai murchando.

Foi agora que eu olhei para fora e vi o pôr-do-sol. Roxo (a ilustração tem cores?), foi a primeira coisa que pensei. Porque este roxo aqui vai ser difícil.

Mas eu não queria falar sobre o meu fim de semana olhando para o mar. Por isso é que o título é "não era nada disso".

Mas não dá para não falar. Eu estava me segurando, numa boa. Mas me pedem a coisa assim em cima da hora e eu fui olhar pela janela.

É para você ficar roxo de inveja. Antes, passei num boteco chamado Box 32, num lugar chamado Mercado. Sim, porque nos outros lugares existem super e hipermercados. Mercado, como o de hoje onde eu tomei um vinho com a Luciana e o Joaquim, não tem mais. E, se os velhos botecos de antigamente tivessem evoluído no rumo certo, seriam todos como o 32 e os outros todos que têm no tal do Mercado.

A rodovia que me trás de lá para a minha casa, não tem nenhum buraco e nenhuma (o que é pior!) ondinha. E olha

De vez em quando, fazem aquela pergunta pra gente: se você não fosse o que é, gostaria de ser o quê?

A pergunta parece simples. O problema é que nem sempre sabemos realmente quem somos. Para isso existem todos estes psicanalistas de plantão nas nossas cabeças. Mas, pressupondo que querem saber da profissão, o que eu gostaria de ser se não fosse jornalista e escritor? E eu tenho a resposta, que é verdadeira. Gostaria de ser arquiteto.

Em primeiro lugar porque adoro letra de arquiteto. De arquiteta então, nem se fala. Letras de forma maravilhosas. Já notou? Exatamente o contrário dos médicos e dos escritores. Letra de escritor é um desastre. Aquela corrida eu não tenho há muitos anos. E a de forma - que só uso na hora do cheque - já tem me valido telefonemas da minha gerente bancária.

Mas não é só a letra. Os arquitetos são todos bonitos. Têm um certo talho no vestir. E as arquitetas, duvido que você me apresente uma feia. São todas deliciosas.

No bar Balcão, reúnem-se muitos jornalistas e muitos arquitetos e arquitetas. Adoro conversar com eles e olhar para elas. Elas cortam os cabelos como quem projeta uma varanda para o pôr-do-sol. Sublinham os seios como quem eleva uma fonte no jardim. Falam manso, rabiscam guardanapos.

Sorriem curvas e andam num compasso perfeito. Bundinhas arquitetônicas.

Fachadas que deleitam.

Pois domingo estava eu lá no boteco a conversar com um dos nossos jovens e grandes arquitetos. O Marcelo. Pra começar, Marcelo já é nome de arquiteto.

Falávamos dos banheiros. Da arquitetura dos banheiros.

E ele me disse uma coisa curiosa. Sobre a colocação dos ladrilhos - ou azulejos, como exigem os portugueses - em tal aposento. Havia uma dúvida se se começava a ladrilhar de baixo pra cima ou de cima pra baixo. Numa das extremidades iriam ficar azulejos pela metade. E resolveram que a parede do banheiro deve ser começada por baixo. E por uma razão muito simples. Quando você está lá a resolver seus problemas, é para o chão que fica olhando. Ou você faz xixi olhando para o teto?

Bem, dos azulejos partimos para outras observações. Aquele chuveirinho, por exemplo, que inventaram para fazer as vezes do bidê e fica ao lado da latrina (que palavra feia!) Eu me nego. Nunca, nem coloquei a mão naquilo.

Em primeiro lugar, porque eu não sei se a gente deve enfiar aquilo dentro do vaso sanitário (vaso!) pela frente ou por trás. Gordo, por exemplo, não vai conseguir nem de lado. Fora que deve espirrar água até na cara da gente.

Fora a roupa. Bidê é bidê e não se fala mais nisso, chegamos à conclusão.

Mesmo assim, o bidê requer certos malabarismos e aprendizado. É preciso alguns anos (epa!) de uso para sair dali sequinho. Um movimento em falso e podemos levar um jato nas costas. Ou no teto de ladrilho pela metade.

Mas não existe nada pior num banheiro do que aquele estilo europeu onde não tem chuveiro. Tem só o chuveirinho. Acho que quem inventou aquilo nunca tomou um banho de verdade. Deve ser coisa de francês. Na Europa eu nunca sei como usar aquilo. Você tem que segurar o troço com uma mão e ensaboar com a outra. Aquilo acaba ensaboado, escapa da sua mão e fica igual bexiga esvaziando, rodando dentro do box, te dando porrada e molhando até a toalha que está lá fora. Aquilo é o fim da picada e do banho. Está provado que é por causa dele que os europeus não são muito chegados numa sabesp.

E essas privadas (tidas como) modernas, em que a caixa de água é logo ali perto da tampa e a tampa não pára em pé? Para você, menina, tudo bem. Tu encostas lá e faz. Mas pra gente, exige um malabarismo que nem sempre temos tempo quando estamos apertados.

Enfim, ao invés de facilitarem os nossos serviços, estão a complicar cada vez mais. É quando você, lá dentro, olha para cima e exclama: ó céus!, e nota que os ladrilhos lá de cima estão pela metade.

Dá descarga e sai. Exausto e enxaguado! E nada aliviado.

Participaram desta crônica o Marcelo, a Luciana, a Mônica e uma arquiteta de cabelos curtinhos que estava de costas para mim e não foi ao banheiro nenhuma vez.