Não vou entrar aqui no mérito saúde sobre o cigarro.
Mas, como fumante que sou, no mérito (ou seria desmérito?) social.
Se um dia algum pesquisador de plantão me perguntar
qual é a frase brasileira do século, eu diria: "O que é bom para os
Estados Unidos é bom para o Brasil." Nem me lembro mais qual foi o
direitista que disse isso durante o período militar. Mas a verdade é
absoluta.
O americano (e o Mateus Shirts está aí para
confirmar) precisa ter um inimigo. Sem um inimigo, o país sucumbe.
Herdaram isso dos irlandeses e da máfia. Durante várias décadas teve a
Rússia, pra se distrair. Um bom inimigo, diga-se de passagem. Guerra fria
e quente. Disputa no ar e no fundo dos mares. Mas a Rússia broxou, o
comunismo acabou. E o americano ficou procurando inimigos. Tentou o Sadan,
mas era fraquinho, coitado.
Aí então resolveram atacar o sal. O sal matava. O sal
fazia mal ao coração.
Proibiram o sal. Depois descobriram que não era bem
assim.
Foi quando olharam para o próprio corpo e para o
McDonald's e resolveram colocar no ar a palavra colesterol. Gordos e
bundudos, investiram todas as armas contra as gorduras. Não se podia comer
mais nada. Até descobrirem que, comendo ou não as tais gordurinhas, dava
na mesma. Deixaram o colesterol de lado.
Foi aí então, que pensaram no cigarro. Guerra ao
cigarro. Cigarro mata. Já disse que não vou discutir se mata ou não. Tem
todo o jeitão de que mata.
Mas não posso deixar de informar que em São Paulo a
violência mata muito mais.
Começaram a proibir cigarro aqui e ali. O negócio
chegou ao ponto de existir uma cidade onde não se pode fumar nem no
próprio banheiro (Carmel, Califórnia). Descobriram que o cowboy do anúncio
do ??Marlboro morreu de câncer. Bons estrategistas, esses americanos.
Peito para fechar as fábricas não têm, mesmo porque acabando a fábrica,
acaba o cigarro e eles vão brigar contra quem? Monica Lewinski de novo?
Nada disso, temos que continuar o embargo a Cuba e ao cigarro. E o fumante
passou a fumar escondido. Em banheiros, em escadarias, noutro cômodo.
E o brasileiro achou isso lindo e correu atrás.
Americano deve saber o que faz. Começaram com os restaurantes. Depois os
shoppings. Hoje já tem prédio onde é proibido fumar até nas escadas.
Foi quando surgiu o ex-fumante. Não existe pior
caráter do que o do ex-fumante. O ex-fumante é um pentelho presunçoso.
Fui ex-fumante três dias. Mas reagi a tempo. Já
estava olhando para os fumantes com asco, com ar de superioridade, achando
todos perfeitos idiotas.
A medicina a nos enganar. Dizem que 80% de câncer no
pulmão é de fumante.
Mas negam a informação que apenas 15% dos fumantes
têm câncer no pulmão.
Considerando-se que 100% da população paulistana está
sujeita a levar um tiro na esquina, é uma porcentagem aceitável. Mas eu
disse que não ia entrar nesse desmérito.
Quero mesmo ficar no lado social.
Viramos bandidos, inimigos, burros e feios. Encher a
cara de álcool, pode. É social. Até cheirar cocaína é bem visto. A
sociedade entende. Mas quem fuma, não é perdoado. É olhado com pena, com
desdém. Nos olham e pensam: esse aí vai morrer. Como se eles não fossem
morrer, fossem eternos.
E o ex-fumante se sente um herói dele mesmo. Se acha
um gênio, um ser superior. E diz, feliz: fumei 30 anos, parei a tempo. A
tempo do quê? De ficar nos enchendo o saco?
Não estou defendendo o cigarro. Sei que vou parar.
Como diz o Millôr, "parar de fumar é facílimo. Eu já parei umas 20 vezes".
Na Europa (Primeiro Mundo, né?) fuma-se mais do que
nunca. A França, por exemplo. Não tenho dados aqui, mas acredito que 90%
da população adulta fume. Fuma-se até dentro do metrô. E ninguém olha
feio. E a população não está diminuindo, não. E olha que o cigarro francês
é forte pra burro (ou pra inteligente?). Gostaria de ver alguma pesquisa
sobre câncer no pulmão ou estômago feita entre os franceses. E na
Alemanha? Fumam entre o almoço e a sobremesa.
Não estou aqui fazendo nenhum apologia ao cigarro,
não. Sei das suas conseqüências. E estou atento. É que a pior conseqüência
de parar de fumar é virar um ex-fumante. E ex-fumante dá câncer. Na cabeça
e no saco. Como todo modismo vindo dos Estados Unidos.