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O ESTADO DE s. PAULO

21/07/2004

 


seis meses, iludido por uma púrputa estráica, me despedi de vocês afirmando que iria escrever uma novela e ficaria seis meses longe daqui.  Felizmente, para nós todos, deu no deu que eu fiquei aqui.

Mas agora é sério. Acabo de assinar um contrato com a Rede Globo e não vou ficar seis meses fora. Vou ficar dois anos. Mas pode ter certeza, minha amiga, se ainda estivermos escrevendo e lendo, nos encontramos aqui de novo.

E, nestes momentos, fica assim com jeitão de retrospectiva do que rolou. Foram quase 12 anos, toda quarta-feira. Mais ou menos um quarto da minha vida.

Como é momento de despedidas, me deixem puxar um  pouco o saco do pessoal da casa. Foram umas seiscentas crônicas e em apenas duas tive problemas. Quase zero. E confesso, o jornal estava certo. Nunca me pediram para escrever isto ou aquilo. Nunca me proibiram de nada, mesmo que a minha posição política (se é que alguém ainda tem isto) fosse diversa da opinião do jornal. Nestes 12 anos aprendi a respeitar a família Mesquita e o que eles representam para o jornalismo brasileiro. Favor notar que não estou escrevendo isto, pedindo emprego, mas sim saindo.

Confesso que vocês deviam estar um pouco cansados de mim. Pensando bem, acho que eu não tinha mais o que escrever. Olho agora aqui em volta e percebo que escrevi sobre tudo. Telefone, computador, mouse, cigarro, isqueiro, cigarro, disquetes, máquina fotográfica, papel higiênico, roupas, vidro retrovisor, grampeador, amores e desabores. Sexo, feminismo e machismo. FHC, Pelé, Lula, Marta Rocha, malufes, lalaus e pica-paus.

Confesso, mais uma vez, que era gostoso passar a semana pensando em o que ia escrever aqui. Aí vinha uma idéia e eu ficava uns dias burilando, arredondando a coisa, até ela virar crônica.

Agradeço a todos vocês que me escreveram durante mais de uma década, elogiando, criticando e até mesmo xingando. Algumas vezes fui radical e em outras até ingênuo. Mas sempre tinha você na minha cabeça. Um compromisso gostoso, uma intimidade com você. Gostava quando sentia que estava falando no seu ouvido, como se estivesse ao seu lado. Gostava quando escrevia aqui e isto ajudava alguém.

Resumindo, vou sentir saudades de você. Sim, o escritor não existe sem o leitor. Criamos, entre nós, uma certa intimidade. Se você pensava o que eu iria escrever, do lado de cá, eu ficava pensando no que é que você queria ler. Claro que algumas vezes nossas idéias não bateram.

Este espaço também me serviu para conhecer muitos leitores e leitoras. Vou ficar com saudades de vocês.

Acredite ou não, estou escrevendo esta última crônica com umas paralelas lágrimas pingando aqui no teclado. Leitor abandonar o escritor, é fácil, minha querida. Mas o escritor largar os seus leitores, dói.

Fiquem com Deus, que escrevia certo por linhas tortas! Embora fosse péssimo de caligrafia, sempre foi meio importante.

Como me disse o diretor de redação ao ser informado da minha saída, “até 2006”.