Sempre foi dito que o Brasil é o maior
país católico do mundo. E agora, cada vez mais, estamos provando para nós mesmo e para
o mundo incrédulo esta verdade. Nunca Deus e Cristo estiveram tão em evidência por
aqui. Se fosse ter eleição, levavam no primeiro turno.
Podemos começar a provar a nossa tese
por aquela "conversa entre primos" do Recúpero com o Monfort que foi captada do
céu pelas parabólicas. "Bem-aventurados os inescrupulosos porque deles será o
Reino de Deus", já dizia Jesus (ou não foi isso que ele disse?). E o Brizola foi o
primeiro a admitir que foi Deus quem colocou a imagem lá. No dia seguinte o Lula disse a
mesma coisa e ainda citou uns trechos da Bíblia. Deve ter confundido parabólica com
parábola. Deus ex-machina e não se fala mais nisso.
O número de Atletas de Cristo já andava
me assustando um pouco. Na Copa o Jorginho distribuía um livrinho dizendo que antes de ser
de Cristo batia em todo mundo e agora apanha e oferece a outra face. Mas, como disse o
genial Roberto Benevides, Cristo não sabe bater penalti e o São Paulo dançou rezando de
joelhos no meio do campo contra o Velez. O próprio Muller, Atleta de Cristo e de Jussara,
antes de embarcar para Liverpool, disse que, se lá não houvesse uma tendinha para
Cristo, ele iria abrir uma. Mas teve que colocar a Bíblia no saco e voltar ao descobrir
que lá Cristo também paga imposto de renda. Os luteranos protestaram. O Muller tinha se
esquecido do dízimo. Na Copa dos Estados Unidos, dizem que foi Cristo quem soprou aquele
chute do Baggio para a arquibancada.
Depois dos Atletas de Cristo surgem
agora, diariamente nas nossas telas, no horário político gratuito (já imaginaram se
fosse pago?), os Deputados de Cristo. Vocês já repararam que, em cada quatro candidato a
deputado, um é Evangélico? Não sei se Cristo é bom de voto, mas todos eles fazem
questão de dizer que a salvação é Cristo e não o Enéas, o Atleta de Hitler. Dizem
que em outros estados a proporção é ainda maior. Fico a imaginar esses deputados
eleitos e, na hora das grandes votações no Congresso Nacional, todos eles, senhores
sérios e feios, de terno, gravata e terço, de mãos dadas, orando, torcendo, de joelhos.
Teremos uma nova Constituição de Cristo? O Chico Rossi, já em segundo lugar para
governador em São Paulo fala com a Bíblia na mão: deve ser o seu projeto para São
Paulo apóstolo.
Outro dia, no casamento da filha de um
amigo de infância, encontrei um conterrâneo que não via há mais de vinte anos. Veio
falar comigo, o meu querido Oswaldinho. "Agora sou crente!", foi logo dizendo. E
disse mais: que lia todas as minhas crônicas e que as achava muito edificantes, que eu
era uma espécie de evangélico. Entenderam? Sou um Cronista de Cristo agora.
Não sei se isso tudo é moda ou fé. Mas
a coisa está pegando. Não tenho nada contra Cristo, muito pelo contrário, mas acho que
o Homem, lá em cima, não vai ter tempo para atender a tanta gente. Ele deve estar
doidinho lá no céu. Num mesmo dia ter que colocar imagens em parabólicas, bater
penalidades máximas, colocar votos em urnas, escrever crônicas e mais, muito mais.
Claro. Logo vão surgir os Artistas de
Cristo no SBT, provavelmente, onde já existe a "novela da família brasileira".
A próxima será "As Pupilas do Senhor Reitor". Estão chegando perto. Sem
contar na Record que já é de Cristo há muito tempo.
Depois virão os Médicos de Cristo, que
serão aqueles que operarão verdadeiros milagres nas mesas cirúrgicas, transformadas em
altares. Logo-logo surgirão os Especuladores de Cristo, os Escrupulosos de Cristo e assim
por diante.
Cristo é a salvação, está escrito nos
carros. Pode ser, sou cristão. Mas acho que a gente devia cair mais na real (e no real) e
tratarmos de resolver nós mesmos os nossos problemas e os problemas do nosso país. Não
é todo dia que Cristo resolve transformar água em vinho e nem ressuscitar Lázaros.
Vamos deixar Deus em paz que ele tem mais o que fazer.
Porque, do jeito que está, não há
Cristo que agüente!