Se o presidente Fernando Henrique Cardoso
perdeu o seu futuro Ministro da Saúde, Francisco Stéfano Capella Antunes, Brasília
ganhou, no mínimo, um escândalo como não se via nas páginas policiais desde o caso do
seqüestro e morte da menina Ana Lídia, de 7 anos, crime praticado em 1973 por um grupo de
jovens, entre eles o filho de um ex-ministro da Justiça.
Kiko Stéfano (como era conhecido
socialmente em Brasília), tinha 42 anos, era casado e tinha duas filhas: foi encontrado
morto na biblioteca de sua casa, situada no SMHIS-Tr 9, Cj 2, Lt 10, Cs 4 (traduzindo:
setor de mansões habitacionais individuais sul, trecho nove, conjunto dois, lote dez,
casa quatro). Um tiro à queima-roupa no ouvido direito. As investigações criminais já
foram concluídas: Kiko Stéfano se matou, apesar de ser canhoto e o tiro ter sido
disparado no ouvido direito. E foram mais longe as investigações à cargo da Polícia
Federal: o suicídio estava umbilicamente ligado ao frio assassinato do advogado Lourenço
de Souza Mello, ocorrido há menos de um mês. Lourenço foi encontrado dentro do seu
escritório de advocacia no último andar do moderno edifício Liberty, no Setor Comercial
Norte.
Nem Fernando Henrique Cardoso, nem seus
assessores mais diretos, fizeram comentário sobre as duas mortes. Sergio Motta, das
Comunicações, apenas comunicou que o presidente havia mesmo convidado Kiko Stéfano para
a pasta da Saúde. "Tinha o perfil que o presidente procurava: não era médico. Foi
ele quem instalou no governo Roriz o serviço de marcação de consultas médicas na rede
pública por telefone. Isso permitiu um controle melhor das doenças. Por exemplo, no ano
passado, Brasília teve apenas 8 casos de cólera, que vieram de outras cidades. Além do
mais, o Kiko tinha experiência internacional", afirmou Motta.
Que ele tinha vasta experiência
internacional é inegável. Resta saber que experiência era essa. É o que a Polinter
tenta esclarecer agora na Europa e nos Estados Unidos, nomeadamente em Florença e San
Francisco.
E qual seria a relação entre o
suícidio de Kiko e o assassinato de Lourenço de Souza Mello?
Kiko Stéfano chegou a Brasília há 12
anos, sem nunca ter detalhado muito bem de onde viera. O pequeno sotaque italiano foi uma
explicação simples: seu pai era brasileiro, casado com uma florentina (daí o Stéfano)
e ele passara muitos anos com a mãe em Florença, desde que o pai havia morrido quando
ele ainda era garoto. Dizia-se administrador público, formado por Harvard. Alguém um dia
duvidou e ele mostrou o álbum de formatura. Não apenas era verdade, como havia sido o
orador da turma.
Kiko chegou à Brasília e logo se
hospedou na Academia de Tênis, aquele mesmo lugar chique onde Bernardo Cabral dançaria
Bésame Mucho com Zélia Cardoso, oito anos depois. Aliás, brasilienses socialites
afirmam que Kiko estava naquela festa e até teria sugerido para o Cabral dançar La
Traviatta com a Zélia.
Ninguém sabia exatamente o que Kiko
fazia para ganhar dinheiro. Dinheiro que ele gastava todas as noites lá no Gilberto
Salomão no bar do restaurante Garf, enquanto o maitre preparava para ele lagostas ao
limão. Bebia e comia bem, o Kiko. Nos fins de semana podia ser encontrado com certeza na
mesa da janela do Francisco, na 404-SUL. Talvez tenha sido mesmo nos bares e restaurantes
que ele tenha conhecido os donos do poder e do dinheiro de Brasilia. Era comum vê-lo
jantando no badaladíssimo Antigamente (na estrada para a não tão antiga assim
Luiziania), com deputados, senadores e banqueiros. Entre eles, seu amigo, o ex-deputado
Estevão Soares que encontra-se ainda abalado com o seu suicídio: "Não consigo
imaginar como ele foi fazer isso. Se tinha um sujeito que adorava viver, esse era o
Kiko".
Também tinha livre trânsito na imprensa
de Brasília. Gostava de passar o fim da tarde no Carpe Diem, na 104-SUL, exatamente ao
lado da redação da Folha de S. Paulo. Gilberto Dimenstein nega que o tenha conhecido.
Vestia-se bem. Comprava suas roupas na
San Phelippo, na 304-SUL ou na Georgi Armani, sempre no Park Shopping. Sabia combinar um
terno xadrez com uma gravata listrada. Usava botas, como um plantador de uvas da Itália
central. Alto, cabelo ligeiramente branco e altamente gomalinado, tipo "frívolo e
peralta, tipo que morto não faria falta", como diria Artur de Azevedo. Mas que
agora, morto, faz falta para a Betina, a Andreza e a Danuza. A primeira, sua esposa, com
21 anos (casou-se com ele com 16) e as outras duas filhas, de quatro e dois anos e meio.
E, dizem, faz falta também para a sogra Inezita.
Kiko já estava há três anos morando e
freqüentando Brasília, quando se mudou com seus ternos e 50 pares de sapatos, para a QL
14 (quadra do lago, catorze), perto da Península dos Ministros. Ali, como ele mesmo
sempre dizia, "posso correr de bicicleta de manhã ao lado de um ministro, faço
cooper com um deputado no cair da tarde e bato papo com o senador meu vizinho, da janela
dele". Talvez seja por isso que ele pagava cinco mil dólares de aluguel na mansão.
Pode-se dizer que Kiko Stéfano era um partidão. Solteiro, rico, cheio de influências.
Foi quando Kiko conheceu Betina, de
dezesseis anos, filha de um senador do nordeste, latifundiário, rico, muito rico. Kiko
tinha 36 anos. Ambos sempre afirmaram que foi amor à primeira vista. Mas o pai e a mãe
não viram com bons olhos aquele namoro que começou numa memorável festa organizada pela
Moema Leão. Moema, que depois se tornaria amiga íntima da senhora Collor dava festa
desde Baile a Fantasia, até Mil e Uma Noites. E foi numa dessas noites que Kiko e Betina
se conheceram. Ela, virgem, segundo fofocas autorizadas.
A família foi contra, principalmente por
ninguém conhecer o passado do "garanhão", como dizia o ainda jovem pai e
senador que era apenas um ano mais velho que o sedutor de sua filha.
Um dia Kiko quis conhecer a família de
perto e que todos o conhecessem. Para isso marcou um almoço com a sogra Inezita (de 37
anos), apesar do olhar nada complacente do marido. Pegou-a ao meio-dia e, para espanto
dela, foram diretos para o Aeroporto.
- Onde vamos almoçar, Kiko? No
aeroporto? Que pobreza!
- Está com o seu passaporte na bolsa.
Pedi para a Betina colocar. Não vamos almoçar. Vamos jantar. Em San Francisco,
Califórnia.
E entraram num jatinho particular
chamado, se não me engano, Dark Bat.
No aeroporto de San Francisco uma
limunise branca de seis portas os aguardava. Pela 208-N (estrada duzentos e oitenta,
norte) foram diretos para a Green Stret, mais precisamente ao número 574, o Caffè Sport,
o mais caro restaurante italiano de North Beach.
Ali, enquanto ela saboreava uma Spinach
Salad and Goat Cheese with sun dried tomatoes, pine nuts, basil vinaigrette, ele
deliciava-se com um Risotto of Smoked Chicken artichoke hearts, almonds ao onions. E, foi
olhando para o teto do local, rindo da confusão de presuntos e lingüiças penduradas,
redes de pesca, bonecas e espelho, que Kiko afirmou:
- Quero casar com a sua filha!
E contou toda a sua vida, que começava
exatamente em 1737, em Florença, Itália, quando seu enésimo avô, Francesco Stéfano
(aliás, o mesmo nome dele) foi coroado imperador. No dia seguinte, depois do café da
manhã no Cityscape, no 46º andar do San Francisco Hilton, onde se vê toda a cidade em
360 graus e onde mostrou ser amigo do maitre José, nicaraguense que não cobrou nada, a
mãe de Betina disse o sim em nome da sua filha, dela e "deixa que eu falo com
ele".
Este comentário todo acima saiu na
coluna da Consuelo Badra, logo que eles voltaram. Com uma ponta de ironia na pena, ainda
insinuou: "Inezita voltou à Corte, encantada com a Califórnia e com o futuro
genro"...
Inezita deve mesmo "ter falado com
ele", porque o casamento logo se deu para dois mil convidados especialíssimos, na
Igreja Dom Bosco, onde aliás, dias antes, ao lado, no colégio, Kiko Stéfano havia feito
uma palestra badaladíssima sobre Harvard. A decoração da igreja foi
"contratada" em São Paulo. O mesmo acontecendo com o bufê igualmente
"contratado" em São Paulo, oferecido para apenas 200 pessoas da mais alta nata
brasiliense e brasileira, na Academia de Tênis. Entre outros, estavam Collor de Mello e
senhora, Ciro Gomes, Nelson Piquet, Mauro Castro, presidente da Academia Brasiliense de
Letras, Ibsen Pinheiro, Clodovil, Delfim Neto, Nelson Cavaquinho, Castor de Andrade, Mino
Carta, Ivo Noal, João Alves, Clóvis Bornay, José Genoino, Paulo Salim Maluf, Paulo
Markum, Chico Anísio, Emerson Kapaz (que fez um rápido pronunciamento), D. Evaristo Arns
e, juram, irmã Dulce. Mas o que todos notaram é que nem no religioso nem no civil,
compareceu nenhum parente de Kiko Stefano. Nem sequer um amigo, fora do circo brasiliense.
Kiko desculpou-se como pode.
Nunca chegaram a provar se a moça casou
grávida ou não. O fato é que todo mundo sabe que a Andreza nasceu de sete meses.
Vamos agora aos fatos. Ao assassinato do
advogado Lourenço de Souza Mello e o suicídio de Kiko Stéfano. A narração é do
delegado Márcio Severiano Quinet, com exclusividade para os leitores de VIP:
- Desde o começo, achávamos que havia
uma relação entre as duas mortes. Afinal, Lourenço era amigo, muito amigo de Stéfano.
E mais: seu advogado. Não foi difícil checar que ambos viajaram várias vezes juntos
para Miami e San Francisco. E algumas vezes para Florença. A polícia americana
investigou o maitre José, do Cityscape em San Francisco, elemento que havia tido
problemas com drogas na Nicaragua. José acabou confessando que era o receptador de
cocaína dos dois. Era desta atividade que vinha o dinheiro de Stéfano. Lembra daquele
carregamento da Varig de uma tonelada há uns dez anos? Stéfano estava na jogada.
- Sim, mas qual a relação do suicídio
com o assassinato?
- Aí tivemos que investigar também em
Florença. Stéfano esteve várias vezes em Florença nos últimos meses. Algumas vezes ia
com a sogra, Inezita, sua amante desde a primeira viagem que ambos fizeram para San
Francisco. Em Florença ficavam na Piazza Della Signoria, onde fica o Palazzo Vecchio. E
lá, na fonte do primeiro andar, fazia os contatos com os italianos e marroquinos. Sim,
dona Inezita sabia de tudo. Foi quando o doutor Lourenço começou a chantageá-la, pois
Stéfano estava afastando-o dos negócios. Estava gostando dela alé do normal, na
opinião de Lourenço. Era mais fácil usar a sogra e amante como contato. Foi ela quem
matou o advogado, como já confessou friamente.
- Mas isso não seria um motivo muito
pífio, digamos assim, primeiro, para ela matar o advogado e, sem segundo lugar para Kiko
Stéfano vir a se suicidar?
- Positivo. Kiko Stéfano se matou por
causa do seu amor por Lourenço. Pode? Uma paixão que já existia há mais de 20 anos.
Conheceram-se em Harvard, onde tudo começou. Kiko jovenzinho, o doutor Lourenço mais
velho, já conhecido aqui em Brasilia por atos de pederastia ativa e passiva. Lourenço
recitava A Divina Comédia para Stéfano. Tudo isso está nos autos. Foi por esse motivo
que Stéfano voltou para o Brasil e veio morar em Brasília. Veio atrás do homem dele,
veio "procurar a sua Beatriz no céu claro do planalto central", como depôs
irada a dona Inezita. O casamento com a Betina foi apenas uma questão de aparências. O
caso com a sogra, um oportunismo nos negócios. O tal do Kiko era um tremendo dum baitola.
Essa que é a verdade.