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AS VELHINHAS VÃO A UM MOTEL

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o estado de s. paulo

24.11.93

 


AS QUATRO velhinhas não chegavam a ser alcoólatras. Mas gostavam de um bom vinho. Todas tinham mais de 70. Entre 70 e 80. Duas viúvas e duas solteironas. Por ordem de idade, da mais velha para a caçula: Candinha, Floriscena, Abadia e Aspásia. Nasceram e sempre viveram num subúrbio do Rio, na Zona Norte. Eram conhecidas como as Papudinhas.

Eis que um dia, um calor imenso, foi aniversário da Denise, neta da Candinha, sobrinha-neta das demais. Denise era filha da Wilma. Wilma tinha uns cinqüenta e Denise estava fazendo trinta.

Foi um grande almoço naquele dia. Uma bela bacalhoada regada a muito vinho. Mas muito vinho mesmo. Denise, que foi quem me contou a história, disse que cada uma das Papudinhas devia ter entornado umas três garrafas de um litro de Dão 75, uma das melhores safras.

Estavam todas naquela alegria etílica quando tudo começou. E tudo começou quando a dona Wilma disse que havia feito uma grande reforma no banheiro da casa. Tudo começou quando dona Wilma disse que tinha colocado uma banheira de hidromassagem lá.

—O que é isso?, perguntou a mais velha, a Candinha.
—São essas banheiras que têm em motel.
—Em motel?, assanharam-se as Papudinhas.
—Em motel...

Seguiram-se alguns segundos de silêncio, mas a Denise percebia no rosto das velhinhas a curiosidade para ver uma coisa que só tinha em motel. Coisa do diabo, coisa do pecado. Dona Wilma também percebeu, mas ficou calada. Afinal, tinha mais gente na sala.

Foi a Aspásia, ou Tipá, a caçula de 70 anos, solteirona convicta e virgem, quem puxou o assunto novamente.

—Mas o que faz essa hidromassagem, minha filha?
Dona Wilma, já tão bebinha quanto as quatro velhinhas baixinhas, não teve dúvidas.
—Sigam-me as que nunca viram uma banheira de hidromassagem!

As quatro se levantaram ao mesmo tempo como se houvessem ensaiado aquela marcação, e seguiram, trôpegas e curiosíssimas, a dona da casa. Tinha um corredor e a primeira à direita continha a banheira do pecado, como já imaginavam as Papudinhas. Denise seguiu as cinco e ficou na porta.

Dona Wilma ligou a banheira. Aquele barulho já foi de uma excitação contagiante. Jatos de água explodiam em bolhas de espuma. Dona Wilma jogou um potinho que fez uma espuma imediata, branca e brilhante. Bolhas subiam pelo ar. Uma velhinha colocou a mão no jato.

—E sai quentinha, meninas! Nossa, deve ser uma maravilha!

Todas colocaram a mão e Abadia foi mais ousada ainda. Tirou o sapatinho preto e colocou o pé. O jato quase estoura as varizes da velha. Dona Wilma, que mal conseguia ficar em pé, naquele calor lá da Zona Norte, resolve entrar de roupa e tudo dentro da banheira. Denise fechou a porta e deixou as cinco lá dentro. Mas, da sala, tudo se ouvia. Voz excitada é sempre estridente.

—Também quero!, disse Candinha.
—Tragam mais vinho!, implorou Floriscena.
—Eu vou entrar, mas eu vou entrar pelada!, ousou Aspásia.
—Se você tirar a roupa, eu também tiro, disse alguém.
—Então vamos ficar todas como Deus nos criou.
—Será que não é pecado? preocupou-se Abadia.
—Uma festa desta não pode ser pecado, menina. Nem Cristo agüentaria isso...
—Nossa, encosta as costas no jatinho. Candinha.
—Meu Deus, que coisa boa!
—Quer dizer que é isso que fazem em motel, é?
—Tira o corpete também, sua bobinha.
—Ai, que coisa excitante.
—Nossa, está subindo uma coisa dentro de mim, como se fosse uma gasolina!

Denise olha pelo corredor e a água começa a sair debaixo da porta, invadindo o corredor de ladrilhos novos. Ela sorri, aumenta o som para que os demais não onçam a festa molhada lá dentro. Mas fica por ali, na porta, a ouvir a festa que massageava as velhinhas. Pouco a pouco, foi percebendo que as Papudinhas finalmente haviam descoberto o que era o prazer. Só saíram de lá de noitinha, como se nada tivesse acontecido. Como se estivessem saindo de um motel.