AS QUATRO velhinhas não chegavam a ser
alcoólatras. Mas gostavam de um bom vinho. Todas tinham mais de 70. Entre 70 e 80. Duas
viúvas e duas solteironas. Por ordem de idade, da mais velha para a caçula: Candinha,
Floriscena, Abadia e Aspásia. Nasceram e sempre viveram num subúrbio do Rio, na Zona
Norte. Eram conhecidas como as Papudinhas.
Eis que um dia, um calor imenso, foi aniversário da Denise, neta da Candinha,
sobrinha-neta das demais. Denise era filha da Wilma. Wilma tinha uns cinqüenta e Denise
estava fazendo trinta.
Foi um grande almoço naquele dia. Uma bela bacalhoada regada a muito vinho. Mas muito
vinho mesmo. Denise, que foi quem me contou a história, disse que cada uma das Papudinhas
devia ter entornado umas três garrafas de um litro de Dão 75, uma das melhores safras.
Estavam todas naquela alegria etílica quando tudo começou. E tudo começou quando a dona
Wilma disse que havia feito uma grande reforma no banheiro da casa. Tudo começou quando
dona Wilma disse que tinha colocado uma banheira de hidromassagem lá.
O que é isso?, perguntou a mais velha, a Candinha.
São essas banheiras que têm em motel.
Em motel?, assanharam-se as Papudinhas.
Em motel...
Seguiram-se alguns segundos de silêncio, mas a Denise percebia no rosto das velhinhas a
curiosidade para ver uma coisa que só tinha em motel. Coisa do diabo, coisa do pecado.
Dona Wilma também percebeu, mas ficou calada. Afinal, tinha mais gente na sala.
Foi a Aspásia, ou Tipá, a caçula de 70 anos, solteirona convicta e virgem, quem puxou o
assunto novamente.
Mas o que faz essa hidromassagem, minha filha?
Dona Wilma, já tão bebinha quanto as quatro velhinhas baixinhas, não teve dúvidas.
Sigam-me as que nunca viram uma banheira de hidromassagem!
As quatro se levantaram ao mesmo tempo como se houvessem ensaiado aquela marcação, e
seguiram, trôpegas e curiosíssimas, a dona da casa. Tinha um corredor e a primeira à
direita continha a banheira do pecado, como já imaginavam as Papudinhas. Denise seguiu as
cinco e ficou na porta.
Dona Wilma ligou a banheira. Aquele barulho já foi de uma excitação contagiante. Jatos
de água explodiam em bolhas de espuma. Dona Wilma jogou um potinho que fez uma espuma
imediata, branca e brilhante. Bolhas subiam pelo ar. Uma velhinha colocou a mão no jato.
E sai quentinha, meninas! Nossa, deve ser uma maravilha!
Todas colocaram a mão e Abadia foi mais ousada ainda. Tirou o sapatinho preto e colocou o
pé. O jato quase estoura as varizes da velha. Dona Wilma, que mal conseguia ficar em pé,
naquele calor lá da Zona Norte, resolve entrar de roupa e tudo dentro da banheira. Denise
fechou a porta e deixou as cinco lá dentro. Mas, da sala, tudo se ouvia. Voz excitada é
sempre estridente.
Também quero!, disse Candinha.
Tragam mais vinho!, implorou Floriscena.
Eu vou entrar, mas eu vou entrar pelada!, ousou Aspásia.
Se você tirar a roupa, eu também tiro, disse alguém.
Então vamos ficar todas como Deus nos criou.
Será que não é pecado? preocupou-se Abadia.
Uma festa desta não pode ser pecado, menina. Nem Cristo agüentaria isso...
Nossa, encosta as costas no jatinho. Candinha.
Meu Deus, que coisa boa!
Quer dizer que é isso que fazem em motel, é?
Tira o corpete também, sua bobinha.
Ai, que coisa excitante.
Nossa, está subindo uma coisa dentro de mim, como se fosse uma gasolina!
Denise olha pelo corredor e a água começa a sair debaixo da porta, invadindo o corredor
de ladrilhos novos. Ela sorri, aumenta o som para que os demais não onçam a festa
molhada lá dentro. Mas fica por ali, na porta, a ouvir a festa que massageava as
velhinhas. Pouco a pouco, foi percebendo que as Papudinhas finalmente haviam descoberto o
que era o prazer. Só saíram de lá de noitinha, como se nada tivesse acontecido. Como se
estivessem saindo de um motel.