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As terríveis dúvidas de Ana Claudia

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6 de setembro de 1960: Querido Diário: depois de passar mais de duas noites sem dormir, terminei tudo com o Derval. E o pior é que se eu resolvi um problema, começou outro. Já são duas da manhã e eu não consigo pegar no sono. Imagine você que, se durmo, sonho que estou casando com ele, de vestido branco e comprido e tudo. Mas eu tenho certeza que eu não amo o Derval. Você sabe disso.

7 de setembro de 1960: Hoje, eu não resisti. Depois do desfile eu deixei que ele viesse falar comigo. Ele estava lindo no desfile, com a bandeira do Estado na mão. O Elorza carregou a do Brasil porque é o primeiro da classe e o Derval, como é o segundo, a de São Paulo. Ele veio falar comigo ainda com as roupas de gala e eu pensei assim: eu não sei viver sem esse cara. Voltamos. Estou feliz.

8 de setembro de 1960: Eu fui precipitada, querido Diário. Tem hora que eu paro e fico pensando se o Derval é mesmo o homem da minha vida. O Derval quer namorar a sério e eu só tenho 16 anos. A Glorinha acha que é bobagem minha ficar namorando ele. Acho que amanhã eu vou terminar com ele. Eu acho que ele vai compreender. Afinal, ele já é um bancário do Banco do Brasil e tudo. Pensa que é bom ir a baile e dançar a noite toda com ele, sem parar, suando do jeito que ele sua?

9 de setembro de 1960: Veja como são as coisas. Cheguei para o Derval, expliquei tudo direitinho para ele certa que ele iria entender tudo. Sabe o que ele me falou? Que só me namorou porque não tinha circo na cidade. E eu, boba, em vez de ter alguma reação, fiquei chorando feito boba. Ainda bem que a Glorinha ficou a noite toda me consolando. A Glorinha é muito humana e eu quero que ele morra com urticária na língua.

10 de setembro de 1960: Não consigo dormir, não consigo comer, não consigo ir ao cinema, não consigo ouvir O Direito de Nascer, no rádio, não consigo estudar. Choro o dia inteiro e tenho que ir na aula de óculos escuros — da mamãe — porque os meus olhos estão vermelhos de tanto chorar e não dormir. Estou desesperada, não sei o que fazer, querido Diário. Será que eu devo conversar com o papai e com a mamãe? Será que eles vão compreender? Não sei.

11 de setembro de 1960: Falei com a Glorinha para ela falar com o Derval para ele vir falar comigo. Ele veio conversar comigo depois da aula na fontinha. Fui fraca, contei tudo pra ele. E sabe o que ele disse? Tirou uma listinha do bolso com onze itens. Só volta comigo se eu seguir os onze itens. Fiquei discutindo com ele a tarde toda. Eu disse que oito itens eu aceitava, mas os outros três, não. Depois de muito conversar ficamos com nove itens e eu deixei ele pegar na minha mão. Eu suava feito o diabo.

12 de setembro de 1960: Dormi bem mas acordei achando que eu não devia ter voltado com ele e ter aceito aqueles itens. Fui conversar com o papai, pela primeira vez sobre esses assuntos. Ele foi tão claro! Me provou que eu não gosto dele. Encontrei com ele depois da aula e terminei tudo. Eu acho que nessas horas quem sabe das coisas mesmo é a família da gente. A gente vive falando da família, mas nessas horas...

13 de setembro de 1960: O Derval foi comentar com a dona Zulmira, a mãe da Glorinha, que eu sou louca. Eu? Será? A Dona Zulmira me disse que ele está dizendo isso pra todo mundo. Eu não entendo o Derval...