Estamos no ano de 2.099. Nada muito
distante.
Atarp entra na farmácia. Atarp é
estudante de farmácia. Hoje ele vai viver uma aventura maravilhosa, reservada apenas para
o quarto e último ano da faculdade.
Ali, na farmácia central, ele entra na
cabine. Como se premesse um botão de game, o farmacêutico gerente sorri feliz com a
missão e remete o formando para o passado, numa autêntico máquina do tempo. Essa viagem
faz parte da pesquisa para o trabalho de conclusão do curso e se intitula "Do PH ao
Phd".
Anotações de viagem:
No final do século vinte, a pharmákeia,
como diriam os gregos, ou a pharmacia, como insistiam os romanos, já não era mais a
mesma. A degeneração já havia começado lá pelos anos sessenta do citado século. Já
não era mais aquela velha e boa botica, onde se preparava, caracterizava, conservava os
medicamentos. E vendiam. Era isso: fazia e vendia. Era para isso que existia a farmácia.
* Voltando mais um pouco no tempo, posso
precisar, mais ou menos, que tal degeneração começou, ainda de leve, nos anos vinte,
com a introdução da venda do batom. O batom foi definitivo. A farmácia, a boa e velha
farmácia, nunca mais seria a mesma. Na época, a sociedade e os sindicatos ligados ao
setor protestaram. Teve até uma greve em Santa Catarina. Mas o batom venceu. E com ele,
pouco a pouco, a farmácia foi perdendo aquele charme que já ostentava na Grécia e em
Roma. Do lábio ao cabelo foi um palmo de anos. Lá estava o xampú nas prateleiras ainda
escuras e envidraçadas.
* Vi, no interior do Maranhão, por volta
dos anos oitenta do vinte uma carrocinha dentro da farmácia. Repito: dentro da farmácia.
A farmácia vendia colesterol a olhos vistos e míopes.
* No final do século passado a relação
entre consumidores, farmacêuticos e advogados é muito íntima nos Estados Unidos.
Milhares de advogados ficaram milionários da noite para o dia tirando milhões de
dólares das indústrias farmacêuticas. Já na Europa, no mesmo período, a discrição
dos estabelecimentos era total.
* Foi mais ou menos no final dos anos
cinqüenta (sempre do século vinte) que a luz de neon tirou o brilho das prateleiras
mostrando as olheiras dos vendedores simpáticos e que (ainda) entendiam do assunto.
* No começo do presente século,
acentuou-se as chamadas promoções publicitárias. As farmácias, agora em redes
multinacionais e milionárias, invadiram a televisão. Nos anos vinte ficou clara o
maneira de encarar o consumidor. Os anúncios provocavam doenças nos telespectadores. A
coisa era mais do que subliminar. Houve algumas condenações, é claro, mas o dinheiro
prevaleceu.
* Posso precisar que foi na década de
setenta, vinte e poucos anos atrás, portanto, que o alimento deixou de ser alimento e
passou a ser tudo, menos alimento. Não se comprava mais uma batata no supermercado (sei
que a expressão é do século passado) e sim 300 calorias. Gosto de que? De caloria, é
claro. Chupava-se proteinas. Cheirava-se amidos.
* Ouvir as gravações que eu fiz quando
surgiram as primeiras farmácias do mundo, na Índia e na China.
* Não se esquecer de dizer que a
purificação pelos purgativos, contudo, já existia muito antes na Babilônia, Assíria,
Egito e parte da Grécia. Estive lá e testei os purgantes. Muito bom.
* Em 1240, na Inglaterra, o imperador
Frederick II regularizou e separou a profissão de médico e farmacêutico. Apenas da bela
cerimônia que antecedeu o fato e a assinatura do decreto, os farmacêuticos sentiram-se
diminuídos. Durante séculos e séculos os médicos viveram a dizer para não se confiar
em receita de farmacêuticos. Felizmente, já no final do século 20, cada vez mais um
confiava no outro. E precisava do outro.
* Estive também, nessa minha viagem, à
Holanda, durante o longínquo ano de 1910 quando a Federation Internationale
Pharmaceutique foi criada e estabelecida.
* Depois de cem anos crescendo em todos
os sentidos e para todos os lados, hoje a farmácia se resume ao que se resume, de uns
quinze anos para cá: apenas uma sala e uma cadeira e uma máquina. E os tubos é claro. E
o painel, ainda enorme, mas já bem menor daquele primeiro instituído há menos de dez
anos.
* Pude constatar ainda, durante toda a
viagem que, muda a farmácia, mudam os medicamentos, mas o consumidor e o farmacêutico
continuam os mesmos. Em todas as épocas que estive, sempre encontrei no farmacêutico
alguém querendo ajudar. E nas consumidoras sempre havia um sorriso de socorro nos lábios
cheios de batom.
Descrição ( e discrição) do
atendimento de uma farmácia, hoje:
Carlota, 32 anos, é uma consumidora
normal, absolutamente igual a tantas como ela. Entra, cumprimenta o farmacêutico, fica
sabendo que a família dele vai bem, senta-se, ele fecha a portinha. Carlota fica lá
dentro. Pareceria, para alguém do passado, uma cápsula. Não aquela que Apart entrou.
Outra.
A máquina reconhece Carlota. Já tem
computadorizada toda a vida dela. Tudo aparece no painel. Inclusive suas idas à farmácia
nos últimos cinco anos. Agora o painel diz a ela do que ela está precisando naquele
momento:
- dipropionato de beclometasona, 50 mcg,
- clearance plasmático,
- álcool, 1 ml,
- cannabis sativa, 23 mg,
- e um torturante bandeide no calcanhar.
E ainda um aviso: o viagra do seu marido
está acabando.
Como uma fumaça a coisa entra no ar, nos
poros dela. Do lado, de um furinho, sai a conta, ou melhor, uma cópia da conta dizendo
que já foi debitado tanto na conta dela, no banco. E o banco já pagou uma indústria lá
do Alaska, que forceneu o dipropionato e outra do Arkansas que entrou com o tal do
plasmático. Acertou também com a Bolívia. E o farmacêutico, que domina os botões,
recebeu a sua gorda porcentagem.
Ela sai. Claro que a máquina aproveitou
os 28 segundos com ela lá dentro e lavou, secou e penteou os cabelos dela. E fez as
unhas. E os pés. E, de quebra, passou um desodorantezinho seco nela.
Um aviso ao lado da máquina:
Esta máquina deve ser mantida fora do
alcance das crianças.