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AS DROGAS E A VIAGEM

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Revista da Indústri Farmacêutica

1998

 


Estamos no ano de 2.099. Nada muito distante.

Atarp entra na farmácia. Atarp é estudante de farmácia. Hoje ele vai viver uma aventura maravilhosa, reservada apenas para o quarto e último ano da faculdade.

Ali, na farmácia central, ele entra na cabine. Como se premesse um botão de game, o farmacêutico gerente sorri feliz com a missão e remete o formando para o passado, numa autêntico máquina do tempo. Essa viagem faz parte da pesquisa para o trabalho de conclusão do curso e se intitula "Do PH ao Phd".

 Anotações de viagem:

No final do século vinte, a pharmákeia, como diriam os gregos, ou a pharmacia, como insistiam os romanos, já não era mais a mesma. A degeneração já havia começado lá pelos anos sessenta do citado século. Já não era mais aquela velha e boa botica, onde se preparava, caracterizava, conservava os medicamentos. E vendiam. Era isso: fazia e vendia. Era para isso que existia a farmácia.

* Voltando mais um pouco no tempo, posso precisar, mais ou menos, que tal degeneração começou, ainda de leve, nos anos vinte, com a introdução da venda do batom. O batom foi definitivo. A farmácia, a boa e velha farmácia, nunca mais seria a mesma. Na época, a sociedade e os sindicatos ligados ao setor protestaram. Teve até uma greve em Santa Catarina. Mas o batom venceu. E com ele, pouco a pouco, a farmácia foi perdendo aquele charme que já ostentava na Grécia e em Roma. Do lábio ao cabelo foi um palmo de anos. Lá estava o xampú nas prateleiras ainda escuras e envidraçadas.

* Vi, no interior do Maranhão, por volta dos anos oitenta do vinte uma carrocinha dentro da farmácia. Repito: dentro da farmácia. A farmácia vendia colesterol a olhos vistos e míopes.

* No final do século passado a relação entre consumidores, farmacêuticos e advogados é muito íntima nos Estados Unidos. Milhares de advogados ficaram milionários da noite para o dia tirando milhões de dólares das indústrias farmacêuticas. Já na Europa, no mesmo período, a discrição dos estabelecimentos era total.

* Foi mais ou menos no final dos anos cinqüenta (sempre do século vinte) que a luz de neon tirou o brilho das prateleiras mostrando as olheiras dos vendedores simpáticos e que (ainda) entendiam do assunto.

* No começo do presente século, acentuou-se as chamadas promoções publicitárias. As farmácias, agora em redes multinacionais e milionárias, invadiram a televisão. Nos anos vinte ficou clara o maneira de encarar o consumidor. Os anúncios provocavam doenças nos telespectadores. A coisa era mais do que subliminar. Houve algumas condenações, é claro, mas o dinheiro prevaleceu.

* Posso precisar que foi na década de setenta, vinte e poucos anos atrás, portanto, que o alimento deixou de ser alimento e passou a ser tudo, menos alimento. Não se comprava mais uma batata no supermercado (sei que a expressão é do século passado) e sim 300 calorias. Gosto de que? De caloria, é claro. Chupava-se proteinas. Cheirava-se amidos.

* Ouvir as gravações que eu fiz quando surgiram as primeiras farmácias do mundo, na Índia e na China.

* Não se esquecer de dizer que a purificação pelos purgativos, contudo, já existia muito antes na Babilônia, Assíria, Egito e parte da Grécia. Estive lá e testei os purgantes. Muito bom.

* Em 1240, na Inglaterra, o imperador Frederick II regularizou e separou a profissão de médico e farmacêutico. Apenas da bela cerimônia que antecedeu o fato e a assinatura do decreto, os farmacêuticos sentiram-se diminuídos. Durante séculos e séculos os médicos viveram a dizer para não se confiar em receita de farmacêuticos. Felizmente, já no final do século 20, cada vez mais um confiava no outro. E precisava do outro.

* Estive também, nessa minha viagem, à Holanda, durante o longínquo ano de 1910 quando a Federation Internationale Pharmaceutique foi criada e estabelecida.

* Depois de cem anos crescendo em todos os sentidos e para todos os lados, hoje a farmácia se resume ao que se resume, de uns quinze anos para cá: apenas uma sala e uma cadeira e uma máquina. E os tubos é claro. E o painel, ainda enorme, mas já bem menor daquele primeiro instituído há menos de dez anos.

* Pude constatar ainda, durante toda a viagem que, muda a farmácia, mudam os medicamentos, mas o consumidor e o farmacêutico continuam os mesmos. Em todas as épocas que estive, sempre encontrei no farmacêutico alguém querendo ajudar. E nas consumidoras sempre havia um sorriso de socorro nos lábios cheios de batom.

 Descrição ( e discrição) do atendimento de uma farmácia, hoje:

Carlota, 32 anos, é uma consumidora normal, absolutamente igual a tantas como ela. Entra, cumprimenta o farmacêutico, fica sabendo que a família dele vai bem, senta-se, ele fecha a portinha. Carlota fica lá dentro. Pareceria, para alguém do passado, uma cápsula. Não aquela que Apart entrou. Outra.

A máquina reconhece Carlota. Já tem computadorizada toda a vida dela. Tudo aparece no painel. Inclusive suas idas à farmácia nos últimos cinco anos. Agora o painel diz a ela do que ela está precisando naquele momento:

 - dipropionato de beclometasona, 50 mcg,

- clearance plasmático,

- álcool, 1 ml,

- cannabis sativa, 23 mg,

- e um torturante bandeide no calcanhar.

E ainda um aviso: o viagra do seu marido está acabando.

Como uma fumaça a coisa entra no ar, nos poros dela. Do lado, de um furinho, sai a conta, ou melhor, uma cópia da conta dizendo que já foi debitado tanto na conta dela, no banco. E o banco já pagou uma indústria lá do Alaska, que forceneu o dipropionato e outra do Arkansas que entrou com o tal do plasmático. Acertou também com a Bolívia. E o farmacêutico, que domina os botões, recebeu a sua gorda porcentagem.

Ela sai. Claro que a máquina aproveitou os 28 segundos com ela lá dentro e lavou, secou e penteou os cabelos dela. E fez as unhas. E os pés. E, de quebra, passou um desodorantezinho seco nela.

Um aviso ao lado da máquina:

Esta máquina deve ser mantida fora do alcance das crianças.