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AS CASTANHOLAS DO MORUMBI

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Revista Vip

02/02/94

 


Poucos crimes abalariam tanto a sociedade paulistana como o inesperado e cruel assassinato de Andréa Cunha Campos Buonamigo, de 33 anos, há quinze dias, em São Paulo. Abalariam, pois a imprensa, movida por forte pressão política e empresarial, não divulgou os fatos que chocaram o bairro do Morumbi. Andréa e Ítalo, seu marido (o principal suspeito), eram considerados um "casal perfeito", felizes, com filhos maravilhosos. Diziam que um vivia para o outro.

Andréa, frequentadora assídua das colunas sociais da capital paulista, foi encontrada por seu motorista Takashi Yishi, com vinte e oito facadas, a maioria delas no baixo ventre e seis tiros de calibre 22, no seu quarto todo cor de rosa, que já fora visto pelos leitores da revista Caras há alguns meses sem, evidentemente, as marcas de sangue no papel de parede florido e importado. Seus dois filhos, João Ricardo, de 9 anos, e Ítalo José, de 7, estão internados em Lausanne, na Suíça e não foram ainda informados pelo pai Ítalo de Carvalho Buonamigo, de 45 anos, que encontra-se internado numa clínica de repouso em Campos de Jordão.

A reportagem da revista VIP teve acesso ao processo instaurado na delegacia do bairro do Morumbi e adianta, com exclusividade aos seus leitores, alguns depoimentos prestados, relativos ao hediondo crime.

O delegado doutor Cesar Augusto dos Reis Figueiredo, encarregado do caso, disse que está muito próximo do assassino. Disse ser questão de dias, uma vez que o senador eleito Romeu Tuma confirmou estar interessado na apuração dos fatos o mais rápido possível, senão coloca a Interpol nas investigações.

O primeiro a depor foi o tranqüilo, pacato e baixinho nissei Takashi Yishi, motorista do casal que, entre outras coisas disse:

- Que estava esperando dona Andréa para levá-la ao The Place´s onde ela deveria se encontrar com o marido. Que eram onze da noite, mais ou menos. Que não tinha mais ninguém em casa por ser domingo. Que não viu ninguém entrar e ninguém sair da mansão. Que ouviu ela gritar e correu para o quarto. Que estava na cozinha comendo um misto frio. Que chegou e ela já estava morta com os olhos abertos. Que ele fechou os olhos dela. Que ele ligou para o The Place´s para o celular do doutor Ítalo. Que o quarto estava a maior bagunça. Que tinha sangue por todos os lados. Que trabalhava com o casal fazia dois anos. Que o casal brigava muito. Que o casal estava para se separar. Que não sabia se o doutor Ítalo era violento. Que não conseguiu terminar o seu misto frio.

Realmente o casal Buonamigo estava para se separar. Um dos motivos das crianças estudarem na Suissa eram as constantes brigas entre os dois, disse uma vizinha que não quis se identificar.

Segundo depoimento do pedicure da vítima, Armandinho, há dois anos vinha correndo o processo de separação entre os dois. Declarou que no início tudo corria "às mil maravilhas". Não haviam conflitos. Não houve nenhuma disputa acirrada pelos muitos bens do casal. Andréa ficaria com a casa de Campos do Jordão, a casa de 10 mil metros quadrados em Maresia, com vista para o mar, e mais dois apartamentos em São Paulo, além da casa onde eles moravam, mais a guarda das crianças e uma pensão entre 5 e 10 mil dólares. Armandinho não soube dizer o que caberia ao marido. Tudo foi dividido irmamente, discos, livros, móveis, quadros (tinham oito Mabe e cinco Tomie Othake).

Tudo ia muito bem até que chegou na hora de decidir com quem ficariam as castanholas. Foi aí que a separação passou de amigável a litigiosa. Nenhum dos dois, sabe-se lá porque, abria mão das castanholas espanholas. Seriam as castanholas o motivo do crime, o ponto central de tão sanguinolento desfecho?

Leiam agora parte do depoimento do professor doutor Jair de Oliveira Lima Mautner, psiquiatra, há cinco anos, de Andréa:

- Não sofria de nenhum mal mais profundo, manias ou perseguições, alucinações ou paranóias. Sofria sim de uma grande solidão. Moça simples do interior (era de Botucatu a sua família), sentia-se um pouco só na cidade grande. Humilde, passou a freqüentar altas rodas no Brasil e no exterior. Ciumenta era e muito. Comecei a tratar dela quando teve a primeira Síndrome de Pânico. Em menos de um ano ela estava boa. Receitei-lhe Anafranil. No começo tomava 125 miligramas, caindo, no final do tratamento, para 50. Sim, ela sabia que o marido havia levado uma prostituta de luxo para a Copa do Mundo nos Estados Unidos. Temia apenas pela AIDS. Eu também fiquei ciente que nos últimos meses ela estava saindo com o José Antonio, o detetive que o marido contratou para segui-la. Nunca me disse que o marido poderia cometer um ato como o do crime. Mas tinha medo dele. Não, que eu saiba, fora o detetive, ela não teve envolvimento com nenhum outro homem. Sim, estava estudando francês. Queria ir morar na Europa com os filhos assim que saísse o divórcio.

Na parte do depoimento do marido Ítalo de Carvalho Buonamigo, no que refere-se às castanholas, ele disse:

- Não abri mão das castanholas por motivos pessoais que não vêm ao caso. Mas o fato é que, depois da discussão, as castanholas sumiram e eu achei que ela devia ter dado para alguém, para algum amante, como forma de se vingar de mim. Aí o sangue me subiu à cabeça. Foi quando eu contratei o detetive para segui-la e descobrir onde estavam as castanholas. Dias antes do crime ela me confessou, friamente, que estava de caso com o detetive, mesmo ele sendo negro. Ela dizia, quando bebia, e bebia muito ultimamente, que ele "era um negro de pau branco". Acho que tudo começou quando eu estava na Copa com a Carlinha. Deve ter sido vingança. Toda mulher é assim. Não que eu seja racista, mas não gosto dos negros. Ela sabia disso. Mas pode estar o senhor certo que eu não faria o que o assassino fez, por mais fora de mim que eu estivesse. Nem pelas castanholas eu mataria. Não sei, talvez pelas castanholas, sim. Não, essa história que eu pegava garotos no Trianon é mentira, invenção, inveja. Nunca tive um caso com um homem. Não consigo me imaginar beijando um homem na boca. É verdade, uma vez eu estava no apartamento do Carlinha e ela passou lá de madrugada e arrebentou todo o meu carro com o carro dela. Foi um escândalo. Tive que pagar o conserto dos dois. Mas já havia perdoado ela por isso. Nego também, veementemente que eu gosto que me enfiem o dedo para chegar ao orgasmo. Não sei quem inventou isso. Podem perguntar para a Carlinha. Ela, a Andréa sim, que nunca gozou.

José Antonio de Morais e Castro é o chamado negro elegante. Freqüentador das altas rodas paulistanas, especializou-se em investigar esposa de maridos traídos e vice-versa. Dizem nos bares onde freqüenta que sempre tornava o cliente mais corno ainda. Negro alto, belíssimo, falava várias línguas, bom de papo e copo, respondia pela alcunha de Zé Inglês. Dizem que foi guarda-costas da Ava Gardner nos anos 70 na Espanha. Ele nega com um sorrizinho matreiro do alto dos seus 40 anos. Seu depoimento, muito tranqüilo, está nos autos:

- Sim, tive um envolvimento sexual com a falecida. Coitada, quando a conheci estava muito carente. Há oito meses que não fazia sexo. Imagine, doutor, uma moça com 33 anos, sem sexo. Estava tinindo de desejos. Devo dizer também que nunca consegui localizar as castanholas. Ela ficava irritada quando se tocava nesse assunto. Se ela gozava? E como. Era uma gritaria danada. Ela gostava, doutor, gostava muito. Não, nunca fizemos nenhum plano para viver juntos. O que ela queria mesmo era ir morar na Europa com os filhos. Não, nunca me disse que estivesse sendo ameaçada pelo marido, aquele banana. Não, ele não pagou os meus serviços até hoje. Me deve uns sete mil dólares. Sou casado, sim senhor. E muito bem casado. No dia do crime eu estava em Brasília investigando a mulher de um ministro. Desculpe, mas não posso dizer de que pasta. Mas é ligado à área econômica.

As investigações continuam. Talvez até sair esta edição a sociedade já saberá o desfecho do trabalho policial neste crime mais que VIP. Voltaremos ao assunto na próxima edição.

 Já havíamos fechado esta edição quando o delegado doutor Cesar Augusto dos Reis Figueiredo nos telefonou contando que o assassino havia confessado tudo. Para surpresa de todos - menos dele delegado, é claro - o assassino era o japonês Takashi Yishi. Em seguida, passou-nos um fax com o depoimento ipsis verbis do frio assassino:

- Japón estava no cozinha, né? Japón tinha fome, Japón estava com faca e queijo na mão. Dona Andléa entrou, né? Dona Andléa entrou gritando com Japa. Gritava muito, dona Andréa. Muito gin tônico, non? Muito gin tônico. Pegou Japa com geladera aberta, com fome. Devolador de geladera, gritava. Japón calmo. Japón tranquilo. Dona Andléa atirou queijo no lixo, muito nervosa. Japa calmo. Depois começou gritar: amarelo (era comigo), amarelo não prestar. Começou a dizer que raça boa era a negra. Eu sabia, doutor, eu sabia que ela esta de sacanagenzinha com detetive, né? Aquele de suspen... Como diz? Isso, suspensólio. Pretão de suspensólio. Negrão muito forte. Um dia me perguntou se Japa conhecia onde vendia camisinha tamanho glande. Eu disse que usava tamanho pequeno, né? Sei, já vou voltar para o crime. Mas negão queria camisinha glande. Depois, né, Dona Andléa disse que povo japonês era tudo falso e ladrón. Japón começou a ficar nervoso. O queijo no lixo, né? Queijo fresquinho, Japón com fome, com faca na mão, né? Aí então, madame veio com uma conversa de castanhola, aquilo que faz tic-tac-tec-tec, conhece, doutor? Disse que Japón tinha roubado castanhola. Japón acha castanhola coisa de bicha, de homem que gosta de homem, mas Japón não falou nada. Japón ficou na dele. Aí Dona Andléa queria visitar o meu quartinho no fundo para procurar castanhola. Aí Japón começou a se preocupar. Não queria que Dona Andléa visitasse quartinho de Takashi. Quartinho de Takashi tem coisa que mulher não pode ver. Tem revista mulher pelada. Japón gosta revista peito glande, né? Japón meio tarado. Japón viúvo, né? Japón com vergonha de madame. Japón gosta mulher peito glande. Dona Andléa, né doutor, peito glande, como Takashi gosta. Takashi ainda com faca na mão. Dona Andléa entrou no meu quartinho e foi logo abrindo gaveta com revistas mulher pelada. Japón com raiva de ser chamado ladrão, Japón com tesón em peito Dona Andlea. Japón com faca na mão. Japón quis ver peito de dona Andléa. Japón nunca tinha visto peito de nenhuma madame. Japón viu peito glande de madame. Mas já estava todo vermelho, todo cheio de sangue, né? Takashi não sabe o que aconteceu direito. Depois Takashi levou madame quarto dela, prendeu soutien de novo e deu tiro, né? Japón mentiu primeiro depoimento. Depois do crime, Takashi comeu misto frio com muito molho. Vermelho.