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AS BALAS PERDIDAS ESTÃO CHEGANDO

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o estado de s. paulo

1999

 


É. As balas perdidas estão chegando.

Começaram nos morros do Rio de Janeiro, foram descendo, cada vez mais perdidas e uma foi até o gabinete do prefeito da cidade. Ou foi do governador? Não importa. Talvez esta bala tenha ido lá para reivindicar aumento de salário, esgoto parta o bairro ou até mesmo uma aposentadoria mais justa. Perdida sim, mas não idiota. Não se sabe se quem estava perdida era a bala ou a autoridade.

Do Rio elas vieram para São Paulo. Rapidamente, como se tivessem pego um trem-bala perdida (acho que alguém já fez esse trocadilho infame. Aliás, todo trocadilho é infame) E chegaram com tudo, logo num cruzamento da Rebouças com a Brasil. Jardins. Matou uma jovem corretora de imóveis. 

E foi perto da minha casa. Começo a me preocupar com essas balas perdidas. Na verdade, elas são perdidas até que acham alguém que, no caso passa a ser ele ou ela, a perdida.
Como o mundo mudou, gente. Na minha adolescência, bala perdida era outra coisa. Muito mais romântica.

Era o seguinte: naquela época tinha uma bala de hortelã que era a unanimidade nacional. Chamava-se bala Piper. Apesar do apimentado nome, era de hortelã mesmo. Envólucro (que palavra!) verde. E quando a gente começava a namorar as meninas, depois de uns dias já de mãos dadas, mas sem beijos ainda, dobrava-se o papelzinho verde horizontalmente, dava-se um nó e entregava para a donzela. Todo mundo sabia que aquilo era pedir um beijo, já que pedir verbalmente poucos tinham coragem.

Pois muito bem. Se a menina não queria beijar ou se deixar beijar, educadamente, ela devolvia o nozinho. A gente chamava aquilo de bala perdida. Quantas balas não perdi na minha adolescência!

A bala perdida era a favor do amor e, por que não dizer, das nossas iniciantes sacanagens.
Tinha umas menininhas mais assanhadinhas, que não precisava nem do papelzinho dobrado. A gente dizia que elas deixavam sem bala mesmo. Mas com bala era sempre melhor, pois o hálito dá gente ficava no ponto. Matava-se duas coelhas com uma metralhada só.

Agora a bala perdida, a bala dos meus amores, mata. Logo logo vai entrar para as estatísticas das repartições de saúde do país. Morte por câncer, tanto, aids, tanto, bala perdida tanto.
Sugiro coletes à prova de bala perdida. Não esses pretos horríveis. Algo mais colorido, mais teen. Modelitos para a praia, em uma ou duas peças. Pijamas também. Meu querido Cazarré morreu dormindo, quando uma bala perdida chegou até ele de madrugada. Nem susto ele levou. Continuou dormindo ao lado da esposa e de Deus.

Por outro lado, os fabricantes de balas poderiam inventar, criar as balas perdidas. O sujeito ia na loja e pedia 10 balas normais e dez balas perdidas. Assim o atirador saberia que a sua bala perdida (por garantia dos fabricantes) sempre chegaria a algum alvo. Mesmo tendo de atravessar um estado inteiro.

Assim como os fabricantes das balas Piper, poderiam vender algumas sem a bala, só com o invólucro (que palavra!). Se bem que hoje ninguém precisa de uma bala para conquistar uma garota. Pelo menos entre gente civilizada. Entre bandidos e assassinos impunes, não sei como se conquista uma gatinha. Talvez seja dobrando o papelote. Não sei.

Fico na expectativa que a nossa guapa polícia invente um radar-imã apenas para balas perdidas. Todas as balas perdidas iriam cair ali.

E que volte a moda das balas Piper. E que você meu velho leitor não receba o não da mulher a ser conquistada e a beije muito e muito. Mas cuidado, não fique de costas para o mundo.
Afinal, o mundo está mesmo perdido. Como os nossos assassinos-perdidos e a nossa polícia-perdida.