É. As balas perdidas estão chegando.
Começaram nos morros do Rio de Janeiro, foram descendo, cada vez mais perdidas e uma foi
até o gabinete do prefeito da cidade. Ou foi do governador? Não importa. Talvez esta
bala tenha ido lá para reivindicar aumento de salário, esgoto parta o bairro ou até
mesmo uma aposentadoria mais justa. Perdida sim, mas não idiota. Não se sabe se quem
estava perdida era a bala ou a autoridade.
Do Rio elas vieram para São Paulo. Rapidamente, como se tivessem pego um trem-bala
perdida (acho que alguém já fez esse trocadilho infame. Aliás, todo trocadilho é
infame) E chegaram com tudo, logo num cruzamento da Rebouças com a Brasil. Jardins. Matou
uma jovem corretora de imóveis.
E foi perto da minha casa. Começo a me preocupar com essas balas perdidas. Na verdade,
elas são perdidas até que acham alguém que, no caso passa a ser ele ou ela, a perdida.
Como o mundo mudou, gente. Na minha adolescência, bala perdida era outra coisa. Muito
mais romântica.
Era o seguinte: naquela época tinha uma bala de hortelã que era a unanimidade nacional.
Chamava-se bala Piper. Apesar do apimentado nome, era de hortelã mesmo. Envólucro (que
palavra!) verde. E quando a gente começava a namorar as meninas, depois de uns dias já
de mãos dadas, mas sem beijos ainda, dobrava-se o papelzinho verde horizontalmente,
dava-se um nó e entregava para a donzela. Todo mundo sabia que aquilo era pedir um beijo,
já que pedir verbalmente poucos tinham coragem.
Pois muito bem. Se a menina não queria beijar ou se deixar beijar, educadamente, ela
devolvia o nozinho. A gente chamava aquilo de bala perdida. Quantas balas não perdi na
minha adolescência!
A bala perdida era a favor do amor e, por que não dizer, das nossas iniciantes
sacanagens.
Tinha umas menininhas mais assanhadinhas, que não precisava nem do papelzinho dobrado. A
gente dizia que elas deixavam sem bala mesmo. Mas com bala era sempre melhor, pois o
hálito dá gente ficava no ponto. Matava-se duas coelhas com uma metralhada só.
Agora a bala perdida, a bala dos meus amores, mata. Logo logo vai entrar para as
estatísticas das repartições de saúde do país. Morte por câncer, tanto, aids, tanto,
bala perdida tanto.
Sugiro coletes à prova de bala perdida. Não esses pretos horríveis. Algo mais colorido,
mais teen. Modelitos para a praia, em uma ou duas peças. Pijamas também. Meu querido
Cazarré morreu dormindo, quando uma bala perdida chegou até ele de madrugada. Nem susto
ele levou. Continuou dormindo ao lado da esposa e de Deus.
Por outro lado, os fabricantes de balas poderiam inventar, criar as balas perdidas. O
sujeito ia na loja e pedia 10 balas normais e dez balas perdidas. Assim o atirador saberia
que a sua bala perdida (por garantia dos fabricantes) sempre chegaria a algum alvo. Mesmo
tendo de atravessar um estado inteiro.
Assim como os fabricantes das balas Piper, poderiam vender algumas sem a bala, só com o
invólucro (que palavra!). Se bem que hoje ninguém precisa de uma bala para conquistar
uma garota. Pelo menos entre gente civilizada. Entre bandidos e assassinos impunes, não
sei como se conquista uma gatinha. Talvez seja dobrando o papelote. Não sei.
Fico na expectativa que a nossa guapa polícia invente um radar-imã apenas para balas
perdidas. Todas as balas perdidas iriam cair ali.
E que volte a moda das balas Piper. E que você meu velho leitor não receba o não da
mulher a ser conquistada e a beije muito e muito. Mas cuidado, não fique de costas para o
mundo.
Afinal, o mundo está mesmo perdido. Como os nossos assassinos-perdidos e a nossa
polícia-perdida.