Ele está vivo. Ele está velho, magro
e ranzinza. Não tem mais saco.
Detesta o frio. Por isso, mora seis
meses em Christmas Island, no Oceano Índico e seis meses em Christmas Island no Oceano
Pacífico, quando faz verão.
Durante o dia não faz absolutamente
nada. De noite, dorme. Dorme e sonha com os bons tempos. Quando ele reinava. Quando ele
era o autêntico e único Papai Noel do mundo.
Sim, o verdadeiro Papai Noel existe.
Estive com ele para uma conversa franca, daquelas da Playboy. Foi a primeira vez que ele
concedeu uma entrevista a um jornalista brasileiro. Depois da minha chegada, diria:
não podia negar uma entrevista para um país que tem uma cidade chamada Natal -
linda, por sinal - e outra chamada Belém - que já foi melhor.
Na ilha do Índico convive com mais
3.213 habitante (1983, est.). Aqui, mais próximo, no Pacífico, com 1.399 pela mesma
estimativa. Mesmo aqui ele não faz o menor sucesso. Quando entra num bar é possível
ouvir alguém sussurrar: ih, lá vem aquele velho chato e mentiroso de novo.
E eles têm razão. O homem está mesmo
chato. E tem seus motivos.
Milhões de motivos. São os milhões
de papais-noéis falsos por aí. Pais, avós, tios, primos mais velhos, vizinho. Todos se
julgam no direito de virar Papai Noel no Natal. Sem mais, nem menos.
Nossa conversa começou no quintal onde
cinco magras renas pastavam cabisbaixas.
- O que mais me incomoda é que a
imitação é precariamente barata. É que são muito mal feitos, péssimos atores. E o
texto então? Isso foi me desmoralizando.
- O senhor acredita que isso contribuiu
para...
- Pensam que criança é burra. Não
dá dois minutos e a criança se decepciona: pô, esse cara é o tio Guilherme,
pô! Quebra a fantasia da criança, entende? Traumatiza. Tem pesquisas sobre isso
lá nos Estados Unidos. Cresce, vira americano. Já pensou? Não é uma tragédia? Cresce
e vai se vestir de Papai Noel, como o pai, o tio, o primo, seus modelos natalinos.
- Tem Papai Noel preto por aí.
Nesses primos, tios que...
- Olha, veja bem, eu não sou
racista, nem nada. Que isso fique bem claro, mas tem crioulo por aí dando uma de Papai
Noel. O pessoal aqui na ilha me goza. Pega mal.
- No Brasil, isso?
- Na África é geral, né? No Brasil,
lá na sua cidade, na 25 de março, tinha Papai Noel preto, nordestino e - pasme -
japonês. Desmoraliza. Papai Noel com tabuleta escrito compro ouro.
- Mas mesmo assim, o senhor está bem?
- Tou péssimo. Tente se colocar no meu
lugar. Eu existo, sou uma pessoa de carne e osso - pode pegar - e ninguém acredita que eu
existo. Já pensou você, você mesmo, imagine se o mundo inteiro achar que você não
existe. Como é que você fica? Não tem Lexotan que segure. A minha amargura é muito
grande. Pega, pega aqui, no meu braço. Sentiu. Sou de carne e osso. Tenho RG, CIC, o
escambau. Adianta? Alguém vai achar que esse velhinho magro e ragubento é o verdadeiro e
único Papai Noel? Dói, meu filho. Dói muito.
- Foi de repente, isso? De deixarem de
acreditar no senhor?
- Coisa desse século maluco! Pouco a
pouco. O culpa foi dos pais. Quando um pai convidou o primo gordo para se vestir de
mim, começou a acabar comigo. O pai quer matar o Papai Noel. Quer, não. Já matou.
Ideologicamente, eu estou falando. Eu entendo de crianças. Afinal, sou pai. Quando eu
chegava nas casas e ainda era jovem, os pais tinham ciúmes de mim. As esposas babavam por
mim. Esses meus olhos azuis, sabe como é que é, né?
- Quantos filhos o senhor tem?
- Vivos, três. E oito netos. Mas já
tive milhares, milhões. Sou velho, meu filho.
- Esses três filhos moram com o
senhor?
- Estão pelo mundo. A mais velha, é
uma menina, está com uns cinqüenta anos e trabalha na bolsa de Amsterdã. O do meio, mora
em Itapetininga, interior de São Paulo e trabalha com empresa que faz sacos e sacolas de
plástico. É contador da firma. Veja você, os dois foram trabalhar com bolsas e sacos.
Puxaram o pai. E o caçula, infelizmente, é gay, coitado. Não que eu tenha nada contra
os gays, mas com filho da gente a coisa é diferente. Dói, aperta o coração da gente. A
pior parte é ter que aceitar o genro. Tem que ser muito moderno, avançado. É isso que
dá um mundo sem Papai Noel. O mundo perdeu a beleza da infância, aquela pureza, aquele
descobrir, perguntar, cantarolar Paula Toller.
- O senhor conhece a Paula Toller?
- Muito. Tenho todos os discos dela.
Tenho uma história curiosa com ela. Tem ano que a saudade bate forte e eu me visto, pego
meu trenó, dou um trato nas renas e vou dar uma olhada no Natal por aí. Fico do outro
lado da rua, disfarçado, vendo aqueles adultos idiotas todos entrando nas casas, sendo
recebidos com bexigas amareladas, com aquelas roupas vermelhas brilhando, de tecido de
péssima qualidade. Tenho pena desses caras que se vestem de Papai Noel, sabia? Pra mim
não existe nada mais ridículo no mundo do que se vestir de Papai Noel. E a barba que
não gruda? Ridículo! Mas eu estava falando da Paula Toller. Há uns dois anos, numa
dessas peregrinações, resolvi eu mesmo entrar na casa dela para dar um presente para o
Gabriel, filho dela. Ele devia estar fazendo uns cinco anos e acreditava em mim. Mas, para
entrar, tive que esperar o falso chegar. Juro, dei uma cacetada na nuca dele que ele ficou
estendido lá no quintal. Quando entrei na sala, todos me encararam incrédulos. O
Gabriel, não. Achou a coisa mais natural do mundo eu aparecer por ali e veio correndo
para os meus braços. Mas os pais! Os pais que estavam esperando aquele tio-avô, o que eu
tinha nocauteado, ficaram me olhando de boca aberta. E assim permaneceram durante os
três minutos em que eu conversei com o Gabriel.
Neste momento entra na sala a Eny,
mulher do Papai Noel: essa é a Eny. Baiana!, diz o marido a
enlaçando. Eny é uma mulata gorda de dentes lindos, muito brancos e certinhos. E informa
mais, brincando: era ela que me enchia o saco! E ri, gostoso. A primeira
pergunta que ela me faz:
- O senhor gosta de vatapá?
- Adoro.
- Tem cara, o Papanô adora. Por ele,
era vatapá todo dia.
- Adoro a cozinha baiana, diz Papai
Noel. Só em Salvador eu engordo uns seis ou sete quilos cada noite de Natal. Isso, nos
bons tempos, é claro. Vai, criatura, vai fazer o vatapá.
Foi uma ordem de Papai Noel. Ela vai
para a cozinha.
- Pode publicar aí. Lugar de mulher,
pra mim, é na cozinha. É disso que elas entendem. E cama. Tem um poeta africano que
disse que o amor é uma mulher nua deitada na cama. Germano Almeida, o nome dele.
- O senhor teve muitas mulheres?
- Muitas. Milhões. Mesmo em serviço,
quando era moço. Fui um moço bonito, magro, alto. Na noite de Natal, aquele clima todo,
uma viúva bem jovem aqui, uma mãe-solteira ali. Sempre dei muita sorte com mulher. Um
noite, só em Boston, transei com 12. Você está me olhando espantado, por que? Acha o
que? Que Papail Noel não tem sexo? Acha que Papai Noel não gosta? Tá me achando com
cara de anjo, é? Até Deus transa, meu.
Foi neste momento que entrou, pelo
jardim, esvoaçante e belo, o seu filho caçula Nair. Nair é linda. Puxou a mãe. Uma
bela mulata de quase um metro e oitenta e com os olhos do pai. Azuis, como os de Samuel
Wainer, diria o velhinho num momento de descontração e admiração. Naquele momento,
pela primeira vez, senti um lado gay dentro de mim. Tive que me segurar para não colocar
no meu currículo: comi o filho do Papai Noel, Nair. Resolvi voltar ao início da conversa.
- Não fosse essa avalanche de
tios-papais-noéis, o senhor estaria reinando até hoje?
- Duvido muito. A Internet ia acabar
comigo. A Internet e o cartão de crédito. Já estava na Bíblia. Mateus 1-2 e Lucas 1-2.
Conhece a Bíblia, meu filho? Pra velho, não há leitura melhor. É uma viagem só. Muito
doida, a Bíblia.
- E esse papa atual, o que o senhor/
- Nada a declarar! Nada a declarar!
- E o presidente Fernan/
- Esse vai longe. Vai Longe. Vai longe
em todos os sentidos. Pode escrever. Palavra de Papai Noel.
Depois do vatapá e de uma grapa
italiana, ele me pergunta:
- Filho, você acha mesmo que o
Fluminense vai disputar a terceira divisão?
A discussão sobre futebol foi longa,
como longo foi o porre.
- Quer um conselho, meu filho? Publica
isso, não. Ninguém vai acreditar em você. Vão achar que você é doido. Mas, como
estamos mesmo na época de Natal, o que você quer ganhar de presente? Pode pedir que eu
dou. O que você quiser.
Nair surgiu atrás da porta e me
piscou. Senti que era hora de partir. Mas, já que eu estava ali, fiz, antes, o meu
pedido para Papai Noel.
- Vou pedir uma coisa que eu sempre lhe
pedi e o senhor nunca me deu. Juízo!
- Deixa disso, meu filho. Vai por mim,
juízo, só o Juízo Final. Oh, e encontrando a Paula Toller, manda um beijo pra ela e
outro para o Gabriel e diga que ela escreve muito bem. Peça para ela fazer uma músicas
para mim. Para que eu perca de vez o juízo.
bibliografia:
- Gunston, John, Christmas and Epiphany
- Miles, C. A., Christmas Customs and
Traditions
- McArthur, Alexander A., The Evolution
of the Christian Year
- Ebom, Martin, St. Nicholas, Life and
Legend
- Jones, Charles W., Saint Nicholas of
Myra, Bari, Manhattan and Lins.
- Brave, Vaillant, Money for Christman.