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Aquele velho chato e mentiroso, de novo

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Revista Click

12/1998

 


Ele está vivo. Ele está velho, magro e ranzinza. Não tem mais saco.

Detesta o frio. Por isso, mora seis meses em Christmas Island, no Oceano Índico e seis meses em Christmas Island no Oceano Pacífico, quando faz verão.

Durante o dia não faz absolutamente nada. De noite, dorme. Dorme e sonha com os bons tempos. Quando ele reinava. Quando ele era o autêntico e único Papai Noel do mundo.

Sim, o verdadeiro Papai Noel existe. Estive com ele para uma conversa franca, daquelas da Playboy. Foi a primeira vez que ele concedeu uma entrevista a um jornalista brasileiro. Depois da minha chegada, diria: “não podia negar uma entrevista para um país que tem uma cidade chamada Natal - linda, por sinal - e outra chamada Belém - que já foi melhor”.

Na ilha do Índico convive com mais 3.213 habitante (1983, est.). Aqui, mais próximo, no Pacífico, com 1.399 pela mesma estimativa. Mesmo aqui ele não faz o menor sucesso. Quando entra num bar é possível ouvir alguém sussurrar: “ih, lá vem aquele velho chato e mentiroso de novo”.

E eles têm razão. O homem está mesmo chato. E tem seus motivos.

Milhões de motivos. São os milhões de papais-noéis falsos por aí. Pais, avós, tios, primos mais velhos, vizinho. Todos se julgam no direito de virar Papai Noel no Natal. Sem mais, nem menos.

Nossa conversa começou no quintal onde cinco magras renas pastavam cabisbaixas.

- O que mais me incomoda é que a imitação é precariamente barata. É que são muito mal feitos, péssimos atores. E o texto então? Isso foi me desmoralizando.

- O senhor acredita que isso contribuiu para...

- Pensam que criança é burra. Não dá dois minutos e a criança se decepciona: “pô, esse cara é o tio Guilherme, pô”! Quebra a fantasia da criança, entende? Traumatiza. Tem pesquisas sobre isso lá nos Estados Unidos. Cresce, vira americano. Já pensou? Não é uma tragédia? Cresce e vai se vestir de Papai Noel, como o pai, o tio, o primo, seus modelos natalinos.

- Tem Papai  Noel preto por aí. Nesses primos, tios que...

- Olha, veja  bem, eu não sou racista, nem nada. Que isso fique bem claro, mas tem crioulo por aí dando uma de Papai Noel. O pessoal aqui na ilha me goza. Pega mal.

- No Brasil, isso?

- Na África é geral, né? No Brasil, lá na sua cidade, na 25 de março, tinha Papai Noel preto, nordestino e - pasme - japonês. Desmoraliza. Papai Noel com tabuleta escrito compro ouro.

- Mas mesmo assim, o senhor está bem?

- Tou péssimo. Tente se colocar no meu lugar. Eu existo, sou uma pessoa de carne e osso - pode pegar - e ninguém acredita que eu existo. Já pensou você, você mesmo, imagine se o mundo inteiro achar que você não existe. Como é que você fica? Não tem Lexotan que segure. A minha amargura é muito grande. Pega, pega aqui, no meu braço. Sentiu. Sou de carne e osso. Tenho RG, CIC, o escambau. Adianta? Alguém vai achar que esse velhinho magro e ragubento é o verdadeiro e único Papai Noel? Dói, meu filho. Dói muito.

- Foi de repente, isso? De deixarem de acreditar no senhor?

- Coisa desse século maluco! Pouco a pouco. O culpa foi dos pais.  Quando um pai convidou o primo gordo para se vestir de mim, começou a acabar comigo. O pai quer matar o Papai Noel. Quer, não. Já matou. Ideologicamente, eu estou falando. Eu entendo de crianças. Afinal, sou pai. Quando eu chegava nas casas e ainda era jovem, os pais tinham ciúmes de mim. As esposas babavam por mim. Esses meus olhos azuis, sabe como é que é, né?

- Quantos filhos o senhor tem?

- Vivos, três. E oito netos. Mas já tive milhares, milhões. Sou velho, meu filho.

- Esses três filhos moram com o senhor?

- Estão pelo mundo. A mais velha, é uma menina, está com uns cinqüenta anos e trabalha na bolsa de Amsterdã. O do meio, mora em Itapetininga, interior de São Paulo e trabalha com empresa que faz sacos e sacolas de plástico. É contador da firma. Veja você, os dois foram trabalhar com bolsas e sacos. Puxaram o pai. E o caçula, infelizmente, é gay, coitado. Não que eu tenha nada contra os gays, mas com filho da gente a coisa é diferente. Dói, aperta o coração da gente. A pior parte é ter que aceitar o genro. Tem que ser muito moderno, avançado. É isso que dá um mundo sem Papai Noel. O mundo perdeu a beleza da infância, aquela pureza, aquele descobrir, perguntar, cantarolar Paula Toller.

- O senhor conhece a Paula Toller?

- Muito. Tenho todos os discos dela. Tenho uma história curiosa com ela. Tem ano que a saudade bate forte e eu me visto, pego meu trenó, dou um trato nas renas e vou dar uma olhada no Natal por aí. Fico do outro lado da rua, disfarçado, vendo aqueles adultos idiotas todos entrando nas casas, sendo recebidos com bexigas amareladas, com aquelas roupas vermelhas brilhando, de tecido de péssima qualidade. Tenho pena desses caras que se vestem de Papai Noel, sabia? Pra mim não existe nada mais ridículo no mundo do que se vestir de Papai Noel. E a barba que não gruda? Ridículo! Mas eu estava falando da Paula Toller. Há uns dois anos, numa dessas peregrinações, resolvi eu mesmo entrar na casa dela para dar um presente para o Gabriel, filho dela. Ele devia estar fazendo uns cinco anos e acreditava em mim. Mas, para entrar, tive que esperar o falso chegar. Juro, dei uma cacetada na nuca dele que ele ficou estendido lá no quintal. Quando entrei na sala, todos me encararam incrédulos. O Gabriel, não. Achou a coisa mais natural do mundo eu aparecer por ali e veio correndo para os meus braços. Mas os pais! Os pais que estavam esperando aquele tio-avô, o que eu tinha nocauteado,  ficaram me olhando de boca aberta. E assim permaneceram durante os três minutos em que eu conversei com o Gabriel.

  Neste momento entra na sala a Eny, mulher do Papai Noel:  “essa é a Eny.  Baiana!”, diz o marido a enlaçando. Eny é uma mulata gorda de dentes lindos, muito brancos e certinhos. E informa mais, brincando: “era ela que me enchia o saco”! E ri, gostoso. A primeira pergunta que ela me faz:

  - O senhor gosta de vatapá?

- Adoro.

- Tem cara, o Papanô adora. Por ele, era vatapá todo dia.

- Adoro a cozinha baiana, diz Papai Noel. Só em Salvador eu engordo uns seis ou sete quilos cada noite de Natal. Isso, nos bons tempos, é claro. Vai, criatura, vai fazer o vatapá.

  Foi uma ordem de Papai Noel. Ela vai para a cozinha.

  - Pode publicar aí. Lugar de mulher, pra mim, é na cozinha. É disso que elas entendem. E cama. Tem um poeta africano que disse que o amor é uma mulher nua deitada na cama. Germano Almeida, o nome dele.

- O senhor teve muitas mulheres?

- Muitas. Milhões. Mesmo em serviço, quando era moço. Fui um moço bonito, magro, alto. Na noite de Natal, aquele clima todo, uma viúva bem jovem aqui, uma mãe-solteira ali. Sempre dei muita sorte com mulher. Um noite, só em Boston, transei com 12. Você está me olhando espantado, por que? Acha o que? Que Papail Noel não tem sexo? Acha que Papai Noel não gosta? Tá me achando com cara de anjo, é? Até Deus transa, meu.

  Foi neste momento que entrou, pelo jardim, esvoaçante e belo, o seu filho caçula Nair. Nair é linda. Puxou a mãe. Uma bela mulata de quase um metro e oitenta e com os olhos do pai. Azuis, como os de Samuel Wainer, diria o velhinho num momento de descontração e admiração. Naquele momento, pela primeira vez, senti um lado gay dentro de mim. Tive que me segurar para não colocar no meu currículo: comi o filho do Papai Noel, Nair. Resolvi voltar ao início da conversa.

  - Não fosse essa avalanche de tios-papais-noéis, o senhor estaria reinando até hoje?

- Duvido muito. A Internet ia acabar comigo. A Internet e o cartão de crédito. Já estava na Bíblia. Mateus 1-2 e Lucas 1-2. Conhece a Bíblia, meu filho? Pra velho, não há leitura melhor. É uma viagem só. Muito doida, a Bíblia.

- E esse papa atual, o que o senhor/

- Nada a declarar! Nada a declarar!

- E o presidente Fernan/

- Esse vai longe. Vai Longe. Vai longe em todos os sentidos. Pode escrever. Palavra de Papai Noel.

  Depois do vatapá e de uma grapa italiana, ele me pergunta:

  - Filho, você acha mesmo que o Fluminense vai disputar a terceira divisão?

  A discussão sobre futebol foi longa, como longo foi o porre.

  - Quer um conselho, meu filho? Publica isso, não. Ninguém vai acreditar em você. Vão achar que você é doido. Mas, como estamos mesmo na época de Natal, o que você quer ganhar de presente? Pode pedir que eu dou. O que você quiser.

  Nair surgiu atrás da porta e me piscou. Senti que era hora de partir. Mas, já que eu estava ali,  fiz, antes, o meu pedido para Papai Noel.

  - Vou pedir uma coisa que eu sempre lhe pedi e o senhor nunca me deu. Juízo!

- Deixa disso, meu filho. Vai por mim, juízo, só o Juízo Final. Oh, e encontrando a Paula Toller, manda um beijo pra ela e outro para o Gabriel e diga que ela escreve muito bem. Peça para ela fazer uma músicas para mim. Para que eu perca de vez o juízo.

 

bibliografia:

- Gunston, John, Christmas and Epiphany

- Miles, C. A., Christmas Customs and Traditions

- McArthur, Alexander A., The Evolution of the Christian Year

- Ebom, Martin, St. Nicholas, Life and Legend

- Jones, Charles W., Saint Nicholas of Myra, Bari, Manhattan and Lins.

- Brave, Vaillant, Money for Christman.