- Mas, está
aberto?
Era e é e será
o único bar do mundo que a gente nunca sabia se estava aberto ou fechado. Tinha que
arriscar. Podia dar sorte.
O Bar do
Mario, lá na Floriano Peixoto, uma das mais extensas avenidas de Lins, no interior de
São Paulo. Normalmente não estava aberto. E não adiantava bater na janela do Mario
que morava no fundo do bar com a mãe e uma porção de irmãos e irmãs
que, se estava fechado, fechado ficava.
Tudo
japonês.
Jamais
saberemos porque o Mario não abria o bar de vez em quando. Ou de vez em sempre. Às
vezes, não abria apenas por um dia. Outra, ficava uma semana fechado. Um mês. E,
ultimamente, meses. Não abria e pronto.
O mais
interessante é que, mesmo com isso, nunca perdeu a freguesia. Se aberto estava, aberto
ficava até o sol bater na porta. Era e é e será o bar dos boêmios da
minha cidade. Outra característica: o Mario nunca explicou a sua idiossincrasia para
abrir ou fechar o bar. Mesmo porque, duvido que ele saiba o que é idiossincrasia.
O Mario
fazia um sanduíche que era para disfarçar as milhares de garrafas de cerveja
estupidamente e casco escuro que a gente consumia. O sanduíche o melhor que
já comi na minha vida não tinha nome. Era sanduíche mesmo. E mais: só tinha
aquele. Daqueles que comidos escorrem pelos dedos, pelo pulso, vai caindo coisa na calça
e depois a gente ainda chupa os dedos. Era um sanduíche que a gente comia e bebia. Era
quase líquido.
Tinha de
tudo o sanduíche. Ali, dentro do pão da padaria da esquina, você podia encontrar um
bife, ovos, alface, cebola, moscas, bacon, presunto, molho japonês e pasmem
peixe cru. Tudo feito numa rapidez incrível pelas mãos do Mario, nem sempre muito
limpas. Às vezes a irmã, o irmão ou a mãe se arvoravam a confeccionar o sanduíche.
Mas não era a mesma coisa. Faltava a cabeça do Mario. E, sejamos sinceros, alguns fios
de cabelo.
Estou
contando essa história toda porque outro dia eu estava passando ali numa rua do Itaim, em
São Paulo, e vi lá uma placa. Bar do Mario. Como o do japonês: sem acento. Parei e
entrei. Esse Bar do Mario estava aberto e era madrugada. Espanto: lá dentro, umas duas ou
três gerações de linenses. Aqueles mesmo amigos lá do interior. Muitos sanduíches
depois, muitas vidas passadas a limpo, muitas barrigas acima da cintura (e abaixo), muita
história pra contar, a verdade.
Foi isso.
Todos aqueles freqüentadores do bar lá do interior se juntaram e resolveram abrir um bar
aqui, em homenagem ao meu xará. E trazer, pra cá, o Mario Japonês para, sem falta e já
sem cabelos (comemos todos eles) fazer o seu sanduíche pra turma da capital.
O Mario
topou. Só que nunca se sabe se o Mario veio ou não naquela noite. Às vezes falta um
dia, uma semana, um mês. Mas quando vem...
E, como
sempre, há mais de quarenta anos, não dá a menor explicação. Mesmo porque nunca
ninguém perguntou o motivo dos seus fechamentos e desaparecimento.
Tem gente
que freqüenta o sanduíche há três décadas e nunca teve a felicidade de encontrar o
Mario. Dizem até, as más línguas, que o Mario não existe.
Posso
garantir que já vi o Mario algumas vezes. Tanto no bar de Lins quando abria
como no do Itaim, quando ele vem.
E
acredite quem quiser sei o nome inteiro do Mario. Mario Sumio.