Mente-se muito no Brasil, Nunca se mentiu
tanto como agora. Só que agora a mentira é transmitida por satélite, ao vivo, a cores,
para milhões de boquiabertos famintos. Vivemos numa loteria de mentiras que ganha mais
quem mente mais. Ou mente mais quem ganha mais? Mas nada é absurdo neste país onde se
rifa um (e apenas um) cílio do Michael Jackson. E não acharam nenhum pentelhinho para
rifar entre os garotinhos?
Mas deixemos o absurdo de lado e voltemos
à mentira. O brasileiro sempre gostou de mentir. Mas, antigamente, a mentira era contada
como mentira mesmo. Tanto o narrador quanto o ouvinte sabiam que aquilo era uma mentira. O
que mudou é que hoje o ouvinte continua sabendo que o narrador mente, mas o narrador
afirma caradepaumente que se matará se o que ele diz for mentira. Antes a mentira era de
mentirinha. Hoje a mentira é de verdade
Em toda cidade do interior sempre
existiram os personagens manjados. Tinha o corno, o viado, o doido, o bêbado e tinha,
claro, o mentiroso. O mentiroso era um profissional da mentira. Em Lins, tinha o seu
Naves. Como mentia bem o velho e simpático seu Naves. Era um prazer, ainda garoto,
sentar-se perto dele no bar do clube e ficar horas a ouvir as mentiras que ele contava
como se os fatos houvessem acontecido com ele, um dia antes.
Casos que o Naves contava enquanto
mastigava a sua dentadura como se fosse chiclete:
- Um dia eu estava andando pelo matagal
da minha fazenda e ouvi alguém cantado "Mulher Rendeira". Ficava repetindo sem
parar: "olé mulher rendeira, olê mulher rendá, olê mulher rendeira , olê mulher
rendá"! Bem entoadinho. Mas, no meio daquele mato não podia ter ninguém. Lá só
tinha onça. Aí então eu aprumei o ouvido e fui caminhando na direçào do som. Cada vez
mais alto. Sabem o que era? Era um pedaço de disco quebrado no chão e o vento fazia um
galho balançar e passava um espinho pelo disco.
Outra mentira, esta, dupla:
- Teve um ano que as raposas estavam
muito ariscas, muito rápidas. Então o que eu fiz? Pequei dois cachorros, amarrei um nas
costas do outro e eles saiam em disparada. Quando um cansava, virava, e o outro corria.
Assim por diante. Peguei muita raposa assim.
Esta, além de ser uma mentira clássica,
não é dele. Se não me engano, é do Barão de Munchausen. Mas o Naves era assim mesmo.
Outra:
- Um dia eu perdi o breque do carro ali
perto de Bauru, numa descida, não conseguia brecar, fui passando todos os carros, a uma
velocidade incalculável.
- Mas a quanto por hora o senhor estava,
seu Naves?
- Não sei, porque o velocímetro
estourou. Só sei que eu estava chupando um picolé e coloquei o palito ele para fora e
ele fazia brrrrrrrrrr nos postes.
Mais uma do Naves:
- Um dia eu fui caçar. Estava voltando
para casa e apareceu uma onça pintada. Imensa. Ficou me olhando. Eu olhando pra ela.Eu e
ela ali, na mata. Mais ninguém por perto. Tinha duas balas na cartucheira. Dei o primeiro
tiro, estava nervoso, errei. Eu suava frio. Ela foi se aproximando. Babava, a danada,
faminta. Dei o segundo tiro, acertei na pata dela. Ela ficou irritada, uma fera. Veio
andando para o meu lado. Joguei o facão na bruta. Errei. Ela veio chegando mais perto.
Joguei a espingarda nela. Ela só se irritou mais. Olhei para trás. Tinha um precipício.
Não tinha saída.
- E aí, seu Naves?
- Aí a onça pulou em cima de mim.
Comecei a rezar uma Salve Rainha.
- E daí, seu Naves? E daí?
- E dai?... E daí, oras! E daí que a
onça me comeu!
Fiquei me lembrando destas historias
depois de ver o deputado Alves na televisão. O Alves me lembrou o Naves. Nas mentiras e
nas letras dos nomes. Ambos me divertem muito. Só que o Naves não comprometia nem o
orçamento da esposa dele. Ali ninguém metia a mão. Verdade! Bons tempos, quando o Naves
não era Alves.