Página anterior

ANTIGAMENTE MENTIA-SE APENAS DE MENTIRINHA

Próxima crônica

o estado de s. paulo

03/12/94

 


Mente-se muito no Brasil, Nunca se mentiu tanto como agora. Só que agora a mentira é transmitida por satélite, ao vivo, a cores, para milhões de boquiabertos famintos. Vivemos numa loteria de mentiras que ganha mais quem mente mais. Ou mente mais quem ganha mais? Mas nada é absurdo neste país onde se rifa um (e apenas um) cílio do Michael Jackson. E não acharam nenhum pentelhinho para rifar entre os garotinhos?

Mas deixemos o absurdo de lado e voltemos à mentira. O brasileiro sempre gostou de mentir. Mas, antigamente, a mentira era contada como mentira mesmo. Tanto o narrador quanto o ouvinte sabiam que aquilo era uma mentira. O que mudou é que hoje o ouvinte continua sabendo que o narrador mente, mas o narrador afirma caradepaumente que se matará se o que ele diz for mentira. Antes a mentira era de mentirinha. Hoje a mentira é de verdade

Em toda cidade do interior sempre existiram os personagens manjados. Tinha o corno, o viado, o doido, o bêbado e tinha, claro, o mentiroso. O mentiroso era um profissional da mentira. Em Lins, tinha o seu Naves. Como mentia bem o velho e simpático seu Naves. Era um prazer, ainda garoto, sentar-se perto dele no bar do clube e ficar horas a ouvir as mentiras que ele contava como se os fatos houvessem acontecido com ele, um dia antes.

Casos que o Naves contava enquanto mastigava a sua dentadura como se fosse chiclete:

- Um dia eu estava andando pelo matagal da minha fazenda e ouvi alguém cantado "Mulher Rendeira". Ficava repetindo sem parar: "olé mulher rendeira, olê mulher rendá, olê mulher rendeira , olê mulher rendá"! Bem entoadinho. Mas, no meio daquele mato não podia ter ninguém. Lá só tinha onça. Aí então eu aprumei o ouvido e fui caminhando na direçào do som. Cada vez mais alto. Sabem o que era? Era um pedaço de disco quebrado no chão e o vento fazia um galho balançar e passava um espinho pelo disco.

Outra mentira, esta, dupla:

- Teve um ano que as raposas estavam muito ariscas, muito rápidas. Então o que eu fiz? Pequei dois cachorros, amarrei um nas costas do outro e eles saiam em disparada. Quando um cansava, virava, e o outro corria. Assim por diante. Peguei muita raposa assim.

Esta, além de ser uma mentira clássica, não é dele. Se não me engano, é do Barão de Munchausen. Mas o Naves era assim mesmo.

Outra:

- Um dia eu perdi o breque do carro ali perto de Bauru, numa descida, não conseguia brecar, fui passando todos os carros, a uma velocidade incalculável.

- Mas a quanto por hora o senhor estava, seu Naves?

- Não sei, porque o velocímetro estourou. Só sei que eu estava chupando um picolé e coloquei o palito ele para fora e ele fazia brrrrrrrrrr nos postes.

Mais uma do Naves:

- Um dia eu fui caçar. Estava voltando para casa e apareceu uma onça pintada. Imensa. Ficou me olhando. Eu olhando pra ela.Eu e ela ali, na mata. Mais ninguém por perto. Tinha duas balas na cartucheira. Dei o primeiro tiro, estava nervoso, errei. Eu suava frio. Ela foi se aproximando. Babava, a danada, faminta. Dei o segundo tiro, acertei na pata dela. Ela ficou irritada, uma fera. Veio andando para o meu lado. Joguei o facão na bruta. Errei. Ela veio chegando mais perto. Joguei a espingarda nela. Ela só se irritou mais. Olhei para trás. Tinha um precipício. Não tinha saída.

- E aí, seu Naves?

- Aí a onça pulou em cima de mim. Comecei a rezar uma Salve Rainha.

- E daí, seu Naves? E daí?

- E dai?... E daí, oras! E daí que a onça me comeu!

Fiquei me lembrando destas historias depois de ver o deputado Alves na televisão. O Alves me lembrou o Naves. Nas mentiras e nas letras dos nomes. Ambos me divertem muito. Só que o Naves não comprometia nem o orçamento da esposa dele. Ali ninguém metia a mão. Verdade! Bons tempos, quando o Naves não era Alves.